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Explicando a crise

Crise ressuscita Minsky : Obra de professor morto em 1996 sobre instabilidade financeira é reeditada nos EUA
 

MARCOS ANTONIO CINTRA
A CRISE financeira internacional aumentou o interesse pela obra do professor Hyman P. Minsky (1919-1996). Seus dois principais livros, publicados inicialmente por editoras universitárias, foram reeditados pela McGraw-Hill, possibilitando o acesso a uma nova geração de economistas, analistas e investidores. Vários analistas têm invocado suas idéias para tentar compreender a natureza da crise iniciada no mercado americano de hipotecas de alto risco. O colunista do "Financial Times", Martin Wolf, por exemplo, afirmou: "Eu reli a obra-prima de Minsky, "Stabilizing an Unstable Economy" [Estabilizando uma economia instável]. (...) Minsky estava certo. Um longo período de rápido crescimento, baixa inflação, taxas de juros baixas e estabilidade macroeconômica estimulou a complacência e uma maior disposição de assumir risco. A estabilidade levou à instabilidade". Graduado em matemática pela Universidade de Chicago em 1941, Minsky realizou seu doutoramento em economia na Universidade Harvard, em 1954, onde conviveu com Alvin Hansen, um dos principais discípulos de John Maynard Keynes nos EUA, com Joseph Schumpeter e com Wassily Leontief. A partir da releitura da "Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda", de Keynes, desenvolveu a "hipótese da instabilidade financeira". Para isso, analisou as decisões de investimento dos empresários movidas pelas expectativas de ganhos futuros. A concretização dessas decisões, porém, requer a disponibilidade de recursos financeiros. As fontes de financiamento podem ser internas (lucros retidos) ou externas (crédito bancário, ações etc.). Os recursos externos permitem a expansão dos investimentos além da capacidade das fontes internas, na expectativa de obtenção de receitas superiores aos custos dos financiamentos. Trata-se, no entanto, de uma aposta de alto risco. As receitas esperadas são incertas, mas as dívidas possuem desembolsos predefinidos. A expansão dos lucros sanciona as projeções passadas e realimenta as expectativas futuras. Isso contribui para a redução das margens de segurança dos empresários, que ampliam os investimentos, com maior endividamento.  Tangidos pela busca do lucro em um ambiente de expectativas otimistas, os bancos reduzem seus critérios de alocação do crédito e elevam a alavancagem (uso de capital de terceiros para ampliar suas operações). A introdução de inovações financeiras e a sua rápida difusão e imitação por outras instituições facilitam esse movimento expansivo do crédito e da liquidez, em geral, por meio de brechas nas restrições impostas pelas autoridades monetárias.
Com a expansão do endividamento, no entanto, as corporações ficam vulneráveis às alterações nos fluxos de lucros, nas taxas de juros e de câmbio etc. Quando as expectativas revertem, as estruturas financeiras construídas durante a euforia revelam-se insustentáveis. Os bancos procuram reestruturar seus portfólios, buscando ativos mais líquidos (títulos da dívida pública). Essa estratégia defensiva pode desencadear uma abrupta contração do crédito e, por conseguinte, falência em diversos segmentos.
Para Minsky, portanto, os períodos de instabilidade financeira resultam do aumento da fragilidade das estruturas de ativos e passivos dos agentes econômicos, engendrado durante a fase de prosperidade. O boom econômico, a "exuberância irracional", o endividamento excessivo, a busca pela liquidez, o pânico são fenômenos endógenos à própria dinâmica de uma economia monetária. A fim de conter essa instabilidade intrínseca, faz-se necessária a adoção de regras para os mercados financeiros, tais como limites à alavancagem dos bancos, à interpenetração patrimonial entre os agentes financeiros e não-financeiros, à exposição a determinados setores e investidores etc. Caso contrário, os movimentos de euforia e de pessimismo tendem a ser exacerbados.
Essa dinâmica, descrita em seus livros, tem aparecido de forma recorrente no comportamento dos agentes econômicos e reproduzido nas reportagens dos jornais. Durante o período de crescimento (2002-2006), as famílias e os bancos americanos assumiram cada vez mais dívidas e mais complexas (inovações financeiras). A incapacidade de honrar os compromissos e a desvalorização dos imóveis e dos ativos lastreados nas hipotecas desencadearam o chamado "Minsky moment", em agosto de 2007. Os investidores começaram a vender as hipotecas e seus preços desabaram, introduzindo uma ampla demanda por moeda. Os bancos centrais foram obrigados a injetar montanhas de recursos para tentar preservar a liquidez dos mercados.
Infelizmente, não há nenhuma de suas obras editada no país, exceto um artigo publicado na revista "Economia e Sociedade", do Instituto de Economia da Unicamp ("Integração financeira e política monetária", 1994). As editoras brasileiras também poderiam aproveitar esse "momento Minsky" e publicar seus principais livros, facilitando o acesso de milhares de estudantes de graduação e pós-graduação em economia, administração e finanças.

(texto originalmente publicado na Folha de São Paulo em 5/10/2008)

 

Revista Courobusiness, Ed. 60 – set/out 2008.

 

 

 

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