TAXAÇÃO DA EXPORTAÇÃO DO COURO WET BLUE
DESNECESSÁRIA E INJUSTIFICADA?

Reunião de João Essado, Sérgio Aloys e demais com o Ministro Interno.
A reação dos curtumes do Centro-Oeste.
Documento subscrito pelo Sindicato das Indústrias de Curtumes e Correlatos do Estado de Goiás – SindCurtume, e por mais 10 entidades, foi entregue no último dia 6 de junho ao Ministério do Desenvolvimento e do Comércio Exterior, em reunião da qual partiparam, além do Ministro-Interino Ivan Ramalho, e assessores, o presidente do Sindicato de Goiás, João Essado, e o empresário Sérgio Alloys Heeger, da região nordeste.
O documento tem uma conclusão clara, direta e objetiva: Queremos o FIM da taxação sobre o WET BLUE , ou o retorno da Resolução CAMEX 42 de 2005, que previa 4% de taxação em 2007 e zero por cento a partir de 2008. Enquanto isso não ocorre, não podemos aceitar alteração da base de cálculo, de FOB para a tal “Bolsa de Chicago”.
A indignação das entidades signatárias é contra a taxação de 9% na exportação de couro no estágio Wet Blue e proposições feitas pela indústria de calçados para que a base de cálculo dela seja alterada de valor FOB para cotação da “Bolsa de Chicago”, que elevaria significativamente a alíquota real da incidência tributária. Argumentam, inclusive, que a propalada Bolsa de Chicago não teria cotação de couro e a proposta objetivaria apenas aumentar a alíquota real.
A taxação da exportação de Wet Blue tem o seguinte histórico: Desde 1. ° de dezembro de 2000, a exportação de couro WET BLUE sofre a incidência tributária de 9%. Como se vê acima, daquela data aos dias atuais, a incidência tem se modificado anualmente, o que revela INSEGURANÇA do governo quanto ao acerto e a necessidade da imposição tributária; Em janeiro de 2004, por exemplo, o governo, pela Resolução CAMEX 01, fez uma escala que rebaixaria a incidência até zero por cento a partir de 1º de janeiro de 2006. Interferências fizeram o governo voltar atrás e estabelecer novo escalonamento: 7% em 2006; 4% em 2007; zero por cento a partir de 1º de janeiro de 2007. Nova interferência, no final de 2006, cometeu ato brutal e injusto, unilateral, sem ouvir o setor. O escalonamento foi abandonado e a alíquota, que cairia para 4% em 2007, foi fixada em 9%, sem perspectiva de redução; O que a CAMEX fez, em fim de governo, ao tomar essa decisão, sem ouvir todos os membros da cadeia produtiva, custará US$ 50 milhões de dólares adicionais aos exportadores de Wet Blue (só o custo da elevação de 4% para 9%), pois estima-se exportar US$ 1 bilhão em Wet Blue em 2007. A tributação total em 2007 é estimada em US$ 90 milhões.
Histórico do crescimento da exportação de Wet Blue
O crescimento da exportação do WET BLUE deve-se ao crescimento do abate bovino e ao novo mapa da pecuária brasileira: quando o gado se concentrava na região sul e sudeste, o couro tinha como destino preferencial a indústria manufatureira de calçados, basicamente localizada no Vale dos Sinos (RS) e na região de Franca (SP); quando o rebanho cresceu em direção ao Brasil Central (Centro-Oeste), Norte e Nordeste, os curtumes acompanharam essa migração e se instalaram junto aos rebanhos para industrializar e exportar couros, gerando emprego e renda nessas regiões. Na realidade, o rebanho no Centro Oeste, Norte e Nordeste vem aumentando a cada dia, por isso há necessidade de se exportar o couro em Wet Blue , uma vez que a indústria calçadista não demanda todo o couro industrializado no país – apenas 30% é consumido pelo setor calçadista. O restante é excedente e tem que ser exportado ou jogado no lixo.
Portanto, afirmam os signatários: o setor coureiro nada tem a ver com a crise do setor de calçados, ela (a crise) do setor calçadista não se fez por falta de abastecimento.
A indústria de calçados – para convencer as autoridades a taxar a exportação de couro – usou dois argumentos falaciosos, afirma o presidente do Sindicato de Goiás, João Essado. Seriam eles: 1) A exportação de Wet Blue valorizaria a matéria-prima, o que afetaria negativamente a exportação de calçados. Argumento sem respaldo da realidade, diz o documento. 2) A exportação de Wet Blue causaria problemas na oferta de matéria-prima, no atendimento ao mercado interno. Essa justificativa beira ao ridículo, conclui o documento apresentado no MDIC.
O documento anexa uma tabela – abaixo - que objetiva mostrar a quantidade de couro disponível para o MERCADO INTERNO, após cálculo do couro necessário para indústria transformar em calçado e exportar, considerando a quantidade de calçado com cabedal de couro exportado, a importação de couro feita pela indústria de calçado.
Ano |
Exportação de calçado
em milhões de pares |
% de calçado de couro exportado sobre o total |
Calçado de couro exportado
em milhões de pares |
Couro necessário para atender a exportação de calçado de couro
em milhões de unidades |
Importação de couro pela indústria de calçado
em milhões de unidades |
Demanda de couro no mercado interno para fazer calçado para exportar
em milhões de unidades |
Oferta de couro no Mercado interno após todas as exportações de couro
Em milhões de unidades |
Quantidade de couro que sobra no mercado interno para fazer calçado para venda no mercado interno em milhões de unidades (oferta – demanda) |
2000 |
163 |
72% |
117 |
4,68 |
3,03 |
1,64 |
12,1 |
10,51 |
2001 |
171 |
68% |
116 |
4,64 |
2,95 |
1,69 |
10,8 |
9,16 |
2002 |
164 |
72% |
118 |
4,72 |
1,77 |
2,95 |
11,1 |
8,18 |
2003 |
189 |
63% |
119 |
4,76 |
2,03 |
2,73 |
9,74 |
7,01 |
2004 |
212 |
58% |
122 |
4,88 |
2,44 |
2,44 |
8,50 |
6,06 |
2005 |
189 |
55% |
103 |
4,12 |
2,19 |
1,93 |
8,87 |
6,94 |
A quantidade de couro que sobra para a indústria produzir calçados para o mercado interno é superior à demanda. João Essado afirma que sempre sobrou muito couro, desde quando a exportação de calçado de couro representava 80% do total. Hoje, diz, o Brasil exporta pouco mais de 50% de calçado de couro, com isso, a demanda é ainda menor e pode ser atendida com o couro que a indústria de calçados importa.
O outro argumento – de que a exportação de WET BLUE afeta o preço da matéria-prima e atrapalha a exportação de calçados - é igualmente falacioso. Para os signatários do documento, os anos em que o preço da matéria-prima esteve mais elevado, foram aqueles em que a exportação de calçados foi mais expressiva, em valor absoluto. (ver tabela abaixo)
Exportação de Wet Blue em quantidade, valor da matéria-prima interna e comportamento da exportação de calçados.
Ano |
Exportação
WET BLUE
em quantidade |
Preço couro
verde - Brasil
30 Kg em US$ |
Exportação de calçados
em US$ |
1992 |
2.464.040 |
19,20 |
1.473.450 |
1993 |
2.671.417 |
30,60 |
1.931.795 |
1994 |
3.576.058 |
25,80 |
1.624.087 |
1995 |
6.101.534 |
20,70 |
1.498.811 |
1996 |
9.695.491 |
24,30 |
1.650.111 |
1997 |
10.616.700 |
25,50 |
1.594.477 |
2000 |
10.398.194 |
18,50 |
1.546.755 |
2001 |
10.482.943 |
22,50 |
1.615.338 |
2002 |
12.530.000 |
20,70 |
1.449.000 |
2003 |
13.260.000 |
22,20 |
1.549.000 |
2004 |
15.830.000 |
20,40 |
1.809.000 |
2005 |
16.000.000 |
16,50 |
1.887.000 |
O documento levado ao MDIC lista algumas “RAZÕES PARA SE EXPORTAR WET BLUE LIVREMENTE”, abaixo reproduzidas:
Porque, o abate do rebanho bovino cresceu muito nos últimos anos, deslocou-se do sul para o Brasil Central, não afetando nem a oferta de matéria-prima, nem seu valor; e a indústria de calçados importa da Argentina, no regime Drawback , a quantidade que quiser, e tem importado na faixa de 2 milhões de couro/ano.
2. Porque, a única alternativa para não se exportar é jogar o couro fora. Nos últimos dez anos, a indústria de calçados vem tentando impedir a exportação de couro e apoiam seus argumentos na quantidade exportada. Mas, e o valor? Por que não se diz que o Brasil, nos últimos dez anos, exportou mais de US$ 3 BILHÕES em wet-blue, os quais poderiam ter ido para o lixo se fossem atendidos os desejos dos inimigos da exportação de wet-blue
Porque, a exportação de wet-blue é a porta de entrada para a exportação de couro de maior valor agregado. Muitas empresas, que iniciaram suas operações só exportando wet-blue , hoje exportam couros Semi-acabados e Acabados. Algumas dessas empresas agora são contra a exportação de wet-blue.
- Porque, muitos mercados internacionais foram abertos com a exportação de wet-blue . Muitos países, depois de conhecerem o couro brasileiro através do wet-blue, hoje são compradores de couros Semi-acabados e Acabados.
Wet-blue é o cartão de visita do couro brasileiro.
Porque o wet-blue é um produto industrializado; as indústrias que o produzem são a maioria dos curtumes do Brasil, que necessitam trabalhar e gerar empregos; o maior número destes curtumes está localizado em regiões que precisam de empregos (centro-oeste, norte e nordeste).
Porque o caminho para o Brasil é a EXPORTAÇÃO e a maioria dos curtidores brasileiros, aqui representados pelos seus sindicatos, necessitam de seus clientes no exterior e estão ajudando no superávit da balança comercial.
Porque muitas empresas se instalaram e estão se instalando no Centro-Oeste, Norte e Nordeste, para inicialmente produzirem couro wet-blue para exportação. Geram emprego e renda para regiões necessitadas.
Porque o caminho, ao contrário de taxar a exportação de wet-blue , é dar condições para o exportador de wet-blue crescer tecnologicamente e passar a exportar, preferencialmente, calçados ou couros Semi-acabados e Acabados.
Porque o Brasil tem tudo para exportar mais couros Semi-acabados e Acabados do que wet-blue. o caminho não é a taxação, porque ela só retira recursos das empresas, sem a correspondente aplicação em programas que possibilitariam o salto tecnológico.
O documento afirma, ainda, que desde o início da taxação, a transferência de recursos do setor privado para o setor público soma em torno de US$ 300 milhões. Esses recursos poderiam estar sendo aplicados em projetos para saltar da exportação de wet-blue para couros de maior valor agregado, diz João Essado, presidente do Sindicato de Goiás, que pergunta, na seqüência: Quem se apropria, na cadeia produtiva, indiretamente, desses US$ 300 milhões? Taxar, dificultar a exportação de wet-blue , faz parte da estratégia da indústria de calçados para desvalorizar o preço da matéria-prima; mas o preço pode desvalorizar tanto, que os compradores de nosso calçado não pagarão o preço justo (o que já está acontecendo) e ocorrerá, num segundo momento, o que ocorreu na Argentina: nada de produção de calçados! Se a ponta final é quem se beneficia de fato da medida, a ponta inicial (o produtor) é quem acaba pagando a conta. Há, pois, clara transferência de renda do setor primário para o setor industrial!
O Brasil ainda não tem indústrias nem equipamentos para produzir todo o couro brasileiro nos estágios Semi-acabado e Acabado, nem clientes para estes tipos de couro. O mesmo se pode dizer em relação a calçados. Imaginar que todo couro brasileiro será transformado imediatamente em calçado e exportado, não é verdadeiro. Na exportação de calçado estão incluídos tênis, sapatos de material sintético (infantis), plásticos e de outros materiais.
A taxação do wet-blue estaria, segundo o documento, a serviço de empresas que querem dominar o mercado, monopolizar o setor por meio da compra da matéria-prima, a preço aviltado, a exemplo do que ocorreu na Argentina e Uruguai. O grave é que usam o governo, sob a máscara de estarem defendendo o melhor para o Brasil quando, na realidade, estão defendendo o melhor para si.
Finalizando, o documento afirma: Se o cerne da justificativa que resultou na taxação é exportar valor agregado, o Brasil teria de rever a exportação de soja, carne e outros produtos primários. Teria de rever também a exportação de couro Semi-acabado e Acabado, taxando-os, deixando livre para a exportação somente o produto manufaturado, como o calçado. Numa cadeia longa – do couro cru ao calçado – não há amparo técnico para taxar só um de seus elos: ou taxa a todos (menos o produto manufaturado) ou não taxa nenhum, mesmo porque as políticas tarifárias do Brasil e da CEE, no que respeita a couro, são similares: ambos não taxam a entrada de couro Wet Blue e taxam a entrada de couro Semi-acabado e Acabado.
Com a palavra o MDIC e a CAMEX!
OPINIÃO DO EDITOR
A taxação do Wet Blue exportado é daquelas medidas que se sabe como começa, mas nunca se sabe como acaba. Produtores de calçado e de couro Crust e Acabado – muitos hoje quase na condição de ex-empresários – iniciaram, na segunda metade da década de 1990, um ataque frontal à exportação de couro no estágio Wet Blue. Os argumentos usados estão no estudo apresentado pelo presidente do Sindicato de Goiás, apresentado nesta edição. Eles se revelaram falsos com o passar do tempo, mas foram suficientes para, no final de 2000, o governo decidir pela incidência de 9% de Imposto de Exportação sobre o Wet Blue. Aí reside o primeiro paradoxo: empresários pedindo ao governo para taxar outros empresários. O governo, solícito, atendeu. De lá aos dias atuais, cerca de US$ 275 milhões de dólares em tributos sobre a exportação de Wet Blue foram sugados pela atenta máquina federal. A transferência do setor privado para o público se deu a pedidos. E o que aconteceu? O Brasil continuou exportando muito Wet Blue, porque não há outra maneira de ser. O rebanho cresce, a importação de couro cresce, a exportação de calçados de couro cai, a demanda internacional de couro cresce... E o Brasil, sem nenhum indicativo de uma política industrial séria, equilibrada e planejada, opta por arrecadar em vez de – com esse mesmo recurso ou com recursos fiscais tradicionais – criar programas de estímulo ao avanço tecnológico e comercial de quem só produz e exporta couro Wet Blue. A ausência de um mínimo de política faz o país se consolidar como exportador de matéria-prima. Ao taxar, quem deveria ser punido pela inércia ganha (governo) e quem deveria ser estimulado (produtor) paga a conta. Desde que a taxação do Wet Blue foi implantada, o Brasil já exportou (incluindo estimativas de 2007), cerca de US$ 3,5 bilhões em couro Wet Blue. Como não há política industrial, sem a exportação o caminho do couro seria o lixo, porque se o Brasil não vender outro país vende. Os US$ 275 milhões que o governo sugou do setor privado, a pedido deste, sem nenhuma contrapartida na utilização desses recursos em programas que objetivassem a transformação do exportador de couro Wet Blue em exportador de couro Acabado, ou manufaturados de couro, são a metáfora perfeita da política industrial brasileira dos últimos anos, feita na superfície, reativa, onde ganha quem faz mais pressão.
Revista Courobusiness, Ed. 52 – maio/junho 2007
