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SEGUNDO ENCONTRO DO COURO DESTACA CENÁRIO ECONÔMICO E PROGRAMA DE MELHORIA DA QUALIDADE DO COURO

 

A economia foi o tema inicial do Segundo Encontro Nacional do Couro, realizado em meados de setembro, em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul, sob a coordenação do Consultor Hélio Mendes, diretor do Instituto Latino. Se no ano passado, o setor estava mais preocupado em mostrar coesão frente à iminente redução da taxação do Wet Blue, de 7% para 4%, desta vez os debates se deram em torno das ferramentas que a indústria coureiro-calçadista tem a sua disposição para mostrar esta força do conjunto. Neste sentido, a agregação de valor e, claro, a própria taxação do Wet Blue em percentuais maiores, foram temas naturalmente presentes.

 

Em relação ao panorama econômico houve divergências. O otimismo do primeiro palestrante, vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria, Carlos Eduardo Moreira Ferreira, não se repetiu nas apresentações subsequentes. O representante da CNI apontou as exportações e o aumento da oferta interna de crédito como as grandes razões do otimismo e dos números favoráveis. Com base nos dados do segundo trimestre deste ano, Carlos Eduardo Moreira Ferreira apontou crescimento na indústria da ordem de 3%. “ Desde logo é preciso consignar que a atividade econômica surpreendeu positivamente no segundo trimestre deste ano. O produto interno bruto brasileiro ampliou-se em 1,4%, na comparação com o primeiro trimestre. A indústria liderou esse crescimento

e expandiu-se em 3,0%”, revelou o executivo. O aumento em 1% do faturamento real da indústriade transformação, e de 1,8% no volume de vendas no varejo foram dois exemplos levados por ele para ilustrar o quadro econômico favorável. “Essa profusão de bons resultados deve ser celebrada, não só pela expressividade do crescimento, mas principalmente pela contraposição à tendência de queda da atividade econômica esboçada entre o quarto trimestre de 2004 e os primeiros meses de 2005”, avaliou Moreira Ferreira. Segundo os dados da CNI, a perspectiva para o ano que vem é de um crescimento no PIB de 5%, apesar da “excessiva carga tributária e falta de investimentos em áreas estratégicas como a de transporte e energia”. Para 2005, a Confederação Nacional da Indústria aumentou de 3,2% para 3,5% a estimativa para o crescimento da economia brasileira. E de acordo com o Informe Conjuntural, elaborado pela Unidade de Política Econômica da CNI, a indústria continuará liderando o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), com crescimento de 4,4%, e não mais 4,2% conforme a previsão anterior feita no segundo trimestre.

Para Carlos Eduardo, a oferta de crédito interno teve papel importante no dinamismo econômico. “Apesar da demanda interna não ser atualmente a maior dinamizadora da economia, ela ainda guarda algum fôlego de crescimento”, afirmou o vice-presidente em seu discurso de abertura. Segundo ele, o destaque, em termos de crédito, foi o aumento das operações com o desconto em folha de pagamento. Em julho de 2005, o volume de empréstimos atingiu R$ 19,7 bilhões, o que representou uma expansão de 110% ante o mesmo mês do ano passado. Além disso, como sustentou, as taxas de juros dessa modalidade de empréstimo recuaram dois pontos percentuais ao longo do ano, na contramão da subida da taxa básica de juros. Em janeiro de 2005, os juros nos empréstimos consignados em folha de pagamento eram de 38,9% ao ano e passaram para 36,8% em julho.

O destaque na área de exportação, segundo Carlos Eduardo Moreira Ferreira, é o volume da corrente de comércio exterior, (que se situava em torno de US$ 111 bilhões nos últimos doze meses, findos em agosto. Logo em seguida, nos doze meses acumulados até setembro de 2005, o valor já havia chegado a mais de US$ 112 bi, o que levou o ministro Luiz Fernando Furlan a redimensionar a meta do ano para US$ 117 bi). O palestrante não deixou de citar a importante colaboração que o segmento couro confere ano-a-ano para a alavancagem desses números.

 

Já o economista José Rubens Garlipp, da Universidade de Uberlândia, apresentou um quadro bem menos otimista. Sugeriu cautela ao lembrar da queda de 2,5% na atividade industrial de agosto, e afirmou que o crescimento industrial no ano está alicerçado em alguns segmentos, como o de bens duráveis. O economista considera preocupante uma inflação em queda há quatro meses consecutivos, acrescentando que a política de juros adotada pelo governo gera "asfixia da produção, renda e emprego". Na sua avaliação não há qualquer justificativa teórica para o alto nível dos juros. Num contexto, segundo ele, em que o Brasil representa ainda 1% do comércio internacional, Garlipp estima crescimento do PIB de somente 3,5% em 2006, diferentemente das projeções da CNI, que estima um crescimento próximo dos 5%. A expectativa da CNI está baseada num cenário de progressiva queda nos juros e a consequente expansão do investimento no setor produtivo.

O analista do Banco Santander, Maurício Molan, acrescentou que “não há risco de a política contaminar a economia, porque o que ocorre é que a economia está contaminando a política”. Para ele, uma crise não aconteceria antes de 2007 ou 2008, porque o ambiente global é muito favorável para a economia brasileira, porque o mundo está crescendo, financiado por juros baixos. Neste contexto, segundo ele, todos os países apresentam balança comercial favorável, com exceção para os Estados Unidos, que estão com déficit. Porém, Molan avalia que este ambiente favorável é insustentável a longo prazo, por isso a previsão de uma possível crise. Concluindo sua palestra, o economista explicou que balança comercial brasileira está sendo beneficiada pela alta no preço das commodities . Uma delas é o petróleo que, apesar de não anunciar queda nos preços, não será problema grave para o Brasil, que já produz o que consome. Suas previsões para o câmbio são de R$2,30 ao final de 2005, e de R$ 2,50 em 2006. O PIB estaria em 3,8% (mais próximo das previsões de seu colega Garlipp), e a inflação para o ano que vem ficaria em 4,5% com taxa de juros caindo a 14,5%.

 

AGREGAÇÃO DE VALOR

O 2º Encontro Nacional do Couro trouxe destaque especial para o Programa de Melhoria do Couro, desenvolvido em parceria com o Sebrae. O programa pretende dobrar a receita das exportações sem necessidade de aumentar o volume. Leogênio Alban, vice-presidente de Matérias-Primas do Centro das Indústrias de Curtume do Brasil, explicou que o programa é educativo. “ Os módulos levam conscientização sobre o potencial da matéria-prima couro aos frigoríficos e pecuaristas”, enfocou o palestrante. O módulo esfola, por exemplo, já foi levado a 343 frigoríficos, e conseguiu gerar redução de 60% em furos e raias nos couros. Com isso, a raspa ganhou maior valor no mercado. Leogênio Alban anunciou o módulo Conservação de Peles já que se observou, durante os treinamentos, muito problema por erros na hora de salgar a pele. O módulo peles exóticas conseguiu chegar a 160 participantes.

“Muitas peles de peixe que eram simplesmente jogadas no lixo, agora estão sendo muito valorizadas na produção de manufaturados”, afirmou o vice-presidente. Creusa Batista, coordenadora do programa de promoção às exportações que o CICB desenvolve com apoio da Apex-Brasil, abordou os projetos que estão em desenvolvimento. Entre eles, os projetos de participação em feiras internacionais, com a presença neste ano em eventos na Índia, China, Hong Kong, Itália e França. A participação, segundo dados apresentados pelas empresas expositoras, geraram em 2004 um potencial de US$ 280 milhões em vendas de couros. Outro projeto é o Compradores que, durante a Fimec 2006, deverá trazer 30 representantes de países com potencial para negócios com indústrias de couro brasileiras. Outra iniciativa em andamento é a realização de seminários em que empresas recebem orientação e exemplos de quem já obteve vitórias no mercado internacional. Para a Courovisão, por exemplo, foram trazidos quatro jornalistas de outros países, que trabalham em revistas especializadas na moda em couro, para que conhecessem o potencial de produção brasileira e divulgassem, posteriormente, em seus países.

A IMPORTÂNCIA DO MARKETING

A terceira etapa do 2º Encontro Nacional do Couro foi direcionada para a importância do marketing no desempenho das empresas. Fizeram apresentações a consultora Maria Elisa Andrade, o professor Marcos Basso e Renato Furtado, da Samello, que falaram sobre a importância do marketing para o sucesso das empresas do setor.

Segundo Maria Elisa Andrade o marketing é muito mal aproveitado nas empresas, apontando como falhas o desconhecimento do planejamento estratégico da empresa, a falta de aproveitamento dos profissionais de MKT, a incapacidade da empresa de enxergar o potencial da área e ajudar a somar, a indiferença das demais áreas – comercial e financeiro, o medo de passar informações para a área de MKT e a relação Investimento x Despesa. Com três anos de experiência em uma empresa do setor coureiro, a consultora detectou a necessidade de maior foco no cliente, ao invés de ficar restrito à produção.

Marcos Basso tratou da estratégia de marketing competitiva. O professor seqüenciou os passos para a implantação de planejamento estratégico, o que ele considera alavanca importante para o sucesso de uma empresa. Basso destacou que “temos hoje excesso de informação. Estamos na era da miscelânea de comunicação”, lembrando que isto gera a necessidade de sermos seletivos nas informações que assimilamos. Neste sentido, para que uma empresa seja vitoriosa recomendou que se considere que mentes são simples, o que faz com que idéias óbvias sejam poderosas. Também sugeriu que se considere que mentes são emocionais e não racionais, são resistentes a mudanças e perdem o foco com facilidade. Para quem trabalha em mais de um foco, sugeriu a utilização de marcas diferentes para seus produtos.

Já Renato Furtado, diretor da Samelo, avaliou que os setores de couros e calçados estão enfrentando dificuldades, em função da queda do dólar frente ao real. Para ele, a cadeia produtiva é a mais afetada pela taxa de câmbio, e a cadeia do couro quer mudanças estruturais para que o setor melhore seu desempenho nos mercados interno e externo. Furtado disse ainda que se o produto brasileiro possuísse melhor qualidade, seguramente o País poderia ampliar sua competitividade no cenário internacional. A idéia é reduzir custos por meio da eficiência e melhor aproveitamento do couro, sendo necessária uma política econômica onde o custo desse couro seja equilibrado com ajustes que permitam a redução de custos no produto final.

 
INTEGRAÇÃO COM OS ELOS DA CADEIA PRODUTIVA
A última etapa do Encontro foi dedicada a apresentações de representantes de outros elos relacionados com o setor coureiro. Falaram Raul Ludwig, presidente da Abrameq, Paulo Élcio, vice-presidente da Abiquim, e Ilse Guimarães, executiva da Assintecal. Este painel foi coordenado pelo novo presidente do CICB, Umberto Sacchelli.

Ludwig destacou a importância desta integração, lembrando que nem sempre foi assim. Avaliou que hoje existe um bom relacionamento entre as indústrias brasileiras do couro e de máquinas, o que gera bons resultados para os dois lados. Aproveitou ainda para sugerir que o setor coureiro pense na possibilidade de que a Courovisão em 2006 tenha o acréscimo de um espaço para a apresentações de novas tecnologias em máquinas e equipamentos para a indústria do couro, reforçando o evento.

Paulo Élcio defendeu a p romoção do programa de atuação responsável na indústria química fabricante de produtos utilizados no tratamento e acabamento de couros, bem como nos demais segmentos envolvidos com o manuseio e a utilização destes produtos , assim como acompanhar e contribuir na elaboração de políticas, normas e legislações relacionadas à cadeia produtiva e p romover a imagem da indústria fabricante de produtos químicos para tratamento de couros.

Em nome do setor de componentes, a superintendente da Assintecal, Ilse Guimarães, sublinhou as ações da entidade e o quanto pode ser realizado de forma integrada com o setor coureiro.

No encerramento, Amadeu Fernandes agradeceu a todos pela participação, desejando que o evento tenha contribuído para cada um no desenvolvimento das suas atividades.

 

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