INDÚSTRIA DE CALÇADOS: À FLOR DA PELE
EXPORTAÇÃO INCONTROLÁVEL DE WET BLUE PODE COMPROMETER A RECUPERAÇÃO DA INDÚSTRIA CALÇADISTA BRASILEIRA
Falta de couro no mercado interno pressiona preços do calçado "made in Brazil" no momento de recuperação do setor e rascentde a discussão sobre a livre exportação de Wet-Blue: Abicalçados quer que o governo crie contas para que o país volte a ter estoqaue regulador.
Por Martha Steban
O ano 2000 trouxe astral e negócios para os calçadistas brasileiros concretizarem uma virada nas exportações. Os números confirmam essa tendência só agora, após um ano de câmbio livre. Desde a crise em meados dos anos 90, é a primeira vez que as vendas externas alcançam resultados positivos entre janeiro e março - com nítidos reflexos no cenário interno.
À distância, seria de se imaginar que os dólares e empregos gerados nesse período de alta garantem também ânimo renovado e euforia aos empresários do calçado - afinal, indicam a volta do setor ao mercado internacional após a penúria de uma crise banhada a falências em série e milhares de demissões.
Errado. Os fabricantes de sapatos, em especial os exportadores, respiraram fundo e prenderam a respiração frente a mais um desafio: resistir aos aumentos nos preços do couro e à falta do produto, para evitar reajustes no sapato made in Brazil justo agora - quando os saudosos clientes internacionais retomam seus pedidos.
As exportações brasileiras de calçados fecharam o primeiro trimestre do ano com altas de 16% na receita e de 21% no volume de pares. Os negócios atingiram US$ 368, 7 milhões, contra os US$ 317, 2 milhões registrados no mesmo período de 1999. Deixaram as fronteiras brasileiras 47,3 milhões de pares - no primeiro trimestre do ano passado foram comercializados 39,1 milhões de pares. Os números confirmam as projeções da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados(Abicalçados), que projeta um crescimento de 15% para os negócios internacionais do setor neste ano.
Mais sapatos exportados não pesam apenas na Balança Comercial. Estão antes de tudo tirando a ociosidade no chão de fábrica. Os anúncios de "Há Vagas" para empresas de toda a cadeia voltaram a ocupar espaço nos classificados. Só em Campo Bom, cidade gaúcha que tem economia baseada na produção de calçados, o número de vagas passou de 248 no primeiro trimestre do ano passado para 707 nos primeiros três meses deste ano. "O setor fez sua parte - investiu em qualidade, aumentou a produtividade e ganhou competitividade com o fim do engessamento cambial", avalia o presidente Abicalçados, Nestor de Paula.
As peles servem de matéria-prima essencial para a faixa de consumo onde o país firmou tradição. Afetam diretamente o preço do sapato feminino de couro, responsável por boa parte dos negócios internacionais do setor. O Brasil está reconquistando posições oferecendo produtos em couro entre US$ 6,00 e US$ 8,00, um grande avanço em relação aos US$ 10,00 de outros anos, avalia o presidente da Abicalçados. Mexer na tabela agora vai deixar os compradores ressabiados com a imagem de estabilidade que o setor transparece e pior: vai baixar a guarda para os imbatíveis chineses, que oferecem produtos abaixo de R$ 6,00.
A indústria acompanha a cotação do couro com atenção há mais de um ano. Nos últimos 15 meses, o preço do produto avançou e bateu no limite: registrou aumento de 120% e ameaça a competitividade do sapato de tal maneira que o presidente da Abicalçados mudou o tema de seus discursos. Não consegue falar em exportação de calçado (nem comemorar seu nítido aumento), sem tecer análises sobre os preços couro, a grande ameaça, diz ele, à retomada das exportações.
"Wet blue vai acabar com a alegria dos calçadistas"
Nestor de Paula, Presidente da Abicalçados.
O alvo certeiro das críticas do presidente da Abicalçados, Nestor de Paula é a "desmedida" exportação de couro Wet blue. "'Se o preço não cair, nossa alegria vai acabar", vem repetido em tom de alerta. Na última terça-feira (2 de maio), De Paula apresentou seus argumentos e números ao secretário da Câmara da Comércio Exterior (Camex), Roberto Giannetti da Fonseca. Levou também para a audiência sua sugestão: que os embarques dessa matéria-prima sejam reduzidos em 50%, durante seis meses, levando-se conta as exportações de igual período anterior. "Na condição de grande exportador, o setor calçadista não se opõe ao Livre Comércio", frisa. "Mas precisamos de planejamento interno para reconquistar o mercado externo", justifica.
As vendas externas de couro deram saltos, o Brasil perdeu estoques reguladores e é obrigado a conviver com a falta do produto e com a alta do preços, argumenta o presidente da Abicalçados. "Não é justo que as vantagens de alguns, por um curto período de tempo, traga para outros problemas de dificil solução, por um longo prazo, " defende, numa alusão a recuperação do segmento de curtumes que se sustenta com a exportação de couro com baixo valor agregado.
O metro do wet blue no Brasil oscila hoje na casa dos R$ 23,00. No mercado internacional, o produto está cotado a R$ 19,00. "Nosso wet blue está servindo para cobrir estofamentos e bancos de automóveis, mas são os outros que saem ganhando com isso", reforça. Hoje, frisa De Paula, existem empresas Multinacionais instaladas principalmente no Nordeste, especializadas em processar e enviar Wet-Blue à Europa e à China. Para complicar, muitos frigoríficos têm hoje uma umidade de processamento de Wet-Blue. "Virou Curtume, mas tem outra posição fiscal", questiona de posse da tabela de embarques que relaciona o estonteante aumento das exportações de couro .
Em 1980, o Brasil exportava 9% de uma produção de 13,8 milhões de couros crus. Naquele ano, as fábricas de calçados colocaram no mercado internacional 49 milhões de pares (quase o mesmo volume do já citado primeiro trimestre do ano 2000), alcançando uma receita de US$ 386,8 milhões. No ano passado, ainda amargando quedas nas exportações, o Brasil vendeu para o exterior 137 milhões de pares e totalizou uma receita de US$ 1,2 bilhão. Ao longo das duas últimas décadas, os calçadistas praticamente multiplicaram por três as exportações.
A produção de couro também avançou. E muito. O país produziu 31 milhões de peles cruas no ano passado: 123% a mais que em 1980. O volume de exportações deu um salto olímpico - cresceu nada menos que 1.135% nos últimos 20 anos, 131% desde o início do Plano Real, o programa de ajuste econômico que marca o inicio da queda das exportações de calçados. No ano passado, metade de todo o couro cru produzido no país, 51%, seguiu para outros países. Restou ao consumo interno 15, 1 milhões de couros - só 2,5 milhões de peles a mais que há 20 anos, um crescimento singelo de 24,47%.
Quando assumiu a Abicalçados, em julho do ano passado, Nestor de Paula já tinha a questão couro na sua pauta de trabalho, mas os curtumeiros argumentavam que a alta e a escassez do produto era transitórias. "Na noite da minha posse, conheci o Scarabel (José Roberto Scarabel, presidente do CICB), e ficamos de acertar um encontro para tratar do assunto - esse encontro não saiu até hoje. E o preço do couro também não caiu. Não temos como adiar por mais tempo uma solução", defende.
Nestor de Paula: Meta é dobrar exportação de calçados até 2002, com o apoio da APEX
Duplicar as exportações de calçados até 2002, alcançando uma receita de US$ 2,57 bilhões, permitindo a abertura de 50 mil novos postos de trabalho nas fábricas de calçados e cerca de 110 mil novas vagas em toda a cadeia produtiva. Essas são as metas do projeto que a Abicalçados apresentou à Agência de Promoção às Exportações (Apex). A proposta conta com 20 projetos dedicados à corrigir deficiências do setor no mercado externo.
Se alcançar o resultado proposto, as exportações de calçado vão praticamente dobrar sua moda (média aritmética que elimina os picos ocasionais), hoje fixada em US$ 1,3 bilhão. "Identificamos que as fábricas têm condição tecnológica e o mercado interno suprimento de materiais: nos falta investir em design e na comercialização, em especial, no marketing, explica o consultor da entidade, Heitor Klein, coordenador do Programa Calçado do Brasil, departamento da Abicalçados responsável pelas estratégias voltadas à conquista do mercado internacional.
Abicalçados e Sebrae (que garante apoio financeiro à Apex) estão fazendo os últimos ajustes nas propostas e Klein espera que o projeto seja aprovado ainda em maio. O programa está orçado em US$ 30 milhões. A Apex vai financiar US$ 19 milhões e as indústrias do setor e seus parceiros arcam com outros US$ 19 milhões. Os recursos serão aplicados em ações que possam disseminar a cultura da exportação entre as médias e grandes empresas e motivar a participação da pequena empresa no esforço exportador.
A lista de iniciativas inclui o lançamento de um curso inédito para calçadistas, com conceitos elementares para quem quer começar a exportar. A formação de um banco de dados sobre o mercado internacional. A impressão de catálogos. A criação de um site sobre a indústria brasileira. Além da participação de feiras internacionais.
Abicalçados e Couromoda parceiros na promoção comercial do calçado brasileiro no exterior já em 2000: México, Alemanha, Itália, EUA, Inglaterra no roteiro da programação!!!
A promoção comercial para o mercado externo será desenvolvida em parceria com a Couromoda Feiras Comerciais, de São Paulo. Um acordo entre Abicalçados e a promotora da maior feira de calçados da América Latina abriu para este ano um roteiro internacional por seis feiras, entre elas a Sapica, no México, a GDS, na Alemanha e a Micam, na Itália. O programa com a Couromoda 'mclui também participação em show room permanente no Miami Merchandise Mart, o quarto maior do mundo, localizado em Miami, nos Estados Unidos. "Não pretendemos montar uma estrutura própria para manter o projeto, mas sim buscar o conhecimento de quem já atua", explica Heitor Klein.
