CHINA: AMEAÇA OU OPORTUNIDADE
As diferentes opiniões do setor coureiro sobre o voraz apetite chinês por matérias-primas
A pesquisa COUROBUSINESS desta edição centrou-se na elementar questão: sob a visão exclusiva da indústria do couro, a China seria uma ameaça ou uma oportunidade?
É um tema que divide opiniões. Quem tem uma visão exclusivista de exportação do couro e não se preocupa com o que acontece na cadeia produtiva, vê a China como uma oportunidade de negócios, e uma oportunidade de curto prazo, ganhar rapidamente tudo o que for possível ganhar. Isso fica claro no conjunto de respostas, sobretudo quando o agente exportador também não se preocupa com a recorrente questão de exportar valor agregado. Mas há quem, por outro lado, tem uma visão mais abrangente da questão, preocupando-se com o longo prazo e com a sobrevivência não só da indústria nacional de curtumes que atua na produção e exportação de couros de maior valor agregado, mas também com a sobrevivência e o crescimento dos diversos segmentos que compõem a cadeia produtiva couro e calçados. É, como quase todas as questões que se levantam na indústria nacional, o choque entre a visão específica, fechada na empresa, e a visão geral, de maior espectro e num contexto bem mais amplo.
Se COUROBUSINESS buscasse uma síntese para as respostas à questão proposta poderia ficar com aquela dada por Gonçalo Marques, diretor da MS Leather. “Acreditamos que a China pode ser uma grande oportunidade para a indústria curtidora do Brasil, mas que indústria curtidora o Brasil quer? Adiciona o diretor da MS Leather uma questão importante e continua em sua reflexão: “se o Brasil pretende apenas vender sua matéria-prima, pois bem, que continuemos da forma que estamos, vendendo ao mundo nossos couros sem que se tire proveito econômico e social deles. O volume de couros no Brasil é alto, mas também o desemprego, a fome, a miséria e a falta de oportunidades. Quantos empregos geraria o Brasil se agregasse valor ao seu couro?”
Para Gonçalo Marques o Brasil tem tudo na mão, só não está sabendo usar. Tem matéria-prima, mão-de-obra, tecnologia, mas o país continua gerando curtumes de “pasta” que apenas compra couro verde, transforma-o em Wet Blue e exporta-o, ou frigoríficos, que se aproveitam de curtumes ociosos ou parados e fazem o mesmo. “O Brasil tem de privilegiar a venda de couro Acabado para a China e outros mercados, pois não temos indústrias de calçados e artefatos para consumir todo o couro que produzimos”, conclui.
Porém, como qualquer pesquisa que se faça no setor, há respostas diretas: se a pergunta é se a China é ameaça ou oportunidade, muitos respondem sem entrar em detalhes: sob a ótica da exportação de couro a China é uma oportunidade comercial que deve ser explorada. Mas a pergunta leva a reflexão para todos os lados. Muitos, apesar de entender que se trata de uma oportunidade comercial, vêem a China como uma ameaça futura e preocupante, e questionam a responsabilidade governamental dada a ausência de uma política industrial realista. Dadas as condições em que a China trabalharia, sem preocupações ambientais e salariais, as propostas que surgem junto com as respostas vão na mesma linha de radicalismo, isto é, se não há respeito a questões universais minimamente relevantes, o Brasil deveria adotar a proibição da exportação de matéria-prima para aquele país (couros Salgado e Wet Blue). Para esses, enfrentar a China com tamanho diferencial negativo, que também inclui a questão tributária, só com medidas radicais. Emerson Fuga, do tradicional Curtume Fuga, é um dos que defendem a tese de dificultar progressivamente o acesso à matéria-prima brasileira.
Os que têm uma visão mais abrangente da atuação empresarial entendem que de uma forma ou de outra a exportação livre e crescente de couro para a China, sobretudo os de menor valor agregado, gera problemas concorrenciais aos produtos brasileiros derivados de couro em outros países. Em síntese, o couro brasileiro transformado em calçado pelos chineses concorreria em condições muito favoráveis com o calçado brasileiro de exportação. E se essa concorrência se dá a partir da exportação de Salgado e Wet Blue, pior ainda. Há os que entendem que não é o “nosso couro que contribui para a concorrência no setor de calçados, mas políticas chineses que criam condições favoráveis para a expansão de sua indústria calçadista”, como afirma Gonçalo Marques, que acrescenta: “no Brasil fazemos o inverso, dificulta-se as devoluções de créditos fiscais, as leis trabalhista só favorecem os empregados e há muita burocracia e corrupção”.
Na mesma linha de raciocínio, Walter Hasenackm, da Winy do Brasil, entende que o Brasil não deve impor restrições à exportação de couros para a China, “mas adotar medidas que desonerem os fabricantes de calçados e outros artefatos”. Ele também defende a urgente desburocratização, a correção do câmbio, a simplificação fiscal, tributária e trabalhista”. Mas há quem defenda restrições à saída do couro não só para a China, mas para mercados que otransformam em manufaturas que concorrem com o Brasil. Há, como se observa, duas posições, muito claras entre os curtidores nacionais, que têm na fonte a velha e clássica questão da exportação Wet Blue versus exportação de maior valor agregado, independentemente do destino.
COUROBUSINESS adicionou à pesquisa uma questão objetiva: dadas as condições atuais do mercado, qual seria o câmbio médio ideal para a exportação de couro? Entre R$ 3,00 e R$ 3,20 situaram-se algumas respostas. No entanto, há um número expressivo de considerações sem indicação de um determinado valor. Alguns entendem que o câmbio é indiferente, pois o mercado de couro tem grande poder de ajustamento em função da taxa do dólar. Outros entendem que mais importante é a estabilidade da política cambial e da própria moeda. Fica claro que há uma visão de país na maior parte das repostas, influenciadas que foram pelo passado de grandes sobressaltos na política econômica. Em vez de responderem pura e simplesmente qual seria o câmbio ideal, muitos empresários insistiram na tese de que essa variável é importante “quando se pode visualizar uma política monetária focada no crescimento do país, pois o empresário não pode mais conviver com a volatilidade da moeda e a ausência de uma tendência de médio prazo”, como afirma Emerson Fuga. Ele ressalta, todavia, que a questão do câmbio está gerando “um desencaixe, pois os custos variáveis e fixos crescem diariamente e o valor do couro cai a cada semana”.
A síntese que se pode fazer é que o empresário curtidor tem uma visão social, econômica e política acima da média, que transcende os limites de sua ação empresarial, mas também pode-se concluir que a China, mesmo para aqueles que a entendem como uma oportunidade, é motivo de preocupação futura. Há indicativos claros, em muitas respostas, de que o governo estaria tratando o tema China, e tudo que ele pode representar de bom e ruim para a indústria curtidora, para a cadeia couro e calçados e a economia nacional, com uma preocupante negligência, muito na linha do aguardar para ver como fica. Pode ser que quando der relevância ao tema, seja tarde demais.
SALVAGUARDAS
A Casa Civil deve analisar agora em julho a regulamentação das salvaguardas específicas para a China. Uma reunião no final de junho da Câmara de Comércio Exterior, Camex, definiu o texto das regulamentações; uma para têxteis, e outra para os demais produtos. Após passar pela Casa Civil, o Presidente da República poderá transformá-las em decretos. Segundo nota do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, a maior novidade que constará da legislação brasileira será a criação de um processo de consultas preliminares, que prevê um período de 30 dias, após a entrada da petição no Ministério do Desenvolvimento, para negociações entre os setores privados e governos dos dois países. “Se obtivermos sucesso, será assinado um acordo para limitação das exportações chinesas”, disse o secretário-executivo da Camex, Mário Mugnaini Jr. Ele explica que esse modelo é o mesmo adotado pela União Européia, que conseguiu regulamentar a salvaguarda, mas negociou com os chineses maior controle das exportações para o bloco. O Brasil irá propor a constituição de um Grupo de Trabalho permanente a ser acionado nos momentos de consulta.
Pela regra, será possível adotar salvaguarda provisória, a ser aplicada ainda durante o processo de investigação, mas desde que comprovado o dano ou a ameaça de dano ao setor requerente. No caso dos têxteis, após o término do prazo de consultas preliminares, caso não seja atingido um acordo, será aberta uma investigação e haverá um prazo para consultas formais junto ao governo chinês por 90 dias. Durante este período de três meses, a China deverá aplicar automaticamente uma auto-restrição de exportação de seus produtos, de forma que não ultrapasse em 7,5% a média dos 14 meses anteriores (6% para o caso de fibras de lã). A salvaguarda para têxteis terá validade de um ano, sendo que o setor pode entrar com nova petição solicitando outra salvaguarda de um ano. Para as salvaguardas transitórias, o prazo é de dois anos, com prorrogação de mais um, mediante petição.
A salvaguarda é um instrumento de defesa internacional reconhecido pela Organização Mundial do Comércio (OMC) que tem como principal objetivo regular as relações comerciais entre os países quando um dos lados se sente em desvantagem. Geralmente, configura-se a desvantagem quando um dos países se vale de subsídios internos ou facilidades particulares e até desleais para “bancar” sua indústria.
Além disso, a o uso da salvaguarda contra a China está previsto no acordo de adesão dos chineses a OMC, em dezembro de 2001. AS salvaguardas poderiam ser usadas por um período de 15 anos.
CALÇADISTAS EUROPEUS FAZEM PASSEATA CONTRA CHINA
Cerca de 500 industriais calçadistas da Europa, provenientes da Itália, Espanha, Portugal, Turquia e outros países produtores, fizeram uma manifestação em meados de junho em frente à sede da Comissão Européia, em Bruxelas, denunciando a crescente importação de calçados da China.
Liderados por Rafael Calvo e Roland Smets (foto), presidente e diretor da Confederação Européia da Indústria de Calçados, mais o presidente da Associação Italiana da Indústria de Calçados, Rossano Soldini (foto) os empresários protagonizaram uma situação inédita: desfilaram pelas ruas de Bruxelas ao som de tambores e slogans contra os calçados chineses. E fizeram inclusive a entrega simbólica das chaves de suas fábricas ao Comissário Europeu, Mandelson, entregues dentro de uma arca.
(fonte e fotos: COUROMODA)
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OPINIÕES
“Não podemos nos esconder dos desafios, mas precisamos traçar parâmetros estratégicos para a sobrevivência do setor nos próximos dez, vinte anos e não até a troca do comando da política monetária.” (Emerson Fuga)
“A indústria poderia ser mais competitiva nos mercados interno e internacional. Para isso o governo poderia fazer um pouco mais, reduzindo custos trabalhistas que pesam muito nas nossas folhas de pagamento. Poderia também parar de elevar os juros, grande parte pagos pelo setor produtivo. A indústria curtidora é alta consumidora de energia e este é um dos custos que mais subiu em dois anos.” (Amorim Moleirinho)
“Não basta restringir exportação de couro. Isso é ineficaz se não se fizer uma reforma profunda para os setores produtivos. O governo está tratando o problema cambial com negligência, e a voracidade fiscal também não tem limites. Tem de simplificar em favor do incentivo à produção, caso contrário teremos de exportar mais couro, pois o consumo interno cairá. O problema não é a China, somos nós mesmos.” (Walter Hasenack)
“O câmbio afeta toda a cadeia produtiva e nos patamares em que se encontra está colocando em risco o agronegócio brasileiro. O governo tem de esclarecer as regras do jogo, facilitar em vez de atrapalhar, gastar o dinheiro público com responsabilidade. Que os políticos parem de fazer acertos entre eles e trabalhem pelo que são pagos, e bem pagos.” (Gonçalo Marques).
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