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Quem tem medo da verdade: Será o calçado uma commodity?

 

Quando o tema é polêmico, e exige verdades, prevalecem as tergiversações. Oportunidades para debates não faltam, quase sempre a escassez é de sinceridade. A regra tem sido: é melhor tergiversar. Não só do lado do governo, bem como do empresarial. Nos últimos tempos, acentuou-se o usa da expressão câmbio defasado para justificar o acanhado comportamento da exportação brasileira de calçados. Historicamente acanhada, a exportação sempre patina quando se aproxima do prêmio no alto do pau de sebo. O Brasil não consegue bater na casa de US$ 2 bilhões/ano de exportação de calçados. Culpa do câmbio?

Leio na revista VEJA – edição 1968 – a história da Paramont – que ainda nos anos 90 fez a opção de deixar Campo Bom, no Rio Grande do Sul, e se fixar em Dongguan. A China então era, na palavra de seus diretores, uma opção estratégica. Hoje, a opção estratégica é Campo Bom. Em Dongguan, a Paramont produz 35 milhões de sapatos femininos e os exporta para os EUA, apenas 1% do que a China exporta em calçados para os EUA. Brasileiro comendo o mercado brasileiro nos EUA.

Não dá para ficar se escondendo no “câmbio defasado”, como se o Governo Central pudesse alterar a relação cambial por Decreto. Se pudesse e fizesse, ainda assim os gestores da ineficiência continuariam a se lamentar do câmbio, porque para eles o câmbio ideal é como o arco-íris, quando dele nos aproximamos, ele já fugiu para bem longe.

Enquanto tecno-burocratas permanecem ativos no mercado vendendo essa história de câmbio defasado - viajando em volta do mundo para vender mulatas, samba, caipirinha e, se tudo correr bem, alguns pares de sapato - 1.000 brasileiros são obrigados a ir morar em Dongguan.

Basta dessa história de câmbio defasado. A China atropela todos esses eufemismos para a realidade, que é outra. Esta introdução vem a propósito do 14º Congresso Brasileiro de Calçados promovido pela COROMODA. Ele ocorrerá no dia 14 de janeiro de 2007, no Auditório Elis Regina, Anhembi, São Paulo. A temática escolhida não poderia ser melhor e algumas questões que incomodam terão de ser respondidas pelos palestrantes, como: Será o calçado uma Commodity? Devemos criar uma moda brasileira ou só o preço é importante? Essas e tantas outras questões que muitos empresários e tecno-burocratas tapam o ouvido para não ouvir, farão parte do tema central: “O FUTURO DO MERCADO E DA INDÚSTRIA DE CALÇADOS”. Outras questões: As condições de competitividade da indústria fora da Ásia; Desenho, qualidade e matéria-prima: as vantagens competitivas do Brasil para se reposicionar no mercado mundial; Os desafios da indústria brasileira: abastecer o mercado interno e identificar novos nichos de exportação; O futuro do “Made in Italy”; O caso chinês: forte no mercado doméstico e em todo o mundo; Distribuição: as soluções adotadas por indústrias e distribuidores dos Estados Unidos e da Europa.

Técnicos governamentais, e da APEX-Brasil - que banca parte do custo de missões promocionais no exterior - deveriam participar do Congresso, na condição de ouvintes atentos. Será, sem dúvida, uma boa oportunidade para quem não tem medo da verdade.

Essas questões seriam:.

Segundo Francisco Santos, presidente do Grupo Couromoda, “o que se pretende é trazer para o público brasileiro importantes palestrantes da Europa, América, China e do próprio Brasil, para que se faça uma análise real do futuro do mercado global de calçados, da sua produção e distribuição”.

O evento está direcionado para produtores e vendedores de calçados e manufaturados de couro do Brasil e da América Latina, e também para representantes comerciais, empresários e profissionais dessas regiões.

Uma questão intrigante perpassa o Congresso, sem dúvida. Estaria o calçado se transformando numa commodity? E essa conduz a outras não menos importantes, como: O preço é o único elemento importante num calçado? Devemos (os fabricantes brasileiros) fazer moda, ou não? Nordeste brasileiro e China: é possível competir?

O que COUROMODA apresenta como tema para o Congresso de Calçados, na véspera da maior feira de calçados da América Latina, uma das maiores do mundo, é a oportunidade de aprofundamento em questões que exigem coragem para serem ditas sem tergiversações. São questões que incomodam, por isso tendem a serem debatidas no escuro. Ao dar luz ao tema, e escancarar questões importantes, daí porque incomodam, COUROMODA presta mais um serviço ao mundo calçadista brasileiro. Antes de começar, o Congresso já é um sucesso.

Roberto Nogueira Ferreira
roberto@rnconsultores.com.br
Brasília, 10 de agosto de 2006

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