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Exportação de calçados: Uma história de sucesso que anseia reavaliação
Roberto Nogueira Ferreira
A indústria de calçados exportou, em 2006, cerca de 179,7 milhões de pares de calçado, gerando US$ 1,854 bilhão de dólares em divisas. Em comparação com 2005, houve uma queda de 2% na quantidade exportada e de 5% no valor total.
Alguns aspectos chamam a atenção do analista, quais sejam. Focando só o mercado dos EUA, observa-se que a exportação para aquele país vem caindo progressivamente. Em 2003, por exemplo, o Brasil exportou 103,8 milhões de pares para os EUA, cerca de 55% do total. Em 2004, a participação norte-americana nas exportações brasileiras cai ainda mais e chega a 46% do total. Em 2005, 39% e em 2006, a participação se reduz para 36% do total. Entre os extremos – 2003 e 2006 - o Brasil perdeu 38,6 milhões de pares de exportação para os EUA, certamente substituído por calçado chinês, perda aparentemente irrecuperável. Com base no preço médio de 2006, a perda pode ser estimada em algo próximo a consideráveis US$ 400 milhões. Essa perda, a princípio, nada tem a ver com a questão cambial. É efeito China, puro. Em valor, a participação dos EUA, que era de 64,2% do total em 2004, chega a 2006 na faixa de 46,8%. A redução da dependência pode ser entendida como positiva. Melhor seria, todavia, se ela se desse em função de uma estratégia comercial, o que não é o caso. O lado positivo é que ela está obrigando a procura de novos mercados, mais sofisticados, de valor médio mais alto.
Outra consideração interessante, nem sempre veiculada, se refere aos tipos de calçados exportados. Dados de 2005, que segundo informações pouco se alteraram em 2006, do total da exportação brasileira de calçados, apenas 55% foram produzidos em couro. 30% são “plásticos montados”; 7% são Injetados; 6% são de cabedal em têxtil; 2%, outros materiais. A participação de calçados de couro na exportação brasileira também vem caindo progressivamente. Em 2003, eles representavam 63% do total; em 2004, 58%. Considerando uma exportação anual média dos últimos quatro anos, da ordem de 190 milhões de pares, pode-se afirmar que cerca de 22,8 milhões de pares de calçado em couro deixaram de ser exportados, substituídos que foram por outras matérias-primas. A lamentar, a redução da participação se dá justamente no calçado de maior valor médio exportado. Na história recente, o valor médio do calçado de couro exportado situa-se na faixa de US$ 14 dólares. Os de cabedal em têxtil, US$ 8 dólares. Os “injetados”, menos de US$ 2 dólares. Os “plásticos”, cerca de US$ 4 dólares. Se o calçado de couro estiver sendo substituído, pelo de cabedal em têxtil, por exemplo, a perda por par é da ordem de US$ 6 dólares. Só nessa comparação a perda de divisas superaria US$ 136 milhões/ ano.
Se o mercado interno está atendido, e se a exportação de calçado de cabedal em couro é decrescente, ano a ano, que alternativa restaria aos detentores da matéria-prima – curtumes e frigoríficos – senão o mercado externo? E se o mercado externo for demandante de Wet Blue, melhor é vendê-lo nesse estágio do que o país perder divisas.
Essas considerações permitem concluir que há algo além do câmbio e também da taxação do Wet Blue, a ser considerado na análise do comportamento da exportação de couro e calçado. Reduzir os problemas aos dois aspectos mencionados seria uma perigosa simplificação, que falseia o resultado de qualquer análise, e obscurece a visão daqueles que, em tese, seriam os responsáveis pelo planejamento estratégico da cadeia couro-calçados.
Exportação de calçados de 1970 a 2006
ANO
YEAR |
VALOR
(US$ MILHÕES)
VALUE
(US$ MILLION) |
% VARIAÇÃO
% VARIATION |
PARES
(MILHÕES)
PAIRS
(MILLION) |
PREÇO
MÉDIO (US$ )
AVERAGE
PRICE (US$) |
1970 |
8 |
- |
4 |
2,19 |
1971 |
29 |
254 |
10 |
2,81 |
1972 |
55 |
86 |
16 |
3,48 |
1973 |
93 |
71 |
22 |
4,33 |
1974 |
120 |
29 |
28 |
4,33 |
1975 |
165 |
37 |
35 |
4,76 |
1976 |
175 |
6 |
31 |
5,60 |
1977 |
174 |
0 |
25 |
7,05 |
1978 |
279 |
60 |
40 |
7,02 |
1979 |
351 |
26 |
42 |
8,39 |
1980 |
387 |
10 |
49 |
7,89 |
1981 |
562 |
45 |
70 |
8,06 |
1982 |
500 |
-11 |
61 |
8,19 |
1983 |
682 |
36 |
93 |
7,29 |
1984 |
1.026 |
51 |
144 |
7,12 |
1985 |
907 |
-12 |
133 |
6,84 |
1986 |
958 |
6 |
142 |
6,75 |
1987 |
1.095 |
14 |
139 |
7,90 |
1988 |
1.203 |
10 |
151 |
7,94 |
1989 |
1.238 |
3 |
170 |
7,28 |
1990 |
1.107 |
-11 |
143 |
7,74 |
1991 |
1.177 |
6 |
133 |
8,85 |
1992 |
1.409 |
20 |
158 |
8,91 |
1993 |
1.846 |
31 |
201 |
9,16 |
1994 |
1.537 |
-17 |
171 |
8,97 |
1995 |
1.414 |
-8 |
138 |
10,25 |
1996 |
1.567 |
11 |
143 |
10,98 |
1997 |
1.523 |
-3 |
142 |
10,69 |
1998 |
1.330 |
-13 |
131 |
10,16 |
1999 |
1.278 |
-4 |
137 |
9,33 |
2000 |
1.547 |
21 |
163 |
9,52 |
2001 |
1.615 |
4 |
171 |
9,44 |
2002 |
1.449 |
-10 |
164 |
8,83 |
2003 |
1.549 |
7 |
189 |
8,21 |
2004 |
1.809 |
17 |
212 |
8,53 |
2005 |
1.887 |
4 |
189 |
9,98 |
2006 |
1.854 |
-2 |
180 |
10,31 |
Revista Courobusiness – Edição nº 50 – jan/fev 2007
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