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COMO FAZER O BRASIL CRESCER

Diante de um plano de metas estruturado em estratégias para 2001-2003, o SEBRAE    que mudar seu foco e alcançar toda micro e pequena empresa existente no país e cumprir seu papel principal: o de contribuir para o desenvolvimento do Brasil

Diretor-presidente do Sebrae, Sérgio Moreira, no lançamento da campanha "Prefeitos". Foram distribuídas 60 mil cartilhas aos candidatos, nas eleições passadas, sobre políticas públicas de apoio às micro e pequenas empresas.

Em 1999, um grupo de executivos se reuniu com o desafio de reinventar o sistema Sebrae, na sua forma de atuação, políticas, prioridades e princípios. Tendo em vista que o processo de reavaliação é constante e necessita de permanentes adequações diante de mudanças no macroambiente político, econômico e social do país, no início de março, deste ano, o Sebrae apresentou o direcionamento estratégico para o período de 2001-2003. Esta programação trienal, com revisão anual, vai permitir uma melhor realização das prioridades estabelecidas dentro do plaEm 1999, um grupo de executivos se reuniu com o desafio de reinventar o sistema Sebrae, na sua forma de atuação, políticas, prioridades e princípios. Tendo em vista que o processo de reavaliação é constante e necessita de permanentes adequações diante de mudanças no macroambiente político, econômico e social do país, no início de março, deste ano, o Sebrae apresentou o direcionamento estratégico para o período de 2001-2003. Esta programação trienal, com revisão anual, vai permitir uma melhor realização das prioridades estabelecidas dentro do planejamento e do orçamento. Para 2001, o Sebrae tem receita estimada em 550 milhões de reais.

O foco deste planejamento estratégico é a geração de emprego e renda, especialmente em localidades distantes, ou carentes de desenvolvimento. O instrumento serão as micro e pequenas empresas, que empregam uma grande massa de trabalhadores e fazem a economia interna caminhar. Estima-se que 60 milhões de pessoas estejam diretamente envolvidas com micro e pequenos empreendimentos no Brasil. Os negócios informais chegam a 15,7 milhões. A difundida expressão "balcão Sebrae" não é mais a imagem que a empresa quer afirmar para a sociedade. A estratégia de atuação está voltada para a ação contínua ao invés de aguardar a demanda chegar até o balcão.

Preocupado muito mais com seu papel social, uma das metas estabelecidas pelo Sebrae é justamente quanto ao índice de falência das micro e pequenas empresas. O serviço pretende nos próximos três anos reduzir o que chama de nível de mortalidade das MPE. Para isso, pretende viabilizar linhas de crédito em condições mais favoráveis às micro e pequenas empresas, incrementar a participação das MPE em redes associativas e na produção nacional. E ainda no ambiente externo, elevar a capacidade do sistema Sebrae em desenvolver municípios e regiões, com programas voltados para a auto-sustentabilidade.

Internamente, será necessário atrair receitas, manter a capacitação do quadro de colaboradores, conhecer ainda mais os clientes e suas necessidades e estimular o intercâmbio de conhecimento e experiência. Dentro da instituição, há um consenso sobre a importância de se elevar o nível de consciência sobre o real potencial do Sebrae e sua razão de ser. Pois, se a consciência é baixa as pessoas atuam de forma meramente protocolar junto aos clientes ou potenciais clientes. Como consequência, os resultados apresentam-se bem aquém do possível. Sem a consciência, todo o resto – treinamento, cursos – torna-se sem vida.

Ainda no exercício de reavaliar a própria estrutura interna da instituição, os executivos do Sebrae entendem que a forma de atuação que vem sendo praticada não tem conseguido o impacto que poderia ter junto ao agregado de micro e pequenas empresas no país. Eles se referem à política de fazer muito, em muitas frentes. A palavra de ordem agora é articular, catalisar, focando a interação com o público alvo. O Sebrae não quer mais esperar que os empresários procurem auxílio. O plano ambicioso é atender todas as micro e pequenas empresas do país, em qualquer localidade.

 

ONDE O SEBRAE   QUER CHEGAR

O Sebrae detém hoje um grande conhecimento sobre a realidade das micro e pequenas empresas. No entanto, está se dando conta de que este conhecimento não está sendo transferido para a ponta (os empresários propriamente ditos). Na estratégia 2001-2003, o Sebrae quer assegurar que em toda rede do sistema haja equipes de direção alinhadas aos valores da entidade. A relação Sebrae Nacional/Sebrae Estaduais também está sendo alvo de reavaliações para adequação da estrutura ao propósito de uma forte presença junto aos empreendedores nas comunidades. Hoje, muita energia e recursos ainda são despendidos em atividades-meio e na sustentação da própria estrutura. Esta mudança estrutural, aparentemente subjetiva, será a responsável pelo cumprimento do genuíno papel do Sebrae: contribuir para o desenvolvimento sustentável das micro e pequenas empresas e consequentemente para o desenvolvimento do país.

A entidade passou a valorizar mais o conhecimento, não só em termos de gestão de micro e pequenas empresas, mas na identificação de mercados novos para a atuação das MPE. Os agentes envolvidos na procura por negócios do futuro são instituições de pesquisa e universidades. O Sebrae, por sua vez, identifica a necessidade de realização de estudos e estimula a produção desses estudos voltados às micro e pequenas empresas. Os projetos estratégicos serão fundamentais para viabilizar as prioridades identificadas. Eles serão tocados em duas frentes. Uma delas se refere aos projetos que contribuam, efetivamente, para a geração de novas micro e pequenas empresas, além do fortalecimento das que já existem. A outra está relacionada a um modelo de gestão para que o Sebrae consiga agir. O primeiro desafio envolve a questão do acesso ao crédito, gestão ambiental, criação de novos negócios regionais, aumento da participação das micro e pequenas empresas na pauta das exportações e atuação em políticas diferenciadas para micro e pequenas empresas. As estratégias para gerir tudo isso passam pela organização da demanda, alianças e parcerias com entidades governamentais, empresariais e do terceiro setor. Os programas que já são mantidos pelo Sebrae, como os de apoio às incubadoras de empresas e ao associativismo, programas na área rural e de apoio tecnológico, deverão ser fortemente ampliados para servir ao novo modelo de ação. Quanto ao conjunto de projetos estratégicos de gestão interna, as mudanças serão na estrutura administrativa, de recursos humanos e implantação da gestão do conhecimento e de marketing.

AS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS
NO COMÉRCIO EXTERIOR

Há um indicativo de que existam 4,5 milhões de pequenas e micro empresas formais no Brasil. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, de 1996, mostram que 180 empresas foram responsáveis por 60% do valor total exportado pelo país naquele ano. No entanto, 79% dessas empresas foram responsáveis por apenas 3,27% do valor exportado. Isso mostra um quadro que deve ser modificado, a partir de um forte estímulo dos setores tradicionalmente exportadores, e sobretudo do aumento da base empresarial das vendas externas. O plano estratégico para 2001-2003 contempla um grande esforço para dar destaque às micro e pequenas empresas na fila dos exportadores. Uma das iniciativas do Sebrae prevê a criação de fundo de aval específico para as exportações. Outra idéia é a criação de consórcios exportadores, já que uma empresa sozinha não consegue reunir condições para movimentar grandes volumes e quantias no mercado externo. Quando uma empresa consegue exportar e manter uma frequência nessa atividade, há o aumento das vendas, melhoria na imagem, aumento da produtividade e do lucro, melhor qualidade do produto, mais clientes, mais negócios.Como há uma carência de dados sobre o papel das micro e pequenas empresas na pauta de exportações, o Sebrae divulgou uma pesquisa, em agosto do ano passado, para identificar a participação dessas empresas em relação ao número total de exportadores. A pesquisa foi feita entre micro (32,6%), pequenas (55,1%) e médias (12,3%) empresas industriais que exportaram no período janeiro/agosto de 1997. Foram pesquisadas 791 estabelecimentos: 403 exportadores e 388 não exportadores. Verificou-se que entre as empresas que exportaram naquele período, as micro representavam 27%, as pequenas, 63% e as médias, 4%. Entre as não exportadoras, 54% de micro, 43% de pequenas e 3% de médias. No período de 1996 a 1997, apenas 6,4% das MPE exportadoras canalizaram suas vendas exclusivamente para o mercado internacional. As vendas voltadas para atender cumulativamente os mercados interno e externo compreendem os setores têxtil e confecções, madeireiro e moveleiro, couros e calçados, artigos médico-hospitalares, máquinas e equipamentos, componentes e peças metálicas e plásticos. Dentre as empresas que vendem apenas internamente, suas vendas também são limitadas geograficamente, com dificuldades de comercialização mesmo dentro do território brasileiro.

Principais problemas enfrentados pelas empresas para ter acesso ao mercado internacional

  • Burocracia
  • Preço não compatívelFinanciamento internoCustos de transporteAcesso à informaçãoDivulgação do produto no exterior
  • Acesso a feiras internacionais

Pela pesquisa, as micro e pequenas empresas exportadoras em geral não possuem um setor especializado em exportação. O que justifica a preocupação do Sebrae com programas de infra-estrutura externa. O objetivo é justamente facilitar a venda de produtos das MPE em mercados com grande potencial. E em parceria com grupos privados e entidades de apoio à exportação, apoiar a construção e manutenção de centros de redistribuição e de "show rooms" permanentes no exterior como suporte. As empresas que iniciam uma atividade exportadora têm preferido os países vizinhos, principalmente os que formam o Mercosul. Este foi o destino de 80% das exportações das micro e pequenas empresas pesquisadas no ano de 1997.

A pesquisa também verificou que a estrutura Sebrae tem sido pouco utilizada para o conhecimento do mercado internacional. Apenas 5,9% dos empresários diz ter utilizado este meio. A grande maioria, 40%, tomou conhecimento através de viagens de negócios e 24% através de visitas a feiras internacionais.

Entre os fatores que distanciam as MPE do mercado externo estão custo de produção, impostos e taxas, custos de importação, despesas financeiras e despesas administrativas. Para cumprir o objetivo de aumentar a base exportadora, o Sebrae terá que enfrentar essa realidade.

 

E   N  T  R  E  V  I  S  T  A

SÉRGIO MOREIRA
Diretor-presidente do SEBRAE

 

COUROBUSINESS – A indústria do couro, que em 2001 projeta exportar US$ 850 milhões, é composta por um pequeno número de grandes empresas e por centenas de empresas de médio e pequeno porte. Que programas, além do PEE já aprovado pela APEX, poderiam ser úteis à indústria para avançar em questões gerenciais, de logística e de atuação no mercado externo, por exemplo?

SM – A atividade coureira é de grande interesse do Sebrae, por concentrar, como foi mencionado, micro e pequenos empreendedores. Entre várias iniciativas no setor, a mais recente é um acordo que firmamos com o BID, o Banco Interamericano de Desenvolvimento, e a Promos, a Divisão Internacional da Câmara de Comércio de Milão, para aportar know-how e tecnologia da Itália para pólos industriais de pequenas empresas, em que os italianos têm enorme experiência e grande tradição. Um dos três pólos inicialmente beneficiados, numa experiência-piloto que, se for bem sucedida, como acreditamos que venha a ser, será estendida a mais de duas dezenas de outros pólos no país inteiro, é justamente o de couro e calçados de Campina Grande, na Paraíba. Trata-se de um pólo em desenvolvimento na cidade de Patos e na capital João Pessoa, que possui mais de 600 empresas, entre formais e informais, 13 mil empregos e uma produção, ano passado, de 160 milhões de pares. O acordo com a Promos e o BID permitirá não só transferir know-how e tecnologia, como também prevê formação de capital humano, expansão do intercâmbio comercial e captação de investimentos diretos de empresas italianas.

COUROBUSINESS – Alguns SEBRAEs regionais têm subsidiado a participação de curtumes nas feiras internacionais, financeiramente. Todavia, institucionalmente, observa-se que essa participação ressente-se de uma ação mais profissional dessas empresas nesses eventos, como falta de material apropriado (textos bilíngües), desconhecimento cultural e ausência de avaliação. Como o SEBRAE poderia contribuir para alterar esse quadro (treinamento, cartilha sobre como participar em feiras internacionais...)?

SM – As atividades de promoção comercial voltadas para o mercado externo estão sendo desenvolvidas pela Agência de Promoção de Exportações, a APEX. Mas nos estados, o SEBRAE desenvolve atividades de apoio a feiras e eventos com o objetivo de alavancagem comercial das micro e pequenas empresas dentro do mercado nacional. Estamos atuando em três modalidades de participação. A primeira delas é a Feira do Empreendedor, que visa disponibilizar, para empreendedores em geral, oportunidades de negócios e informações que possibilitem a formatação de outras unidades produtivas. A outra modalidade são as Feiras Regionais, que são promovidas pelo Sistema SEBRAE. Temos ainda o Acesso a Feiras Nacionais, baseado no apoio financeiro e operacional à participação da pequena empresa nas feiras profissionais promovidas por terceiros, como por exemplo, feiras dos setores de alimentos, a Fispal; de confecção, a Fenit; de móveis, a Movelsul. Estamos produzindo três manuais de orientação interna para execução dessas atividades: o Manual da Feira do Empreendedor, o de Acesso a Feiras e o Manual de Promoção de Feiras e Eventos.Vale observar que para estar preparada para exportação, a empresa necessita de capacitação e qualificação dos produtos ou serviços oferecidos para o mercado-alvo. Isso inclui estudo desse mercado e adequação desses produtos. Além disso, o ideal é que estas empresas estejam dentro de um programa de integração como desenvolvimento setorial e cadeias produtivas.

 

COUROBUSINESS – No Nordeste brasileiro, grande produtor de peles caprinas e ovinas, a indústria depara-se com alguns problemas resistentes, como falta de apoio e organização ao pequeno produtor, o que resulta em várias etapas de intermediação, encarecendo o preço final da matéria-prima. Há possibilidade do desenvolvimento, para toda região, de programas voltados para a organização desses produtores, instituição de centrais de compras e outras alternativas?

SM – Já estamos fazendo isso em alguns estados nordestinos, como Alagoas, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. O apoio à ovinocaprinocultura no Nordeste, que inclui, é claro, os curtumes, é uma das prioridades do Sistema Sebrae. Não tem cabimento um país como a França ter um rebanho de menos de um milhão de cabeças e ganhar notoriedade e fortuna com suas cabras, enquanto o Nordeste, com 11 milhões de cabeças, um rebanho dez vezes maior, pouco proveito tira dessa vantagem. Precisamos agregar valor a esta produção, transformar bode e carneiro em moeda forte, conquistar mercados exigentes, mas também pensar no enorme potencial do mercado interno desse nosso país continental.Estamos, portanto, introduzindo na ovinocaprinocultura o aumento da participação dos pequenos negócios nas cadeias produtivas e a elevação das condições de competitividade das pequenas empresas, num programa chamado Cadeia Produtiva Agroindustrial, que pretende melhorar a competitividade e eficiência de cadeias produtivas agroindustriais, com ênfase nas empresas de pequeno porte, em nível local.Um outro programa é o de Capacitação Rural, que busca transformar a propriedade rural em uma empresa, adotando modernas técnicas de gerenciamento para garantir o aumento de rentabilidade.

 

COUROBUSINESS – Problemas gerenciais e organizacionais de curtumes do Norte e Nordeste brasileiro, com suas características peculiares, poderiam ser objeto de programas específico e, regionalizados. De que maneira a revista Courobusiness poderia ser útil nesse processo?

SM – Como já conversamos, o SEBRAE executa vários programas para o agrobusiness. Além dos já mencionados, existe uma parceria nossa com a CNI, a Confederação Nacional da Indústria, e a CNA, a Confederação Nacional da Agricultura, para exaustivos estudos sobre a eficiência econômica e a competitividade das cadeias agroindustriais. Um desses estudos detalhou , por exemplo, a cadeia da pecuária de corte. O papel da revista CouroBusiness, que atende com competência a uma enorme demanda de informação num setor de importância econômica e social inquestionável, é fundamental para disseminar iniciativas como essas.

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