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PROGRAMA VAI FINANCIAR A MELHORIA DA QUALIDADE DO COURO

Em evento, em Goiânia, ex-Ministro Sérgio Amaral, traz boas notícias para o setor.

                Para ajudar a todos os elos da cadeia coureiro-calçadista a atingir a meta de melhorar a qualidade final de seus produtos, o Governo Federal lançou o Programa de Agregação de Valor do Couro no último dia 18 de dezembro, em Goiânia (GO). Este programa, além de prever uma assistência a pecuaristas, curtumes e frigoríficos, inclui cursos de capacitação, financiamentos, pesquisa e difusão de tecnologia. Prevista no programa, há ainda a possibilidade da inclusão futura do couro no programa de Empréstimo do Governo Federal (EGF).                Junto com o lançamento do Programa, foi distribuída uma cartilha com instruções e explicações sobre agregação de valor ao couro. O manual traz, além de um alerta sobre a importância desta agregação, explicações detalhadas do beneficiamento para pecuaristas e industriais (destacando-se os principais erros e problemas no processo atual, além de meios de financiamento), a comercialização do couro beneficiado e formas de apoio institucional.

ex-Ministro Sérgio Amaral e o
Governador Marconi Perillo

                No lançamento do Programa, que contou com a presença do ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Sérgio Amaral, foi também assinado um convênio com o Governo do Estado de Goiás, no valor de R$1,5 milhão. O repasse de recursos do Ministério será usado para financiar a produção de couro e derivados no estado. Com estes recursos, já estão previstos para o começo de 2003 a construção e consolidação de pólos produtores de couro e derivados no Estado, como por exemplo nas cidades de Senador Canedo e Goianira, próximas a Goiânia. O convênio também planeja implantar a substituição de importações em outras áreas da indústria goiana, fora da indústria de couro, como indústrias têxteis e confecções e farmacêutica, mas o princípio é o mesmo: parar de exportar matéria-prima e trabalhar com o produto acabado.

Novidades do Programa

                O Brasil é o segundo maior exportador mundial de couro. Porém, a maior parte das vendas do produto brasileiro ocorre no estágio Wet Blue, que vale US$ 15,67 por unidade. Outros países, como por exemplo a China, beneficiam o couro brasileiro com tecnologia, muitas vezes brasileira, e exportam os produtos com preços mais interessantes. Estima-se que, com isso, o Brasil deixe de ganhar cerca de R$ 529 milhões por ano. Ou, nas palavras do ministro Sérgio Amaral, a concorrência é "predatória". E, pior ainda, já existem condições muito favoráveis, aqui no Brasil, para se produzir e exportar couro acabado e semi-acabado. O reflexo deste quadro é que, mesmo com o aumento no volume de exportações brasileiras de couro nos últimos anos, o valor adicionado ao couro vem decrescendo.

                A intenção principal do Programa de Agregação de Valor ao Couro é a de reverter este quadro, tornando o Brasil um dos principais fornecedores internacionais de couro de qualidade. O couro acabado vale US$ 91,19. Além disso, o país tem condições de aproveitar o couro para confecções, móveis, estofamento de automóveis e calçados – produtos de maior valor agregado. A agregação de valor não se limita a apenas gerar mais receita com a melhoria da qualidade do couro. Toda uma cadeia produtiva é posta em ação, gerando mais empregos e, consequentemente, mais salários.

Parcerias

                A assinatura do convênio com o Estado de Goiás é parte de uma parceria prevista no Programa. Assim, os dois eventos acontecidos em Goiânia têm entre si uma estreita relação. Em entrevista concedida a COUROBUSINESS logo após o evento, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Sérgio Amaral, detalhou as intenções do Governo Federal ao lançar este programa, e para isso teve de basear-se em explicações sobre o convênio firmado com o Governo do Estado de Goiás e para tecer comparações com o resto do Brasil.

                Falando especificamente do convênio com Goiás, o ministro ressaltou que o Estado já tem uma participação muito expressiva na pecuária, e que agora esta parceria pretende aumentar a participação de produtos mais industrializados nas exportações do Estado. Sérgio Amaral explicou que o Governo Federal pretende, com o convênio, trabalhar com pólos produtores, couro, calçado, farmacêutico, têxtil e confecções, procurando apoiar os esforços do Governo do Estado de Goiás e dar melhor competitividade aos diversos elos da cadeia. A isto, poderá ser acrescido um trabalho em parceria com o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE). "Um dos nossos objetivos é preparar esses pólos produtivos para exportar com mais agregação de valor", detalhou. "Em vez de você exportar matéria-prima, o que nós queremos – e o grande desafio das exportações hoje – é exportar produtos processados. Por exemplo, em vez de couro, exportar sapato; em vez de só tecido, exportar confecção. Não há nenhuma razão porque nós não possamos processar, nós mesmos, o nosso couro, e assim desenvolver ainda mais e atrair investimentos nessa área". O ministro acrescentou ainda que, na medida em que se agrega valor, aumenta-se a receita de exportação. Como conseqüência, a empresa tem um rendimento melhor, e com isso ela passa a ter condições de oferecer melhores salários para os trabalhadores. Outro efeito positivo do Programa é que a receita prevista a ser gerada pelo mesmo contribuirá para diminuir sensivelmente a tributação nesta área, uma reclamação muito comum entre os produtores.

Má qualidade

  Augusto Coelho, presidente do CICB
            O presidente do Centro das Indústrias e Curtumes do Brasil (CICB), Augusto Sampaio Coelho, é um pouco mais cauteloso do que o ministro ao comentar o Programa de Agregação de Valor ao Couro. Ele afirmou que o Programa, mesmo sendo uma ajuda, não satisfaz a todos os problemas da área. "Os resultados não serão os almejados se nós não tivermos uma reforma tributária", declarou. "Nós só vamos conseguir aumentar as exportações de couro com maior valor agregado na medida em que as empresas que são exportadoras de couro acabado puderem se ressarcir rapidamente dos seus créditos fiscais".

                Apesar de toda a cautela, Augusto Coelho incentiva o projeto. "Eu acredito que o couro que tenha um cuidado especial, que seja livre de ectoparasitas, livre de riscos de arame farpado, que tenha uma esfola perfeita, tenha de ser remunerado melhor, diretamente pelo curtume. E isso é o objetivo do Programa de Melhoria de Qualidade do Couro Cru. Com isso, o curtume estará remunerando diretamente o pecuarista pelo couro de melhor qualidade", disse.                Ele chamou a atenção, também, para o descaso do pecuarista para com o couro, mentalidade que deve ser mudada após o Programa. "Hoje, o pecuarista não valoriza o couro porque ele acha que não recebe nada por isso. Na verdade ele recebe, porque na composição de custo do animal, quando é vendido no frigorífico, o couro entra como 10% a 12% no valor das arrobas de carne", detalhou. Ainda sobre este descaso, Augusto lembrou que o Programa vem a complementar ações que o CICB já vinha tomando neste sentido de melhoria da qualidade de couro. Entre eles, está um programa regionalizado, no Nordeste, para melhorar a qualidade das peles caprinas e ovinas, e também o Programa de Melhoria da Qualidade do Couro Cru. O presidente do CICB acha que o couro bruto brasileiro contém uma série de problemas que dificulta sua exportação. "Em sua grande maioria, o Brasil hoje cria gado extensivamente, mas já existem programas de confinamento e semi-confinamento. Isso dificulta as exportações", diz Augusto Coelho, que estima as perdas anuais do Brasil com o couro de baixa qualidade em torno de US$ 1 bilhão em divisas por ano.  "Mas não inviabiliza. Só em você ter as fazendas cercadas com arame liso em vez de arame farpado, e tratar o gado das doenças durante a sua vida – carrapato, febre aftosa, berne – só isso já vai dar uma grande melhoria no couro", acrescentou. "Este programa de melhoria da qualidade do couro já visa adicionar valor para conseguir uma matéria-prima com uma melhor cotação no mercado internacional, e que assim possamos alavancar as exportações do Brasil", explicou.

                O ex-ministro Sérgio Amaral também chamou a atenção para a preparação, de forma gradativa, do setor de couro para chegar a esta melhoria de qualidade. "A Agência de Promoção de Exportação (APEX), também ligada ao Ministério, já vinha trabalhando com o pecuarista para melhorar a qualidade do couro, com o frigorífico para melhorar o abate", explicou. Porém, o ministro fez questão de ressaltar as diferenças. "O que hoje nós fizemos e lançamos aqui em Goiás foi um programa articulado, que não é só assistência ao produtor e ao frigorífico, mas são linhas de financiamento", acrescentou.

Planos para o futuro

Sérgio Amaral frisou que, mesmo não havendo tempo para serem aplicados este ano, estes recursos sairão nos próximos meses. Com isso, ele negou qualquer receio de que o governo de Luís Inácio Lula da Silva não dê continuidade ao projeto. "Não acredito. Isso daí (o Programa) é uma prioridade do país, todos são favoráveis a ele", afirmou.

Este ponto de vista é também compartilhado pelo governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB). "Estou seguro de que o governo Lula seguirá o trabalho do presidente Fernando Henrique Cardoso nesta área", disse o governador. O otimismo também transparecia quando Marconi Perillo anunciava suas expectativas para o setor coureiro em Goiás, após a assinatura do convênio. "Creio que a velocidade dos resultados, após incentivos como os que teremos, irá nos surpreender. Recentemente, fizemos revoluções semelhantes aqui", disse, em alusão a um aumento na produção de grãos do Estado após parcerias com os produtores. O governador reafirmou a posição do ministro Sérgio Amaral, observando que o grosso dos empregos gerados pelo couro eram sempre exportados junto com nossa matéria-prima. Assim, ele não só enxerga um possível crescimento de renda no Programa, mas também um considerável ganho de empregos. "Nós temos nossas matérias-primas e tecnologia no setor primário. Então, chegou a vez de industrializarmos aqui mesmo os nossos produtos", disse.

Ganhos gerais

                Os produtores de couro em Goiás espera ansiosamente a implantação das etapas iniciais do Programa. Os benefícios, acreditam eles, ultrapassarão a área de produtos de couro. Otávio Lage, presidente do frigorífico Goiás Carne, prevê melhoras imediatas para a qualidade do couro goiano. Ele afirmou que o processo de produção de couro terá obrigatoriamente um salto de qualidade para poder se adequar à nova realidade, e considera isto algo muito proveitoso. "Vai ter de modificar o próprio produtor. O criador não valoriza, não tem zelo pelo couro, então vem o couro todo estragado. Mas, agora, isso vai melhorar", disse. Otávio Lage também espera, com grande expectativa, a receita que virá deste couro de melhor qualidade. "É uma matéria-prima importante pro Brasil todo, que é um grande produtor de couro. Mais importante ainda, a gente vai ter uma receita a mais", afirmou. Ele também enxerga ganhos no valor do rebanho goiano, graças às ações sanitárias, já detalhadas anteriormente por Augusto Coelho, que serão tomadas para a melhoria de couro. A agregação de valor, para Otávio Lage, se dará de forma crescente, como uma bola de neve. "Se valor é agregado ao couro, vai ser agregado ao boi, à vaca, ao bezerro, vai ser agregado de toda forma", concluiu.

                O vice-presidente do CICB e Diretor do Sindicurtume em Goiás, Emílio Carlos Bittar, também acredita que a melhoria do couro se refletirá em uma melhoria geral do gado. A receita prevista, assim, certamente extrapolaria os R$ 1 bilhão por ano que, estima-se, o Brasil perde com a má qualidade do couro, já que outros produtos animais teriam uma melhoria. "As cartilhas ensinarão os pecuaristas a cuidarem melhor do gado. Se eles cuidam melhor do couro, vão ter uma carne também muito melhorada, um ganho de peso muito melhor no seu rebanho. Isto vai fazer com que todos ganhem", afirmou Bittar.

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