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Congresso Brasileiro de Calçados: o terremoto China!

A 11ª edição do Congresso Brasileiro de Calçados, que a Couromoda realiza anualmente em paralelo à tradicional feira, teve como tema central “O Futuro da Indústria de Calçados no Ocidente” – um encontro de líderes para discutir os rumos do setor.

O tema foi dividido em dois módulos: VAREJO e INDÚSTRIA, este último com participação de palestrantes e debatedores internacionais (Itália, França, Malásia, EUA, Espanha, Alemanha) que se concentraram no debate sobre o efeito China na indústria mundial de calçados.

A palestra inicial, de Francisco Santos (Presidente da Couromoda) e Airton Dias (Diretor do Fórum Couromoda), objetivava colocar o problema, com números por si só eloqüentes, de forma que, nas palestras seguintes, as apresentações fizessem um contraponto de sugestões, caminhos e casos específicos de novas estratégias empresariais e mercadológicas para enfrentar a nova realidade do mercado de calçados.

O “Panorama da Produção e Distribuição Mundial de Calçados”, traçado pelos dois palestrantes, ancorado num conjunto formidável de estatísticas de produção e mercado externo de calçados em todo o mundo, teve o efeito esperado, pois os números realmente impactaram e estimularam as apresentações e os debates que se seguiram.

Alguns dados da apresentação de Francisco Santos e Airton Dias, como pílulas provocativas, são apresentados nesta edição de COUROBUSINESS, ressaltando que os Anais do Congresso serão editados por RN & Marini, Editora e Comunicação Ltda, em parceria com o SEBRAE Nacional, e estarão disponíveis em breve.

O “terremoto de mercado”

•  Em dez anos, os números (Fonte Satra) indicam um considerável salto adiante: a produção mundial passa de 9,7 bilhões de pares para 14,3 bilhões, com crescimento de 47,5%. No entanto, este maior consumo de sapatos no mundo não favoreceu todos os países produtores, penalizando alguns e premiando outros.

•  Os números evidenciam o grande avanço da Ásia e, em particular, do Oriente, que passa de um percentual total de 67,7% em 1994 para 83,3% em 2004. A parte do leão neste crescimento é da China, que aumenta sua participação de 38,4% para 61,1%. O crescimento desse país se deu de forma praticamente ininterrupta até hoje, graças não somente ao aumento da exportação, mas também do consumo interno, conforme veremos adiante.

•  O grande bolo da produção mundial vê mais ou menos estável a fatia do Brasil que, embora tenha descido de 6% para 5,2% na participação de mercado, confirma-se como primeiro produtor entre os países Ocidentais, ao passo que a "velha Europa" despenca de uma participação de 15,6% para 6,4%.

A queda Européia

•  A Europa Ocidental caiu de 1,13 bilhão de pares em 1994 para 646 milhões em 2004. Uma queda vertical que divide ao meio a capacidade produtiva do Velho Continente. Menos grave é a situação da Europa Oriental: a queda é de pouco mais de 100 milhões de pares (de 390 milhões para 278 milhões).

•  Declínio dos países tradicionalmente produtores de calçados, no período 1994/2004:

Itália: de 471 milhões para 281 milhões de pares
Espanha: de 190 milhões para 147 milhões de pares
Portugal: de 110 milhões para 86 milhões de pares
França: de 155 milhões para 53 milhões de pares
Reino Unido: de 106 milhões para 16 milhões de pares

AMÉRICA: Brasil na liderança

•  Brasil : saltou de 590 milhões de pares (1994) para 750 milhões em 2004. México: de 1 72 milhões para 244 milhões de pares.

EUA, em queda : em 1994 produziam 234 milhões de pares; em 2004, somente 35 milhões.

 

ÁSIA: a locomotiva China

•  A "locomotiva" da produção asiática é a China , que passou dos 3,7 bilhões de pares em 1994 para 8,8 bilhões de pares em 2004.
Bons os resultados da Índia (de 540 milhões para 850 milhões de pares), da Indonésia (de 436 para 564 milhões) e do Vietnã (de 135 para 445 milhões).

A China é o principal produtor mundial de calçados, respondendo por 50% do total. Em 2005, a produção alcançou 9 milhões de pares, dos quais 6,9 bilhões foram exportados. A exportação chinesa de calçados alcançou US$ 18,4 bilhões e tiveram por destino: Estados Unidos (36,5% do valor total), União Européia (17,5%) e Japão (6,6%).

A economia chinesa, centralizada, planificada, tem em ação o 11º Plano Qüinqüenal para a Indústria do Couro e dos Calçados, que prevê simplesmente um crescimento anual de produção de produtos de alto valor agregado da ordem de 10 a 15% ao ano. O Plano prevê ainda:

• aumentar o volume de exportação e preços para a exportação, mantendo a taxa de crescimento no nível de +10%;
• otimizar o nível de utilização de recursos e matérias-primas, diminuindo o consumo de energia em 20% até 2010, além de reduzir a poluição;
• criação de 3 a 5 marcas chinesas e torná-las famosas no mundo até 2010 (ou nos anos imediatamente posteriores). Esse objetivo será apoiado, também, pela criação da marca de certificação GLM (Genuine Leather Mark), protegido da lei chinesa.

O planejamento chinês evidencia que é coisa do passado a característica de produção e exportação de produtos de baixo valor. Eles pretendem ampliar a exportação de calçado de alto valor agregado e querem criar entre 3 e 5 marcas chinesas e torná-las conhecidas em todo o mundo até 2010.

E o que a entidade nacional da indústria de calçados do Brasil pretende fazer, em termos de planejamento de médio e longo prazo, para enfrentar esse “tsunami chinês”? Essa questão, submetida ao presidente da Abicalçados, Elcio Jacometti, revelou que a entidade não dispõe de nenhum planejamento. Pior, a questão foi respondida com uma pergunta que revela uma ultrapassada cultura de três décadas atrás, período em que a planificação da economia pelo governo central fazia do governo a bengala do setor privado. Hoje, em pleno século XXI, é inacreditável ouvir de um líder de entidade nacional que, antes da indústria ter seu plano, “é preciso saber se o governo quer ter uma indústria de calçados”. A China tem seu plano porque lá a economia é centralizada, dirigida. Este não é o caso brasileiro. Mas nem tudo é atraso. O Congresso apresentou três casos de sucesso de novas estratégicas de empresas brasileiras, as quais, certamente, não estão preocupadas em contar com a bengala governamental, ainda que conscientes da existência de alguns instrumentos macroeconômicos desfavoráveis.

  Revista Courobusiness – Edição nº 50 – jan/fev 2007

 

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