WET BLUE
TRIBUTAR OU NÃO TRIBUTAR
Um dos problemas mais recorrentes da indústria curtidora volta à ordem do dia. A referência é para a taxação da exportação do Wet Blue. O retorno do debate se dá em razão da proximidade da data prevista para a alíquota cair de 7% para 4% sobre o valor FOB exportado. Para quem não se recorda, o Governo Federal, pressionado pelas entidades representativas das empresas de couro e calçados - no ano 2000 - preocupadas com o avanço das exportações de Wet Blue, que saía do país livre de qualquer imposição tributária, resolveu então taxar em 9% as vendas de Wet Blue para o exterior. Usou como argumento, além do crescimento da exportação, eventuais riscos para o abastecimento interno e pressão nos preços da matéria-prima e, consequentemente, nos custos das manufaturas de couro, especialmente calçados. A tributação em 9% prevaleceu de 2001 a 2003. No final de 2003, a reação dos exportadores de Wet Blue, aliados aos frigoríficos e pecuaristas sob o manto da Confederação Nacional da Agricultura, resultou no estabelecimento de um cronograma no sentido inverso até se chegar ao fim da taxação. Estabeleceu-se que a alíquota cairia de 9% para 7% em 2004; para 4% em 2005; zerando a partir de 2006. Ao final de 2004, pressão exercida por curtidores e calçadistas fez o governo alterar o cronograma e manter em 7% a alíquota durante 2005 e programar sua redução para 4% em 2006, zerando-a a partir de 1º de janeiro de 2007.
Ao aproximar-se o final de 2005, retoma-se a discussão. O CICB Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil já se manifestou formalmente junto à CAMEX Câmara de Comércio Exterior, pela volta da tributação em 9%. Entende Umberto Sacchelli, novo presidente do CICB, que reduzir a alíquota para 4% é um retrocesso e um sinal negativo para o mercado, no momento em que importantes investimentos são feitos, voltados para a fabricação e exportação de couro de valor agregado.
A exportação média dos três principais tipos de couro bovino evoluiu da forma mostrada na tabela 1, a seguir:
Tabela 1 Médias mensais da quantidade exportada (nº de couros) 2000 a 2005
Anos |
Wet Blue |
Crust |
Acabado |
2000 |
866.516 |
214.965 |
141.813 |
2001 |
977.663 |
233.170 |
188.644 |
2002 |
1.044.632 |
193.206 |
331.968 |
2003 |
1.105.335 |
207.208 |
490.531 |
2005 |
1.319.951 |
216.389 |
645.634 |
2006* |
1.294.856 |
282.651 |
691.123 |
Fonte: Courobusiness // * Média: janeiro a agosto
A tabela mostra, sem qualquer análise mais acurada, uma significativa elevação da exportação do couro Acabado, o de maior valor agregado da indústria nacional. Enquanto o couro Wet Blue é historicamente vendido na faixa de US$ 30; o valor do couro Acabado situa-se em torno de US$ 90. Só esta diferença já justificaria uma política institucional focada no valor agregado. No campo privado, nos limites dos interesses individuais de uma empresa, aceitam-se defesas intransigentes da livre exportação de Wet Blue, matéria-prima de baixíssimo valor agregado, quase em estado natural. Mas não se pode aceitar, passivamente, que um país se conforme em exercer papel secundário numa cadeia produtiva em que é detentor da variável mais importante, no caso a matéria-prima. É quase um crime de lesa-pátria, o couro sair do Brasil em estado natural e retornar sob a forma de calçados, ou concorrer lá fora com os calçados exportados pelo país. Enquanto os países produtores mais importantes impõem restrições à saída de sua matéria-prima (vide justificativa de pleito do CICB nesta edição), o Brasil insiste em suicida política de livre mercado, pressionado pela ponta inicial da cadeia, pecuaristas e frigoríficos. A Comunidade Européia tem uma política impositiva que privilegia a importação de couro sem valor agregado. O Wet Blue brasileiro não sofre imposição tributária para entrar na Comunidade Européia, enquanto os couros Crust e Acabado são taxados, com base no SGP- Sistema Geral de Preferência, em torno de 6,5%. Essa política favorece e estimula a venda de Wet Blue para lá, e essa é, também, uma das razões para o Brasil taxar a saída de Wet Blue. No Brasil, tem prevalecido, no caso, a força política individual do Ministro A ou do Ministro B, quando o esperado é que todos eles tivessem foco no interesse maior do país, sem competições entre si, sem acomodações políticas, pois, afinal, eles são Ministros do Brasil e não do setor A ou B.
A transformação das quantidades acima em números índices, com base 100 em 2000, permite uma visualização que elimina dúvidas sobre os efeitos da taxação.
Tabela 2 Números índices base 100 em 2000 // Médias mensais da quantidade exportada (nº de couros)
Anos |
Wet Blue |
Crust |
Acabado |
2000 |
100 |
100 |
100 |
2001 |
113 |
108 |
133 |
2002 |
120 |
90 |
234 |
2003 |
127 |
96 |
345 |
2005 |
152 |
101 |
455 |
2006* |
149 |
131 |
487 |
Fonte: Courobusiness // * Média: janeiro a agosto
Os resultados da tabela 2 nos encaminham para o que pode ser entendido e aceito como o grande resultado da taxação na exportação do Wet Blue, que é o extraordinário crescimento da exportação de couro Acabado. Alguma relação de causa e efeito há entre a taxação do Wet Blue e a exportação de Acabado, direta ou indiretamente. No período pós-taxação, a exportação de Acabado aumentou 4,87 vezes, enquanto a de Wet Blue, apenas 1,49.
Se fizermos o raciocínio inverso, ou seja, se tomarmos a exportação de Wet Blue e dos couros de valor agregado nos dez anos anteriores à taxação, o que se encontra são números que comprovam que a liberdade de exportação sem qualquer imposição tributária favorece a saída de couro sem valor agregado, quase matéria-prima bruta.
Tabela 3 - Médias mensais da exportação em quantidade
Quantidades absolutas (nº de couros) e números índices. // Wet Blue e Crust + Acabado
Período: 1989 (base 100) a 2000*
Anos
|
Wet Blue |
Crust + Acabado |
Quantidade |
Nº Índice |
Quantidade |
Nº Índice |
1989 |
208.648 |
100 |
216.680 |
100 |
1990 |
219.652 |
105 |
253.236 |
117 |
1991 |
205.336 |
98 |
221.990 |
102 |
1992 |
217.962 |
106 |
260.861 |
120 |
1993 |
222.618 |
107 |
303.341 |
140 |
1994 |
298.004 |
143 |
267.666 |
123 |
1995 |
508.461 |
244 |
236.409 |
109 |
1996 |
807.957 |
387 |
298.262 |
138 |
1997 |
884.750 |
424 |
318.182 |
147 |
1998 |
965.242 |
463 |
273.507 |
126 |
1999 |
860.543 |
412 |
350.924 |
162 |
2000 |
866.516 |
415 |
356.778 |
165 |
Fonte: Courobusiness
* 1989 (ano que antecedeu a abertura comercial) // 2000 (ano que antecedeu a taxação do Wet Blue)
Os números falam por si. No período que antecedeu a entrada em vigência da taxação de 9% sobre a exportação de Wet Blue, sua exportação subiu 4,15 vezes, saindo de uma média mensal próxima a 228 mil couros exportados entre 1989 e 1994, para uma média mensal próxima a 900 mil couros exportados de 1996 a 2000. Enquanto isso, a exportação de couros de maior valor agregado (Crust + Acabado) subiu no período apenas 1,65 vezes, saindo de uma média entre 1989 e 1995 em torno de 214 mil couros ou seja, próxima a média mensal de exportação de Wet Blue para uma média mensal em torno de 320 mil couros exportados, quase três vezes menor do que a média mensal de Wet Blue.
A conclusão a que se chega é que no período anterior à tributação da saída do Wet Blue, a média mensal de couros exportados tanto de Wet Blue quanto de Crust + Acabado caminharam em razoável sintonia até o fim da primeira metade da década de 90. Na segunda metade da década, entretanto, a liberdade de exportação e o aumento da demanda externa, aliada à ausência de tributação na entrada do couro Wet Blue na Comunidade Européia, fez com que a média mensal da exportação de Wet Blue disparasse em relação à média de Crust e Acabado somados.
Quando se observa o período posterior à taxação como visto nas tabelas 1 e 2 há uma inversão no crescimento da média mensal exportada a favor do couro de maior valor agregado, o Acabado. Ainda que a exportação absoluta de Wet Blue continue significativa com recuperação em 2004 e 2005 após a queda da alíquota de exportação para 7% e anúncio de queda progressiva até se chegar à alíquota zero a exigência de uma conclusão final tangencia a obviedade: os números mostram que a taxação não deveria ter caído abaixo de 9%.
Se a redução para 7% se evidenciou equivocada, a queda para 4% a partir de janeiro de 2006 pode se transformar num desastre. Uma decisão séria e equilibrada do governo, sob a presidência do interesse maior do país e não de grupos isolados, certamente deveria confluir na direção da volta da alíquota de 9%, quiçá até em sua ampliação.
