{ REVISTA COUROBUSINESS }
{ REVISTA COUROBUSINESS }
A REVISTA   |   ASSINATURAS   |   FALE CONOSCO   |    EDIÇÕES ANTERIORES

A indústria do Couro Precisa Acertar o Passo
Entrevista com
José Roberto Scarabel

           

Foram tranquilizadores os resultados alcançados pelo setor de curtimento no primeiro semestre. Com bom desempenho, o setor conseguiu aumentar suas vendas e os preços médios de venda. Se por um lado este resultado serviu para recuperar parte das perdas nas vendas que se acumularam até meados de 1999, por outro, a rentabilidade alcançada manteve-se ainda muito aquém da desejada. Para o segundo semestre, alguns especialistas entendem que, como reflexo dó aumento na demanda mundial do couro verificado nos últimos meses, projetasse um cenário preocupante para a cadeia produtiva do couro no que respeita à disponibilidade da matéria-prima, couro verde.


Alguns fatores, segundo esses mesmos analistas, podem contribuir para isso: o nível de abate não vem acompanhando os índices de crescimento da economia, pressionando em alta o preço de compra do couro verde e dificultando uma melhor competição da indústria no mercado internacional; o vai-e-vem do preço do petróleo no mercado internacional e a expectativa de um vigoroso reajuste no preço dos derivados no Brasil, elevam o preço dos produtos alternativos do couro; há aumento de demanda mundial para couros em estofados, tanto do indústria automobilístico como na moveleira; as economias asiáticas se recuperaram, e a adesão mundial à moda couro aumentou. Sem dúvida, são ingredientes de um intrincado jogo de xadrez que devem fazer parte, daqui para frente, das estratégias de mercado da indústria do couro. A revista Courobusiness entrevistou o presidente do CICB Centro das Indústrias de Curtumes, um dos atores desse mercado, Senhor José Roberto Scarabel, para saber qual é a avaliação que o setor faz da situação atual.

Courobusiness - O preço do couro tem subido constantemente nos últimos meses, causando sérias preocupações nos diversos segmentos da cadeia produtiva. No sua opinião, o mercado está próximo de uma reversão de expectativa ou ainda há espaço para novos aumentos de preço na matéria-prima?

Tudo indica que chegamos a um patamar oferece mais espaço para novos aumentos. Mantidos os diferenciais competitivos a favor dos importadores internacionais de Wet-Blue, formalizasse um círculo repetitivo e perigoso: quanto mais caro fica o couro, mais competitivos ficam os concorrentes lá fora. Estamos nos tornando vítimas do exportação do couro Wet-Biue. Depois de transformado em sapato, ele acaba concorrendo com a indústria nacional calçadista e com larga vantagem competitiva.

Courobusiness - A taxação na saída do couro Wet-Biue para a exportação poderia ser uma solução para que essa situação fosse alterada?

O setor de curtimento é a favor da implantação de medidas compensatórias que possam contribuir para o aumento do competitividade do produto brasileiro com maior valor agregado no mercado internacional. A taxação do Wet-Blue, sem dúvida, é uma das alternativas que podem ser adotadas.

Courobusiness - O setor da Pecuária tem demonstrado grande preocupação com essa medida, enquanto o setor Calçadista acha que é a grande solução para seus problemas. Como o Sr. vê a posição desses dois importantes elos da cadeia produtiva?

A solução não pode ser simplista e analisada somente pelos reflexos que ela possa produzir, num curto espaço de tempo, em um dos elos da cadeia produtiva. Erra o calçadista quando quer a taxação do Wet-Blue para provocar uma queda do preço do couro no mercado interno, e erra o pecuarista quando não quer a taxação do Wet-Blue com medo de que a medida possa contribuir para a queda do preço do couro e até do próprio boi.

Courobusiness - Mas ambos não têm que valorizar seus produtos?

Sim, mas acredito que não seja desta forma. Historicamente, nos períodos de maior exportação de calçados, o preço do couro sempre esteve em patamares elevados. O barateamento do couro acaba atendendo aos interesses dos grandes especuladores internacionais que, depois de adquirirem grandes quantidades do produto provocam aumento no seu preço. A meu ver, o setor da pecuária deveria estimular o processamento do couro pela indústria nacional para que a mesma tenha, cada vez mais, força na exportação, com isso garantindo preço bom e estável por um tempo maior. Da mesma forma, os calçadistas deveriam ser os grandes compradores de couro, substituindo a ação dos especuladores, propiciando, também, preço bom e estável e mercado competitivo para ambos os setores, pois os especuladores não teriam volumes suficientes do nosso couro para fazer seu atual jogo de mercado.

Courobusiness - E os calçadistas ainda têm fôlego para pagar mais pelo couro?

Acho que eles estão próximos do limite. Entretanto, se eles não sofressem as desvantagens da competição internacional, em parte provocada pelo nosso próprio couro, não teriam maiores problemas com os atuais preços. Ocorre que estamos perdendo competitividade provocada pelo uso do nosso próprio couro, ou seja, estamos exportando couro Wet-Blue, criando fortes concorrentes, preparados tecnologicamente, possuidores de alta dose de competitividade e que vão disputar agressivamente o mercado mundial com as nossas empresas calçadistas. Se eliminarmos o desequilíbrio existente, o mercado mundial não terá as mesmas facilidades para se abastecer em outras regiões com couros de mesma classificação que o nosso. Ninguém vai conseguir tapar esse buraco com fornecimentos de outras partes do mundo. Então, se equalizarmos a competição, mesmo que temporariamente, via taxação na saí da do Wet-Blue, vamos estimular a indústria nacional a uma forte reação no jogo da competitividade. Como conseqüência, espera-se que o comprador industrial europeu busque desobstruir as taxações existentes em seu mercado, tanto para o couro Acabado e Semi-acabado, como para os calçados, para poder, em contrapartida, abastecer suas indústrias com nosso couro mais valorizado. Havendo uma equiparação nas condições de comércio entre os países, a indústria nacional calçadista ficaria situada numa posição competitiva privilegiada, pois conta com outros fatores que lhe permite manter e sustentar uma vantagem competitiva nos mercados que são abastecidos por calçados de outras regiões e fabricados com nosso couro, independente do preço do couro praticado no mercado interno.

Courobusiness - Ainda com respeito à taxação do Wet-Blue, o Sr. espera uma decisão favorável do Governo?

Bem, acho que o governo está ciente do problema e das suas conseqüências. Se ele quer realmente incrementar as exportações, criar empregos e gerar rendas, não me parece que temos outro caminho a seguir.

{ REVISTA COUROBUSINESS }