{ REVISTA COUROBUSINESS }
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MÓDULO PECUARISTA

Marlos Almeida Carvalho, médico veterinário, formado pela Universidade Federal de Uberlândia, desenvolveu até setembro do ano passado, treinamentos e palestras sobre qualidade do couro, por todo o país e nos mais diferentes tipos de locais. Ele avalia que ao todo foram mais de 12 mil pessoas treinadas. “Na EXPOZEBU 2005, por exemplo, foram treinadas 1.044 pessoas. Eu estive em 15 estados brasileiros, percorri diversas capitais fazendo palestras e também participei de feiras agropecuárias. Para saber um pouco mais sobre a experiência no Módulo Pecuarista, Marlos Almeida Carvalho deu a seguinte entrevista:

COUROBUSINESS : Qual avaliação o senhor faz do Programa Brasileiro da Qualidade do Couro?

MARLOS : O PBQC contribuiu bastante na conscientização sobre como tratar os animas para se ter uma excelente qualidade do couro, e isso é de fundamental importâcia, pois o Brasil perde por ano mais de 1 bilhão de doláres. Os treinamentos serviram para mostrar que há mais uma possibilidade de ganho financeiro na cadeia produtiva do boi e este ganho viria com uma melhoria na qualidade do couro. O programa abrangeu todo território nacional e com seu caráter exclusivamente educativo, alcançou objetivos importantes, como por exemplo a melhoria da qualidade do couro brasileiro.

 

COUROBUSINESS : O Módulo Pecuarista é um dos mais importantes no âmbito do PBQC. Como foi trabalhar com este público?

MARLOS : Foi bastante interessante, pois o Brasil é um país que possui uma diversidade muito grande, e apesar de ter um assunto em comum, que era a melhoria da qualidade do couro bovino produzido e os cuidados para se ter uma melhor qualidade, houve um grande desafio de apresentar a proposta do PBQC de acordo com a cultura e custumes de cada região. Outro fato relevante é que temos o maior rebanho comercial do mundo e somos o maior exportador de carne, mas em relação ao couro, não somos tão bem vistos assim, já que o valor do couro brasileiro é inferior no mercado internacional se comparado com os preços alcançados pelo couro europeu e americano, por isso fez-se necessário começar um programa como este para melhorar a nossa competitividade

 

COUROBUSINESS : O manejo correto do gado é considerado um dos principais aliados para melhoria da qualidade do couro. O senhor acredita que o Módulo Pecuarista pode mudar as más práticas do mercado neste assunto?

MARLOS : Sim, pois é através da conscientização e mudança de comportamentos que vamos conseguir mudar a qualidade do couro do nosso rebanho, e as boas práticas de manejo além de contribuirem para uma melhor qualidade do couro, vão também melhorar os índices produtivos do rebanho, sendo o principal deles o ganho de peso. Esse processo é longo, pois apesar de já contar com algumas mudanças na melhoria da qualidade do couro, ainda temos um caminho muito grande a percorrer, pois o foco na produção bovina ainda está para a carne, ficando o couro para segundo ou terceiro plano. Então é preciso que todos nós que estamos envolvidos na cadeia produtiva do boi, enxerguemos o animal na sua totalidade, para que todo ele seja aproveitado da melhor forma possível trazendo um retorno financeiro maior do que estamos tendo hoje.

 

COUROBUSINESS : Baseado na sua experiência como consultor do PBQC, por que ainda há no Brasil a cultura de menosprezar o couro na hora de comercializar o boi?

MARLOS : Porque a grande maioria dos produtores rurais não vêem uma remuneração real pelo couro e como os produtores recebem pelo valor da arroba, fica subentendido que eles só recebem pela carne e não pelos outras partes do animal, como o couro, por exemplo, só que sabemos que na planilha de remuneração da arroba feita pelos frigoríficos entra todos os “componentes” do boi (chifre, couro, vassoura do rabo, unhas, visceras, dentre outros). O que precisamos fazer é melhorar a qualidade do couro produzido, já que em termos de carne evoluímos muito nos últimos tempos, e assim passarmos a negociar na hora de vender o gado um diferencial pela qualidade do couro, não é fácil falar sobre esse assunto, pois há uma rivalidade entre produtores e frigoríficos, mas precisamos encarar isso de uma forma coerente, porque toda a cadeia ganhará pelo aumento da qualidade do couro e não apenas um segmento da produção. Vale lembrar também que no mundo que vivemos hoje a qualidade de um produto tem uma importância fundamental na hora da negociação, mas quando é atingida esta qualidade o valor do produto, que neste caso é o couro, aumentará com certeza, podendo chegar ao valores alcançados por EUA e Europa.

 

COUROBUSINESS : O que o mercado pode esperar como resultado dos treinamentos neste módulo?

MARLOS : Uma melhora significativa na qualidade do couro bovino. Isto só vai ser possível a médio e longo prazo, mas os primeiros passos já foram dados e já temos no Brasil programas de melhoria da qualidade que já estão funcionando e com resultados bastante siginificativos. Precisamos agora é aumentar os nossos esforços em treinamento e capacitação da mão-de-obra no campo e também fazer com que o produtor rural tenha algum retorno financeiro por produzir bovinos com um couro de qualidade.

 

COUROBUSINESS : O que mais chamou atenção ao longo desta experiência?

MARLOS : Foi ver que mesmo com tantas dificuldades para produzir bovinos para o abate, como por exemplo o preço da arroba, o alto custo dos insumos, a falta de qualificação da mão-de-obra e outras particularidades de cada região, os produtores melhoram seus índices de produtividade a cada dia, investem cada vez mais na produção e estão aumentando a oferta de bovinos para o abate, que é uma condição muito importante para nos manter como maior exportador de carne do mundo. Devemos muito aos produtores e no mínimo temos que parabanizá-los por esta atitude.

 

COUROBUSINESS : Há alguma ação de acompanhamento, independentemente do apoio do PBQC?

MARLOS : Bom, com a abrangência do PBQC não. Percorremos quase que todo o território nacional fazendo treinamentos e palestras, e por isso conhecemos muito bem a realidade com que os nossos produtores estão lidando, inclusive as dificuldades de cada região para se produzir um couro de qualidade. Levo comigo uma preocupação de que se nós não continuarmos com esse acompanhamento, todo o trabalho feito será perdido.

 

COUROBUSINESS : Quais as maiores dificuldades que o senhor encontrou para realizar os treinamentos?

MARLOS : Quando se vai tratar do assunto couro, muitas vezes nos deparamos com a pregunta: por que o produtor não ganha nada pelo couro? Esse assunto com certeza foi o mais debatido ao longo do ano, e nós do programa não entramos e nem alimentamos esta polêmica. O que realmente fizemos foi mostrar que não podemos perder mais tanto dinheiro por falta de qualidade, e que devemos ser mais competitivos perante os EUA e a Europa, o que só vai acontecer com a melhoria das nossas peles. Outra grande vantagem dessa melhora é que os produtores terão um poder maior de negociação perante os compradores, o que pode trazer ganhos adicionais na hora de comercializar o gado para o abate.

 

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