A HORA ESTRATÉGICA DO COURO
Equilíbrio competitivo, estocagem, o real papel do CICB na questão Wet Blue. Esses são alguns dos assuntos que vão estar presentes nas discussões sobre o futuro da cadeia do couro no Brasil. Nesta interessante e inteligente entrevista à COUROBUSINESS, o empresário Arnaldo Frizzo fala deste e de outros assuntos.
|
 |
Arnaldo Frizzo |
Arnaldo Frizzo Filho é Diretor Superintendente do Grupo Braspelco, sediado em Uberlândia (MG), maior exportador de couro do Brasil, com clientes em mais de 50 países. Considerado no meio empresarial, e também junto aos técnicos governamentais e da área financeira, como um dos maiores estudiosos e conhecedores do mercado mundial de couro, além de produzir e vender, também se dedica a desenhar cenários e propor alternativas de posicionamentos estratégicos em relação aos competidores do mercado mundial. Crítico feroz da política tributária brasileira, tida por ele como "inibidora do comércio exterior e facilitadora da exportação de produtos de menor valor agregado", Arnaldo Frizzo tem procurado sensibilizar as autoridades brasileiras para a urgente necessidade de se dotar o mercado de couro de uma política de estoques estratégicos.
COUROBUSINESS: Qual deve ser a postura do CICB como representante da indústria brasileira do couro no Fórum de Competitividade da Cadeia Produtiva Couro-Calçados, instalado pelo MDIC em 11 de outubro passado? ARNALDO FRIZZO: Entendo que o CICB deve se posicionar nos limites de duas grandes diretrizes. A primeira é a de defender os interesses da totalidade ou da ampla maioria da indústria curtidora sediada no Brasil. A segunda, é a de apoiar políticas que visem o fortalecimento da cadeia produtiva do couro, do boi aos manufaturados do couro, sempre priorizando os interesses do segmento industrializador do couro.
COUROBUSINESS: E qual sua opinião em relação à exportação de Wet Blue? ARNALDO FRIZZO: No caso das exportações de Wet Blue é preciso considerar, preliminarmente, que a política tributária brasileira faz com que seja mais competitivo exportar Wet Blue do que couros Semi-acabados, Acabados, além de calçados e outros manufaturados. Como os países importadores taxam a entrada de nossos produtos mais elaborados e simultaneamente liberam a entrada de couro Wet Blue, torna-se mais favorável ao Brasil exportar Wet Blue do que calçados e couros Acabados. Do ponto de vista de capital financeiro, muito mais caro no Brasil, agravado pela retenção de créditos tributários (ICMS, PIS/COFINS+ CPMF), existe mais vantagem em se exportar o produto de ciclo mais curto de processamento no caso o couro Wet Blue. Essas preliminares nos conduzem sempre à mesma resposta: tudo favorece à exportação de wet blue. O que o Brasil necessita fazer é administrar com inteligência competitiva a posse e a transformação do couro cru e também do Wet Blue, primeira forma de estocagem, de modo a transformar essa matéria-prima estratégica em fator da competitividade frente aos países não produtores da matéria-prima. Também não podemos perder de vista que existe uma tendência mundial da indústria do Wet Blue deixar de ser uma atividade típica do setor industrial curtidor propriamente dito e passar a ser uma atividade da indústria do abate e frigorífica. Essa transformação já ocorreu nos Estados Unidos, Austrália e parte da Europa. No Brasil os frigoríficos produtores diretos, ou em parceria, de couro no estágio Wet Blue, já representam mais de 30% do total. Existe uma divisão clara entre curtidores que apoiam a exportação livre de Wet Blue e os que defendem restrição administrada ou restrição total. Deve ser buscada uma posição equilibrada que atenda os interesses da maioria, senão da totalidade dos curtidores.
COUROBUSINESS: Mas também não existiriam posições até antagônicas de outros membros da cadeia produtiva? ARNALDO FRIZZO: Há. Os donos de frigoríficos, por exemplo, querem livre exportação do couro Wet Blue. Já os calçadistas defendem a restrição total da exportação, se possível até mesmo a proibição. E esses dois segmentos são fundamentais para a indústria do couro.
COUROBUSINESS: Existe alguma correlação entre preço da matéria-prima, remuneração do couro exportado e exportação de calçados? ARNALDO FRIZZO: Ao longo dos últimos 30 anos os "picos" de melhor remuneração do couro cru aconteceram quando houve grande fomento e crescimento das exportações de calçados. Quanto mais forte esteve o mercado brasileiro transformador final do couro, melhor foi a remuneração de todos os segmentos, inclusive da matéria-prima fundamental o couro cru. Portanto, visto por esta ótica, o frigorífico também seria beneficiado com a restrição, quando ela significar e resultar em exportação de produtos de maior valor agregado. Nota-se, também, que quanto mais forte for a cadeia produtiva - do couro aos manufaturados, aí inclusos os calçados - melhor é a performance e maior é a longevidade das empresas curtidoras. Esse último fenômeno pode ser observado em vários momentos das duas últimas décadas.
COUROBUSINESS: Como a livre exportação do Wet Blue concorre para alterar esse quadro? ARNALDO FRIZZO: Após o advento da exportação livre do Wet Blue e seu crescimento exagerado, imprevisto, impensável, que atinge 12 milhões de couro/ano, houve coincidentemente um grande enfraquecimento econômico e financeiro, principalmente das pequenas e médias empresas (a grande maioria) dos setores calçadista e curtidor, com reflexos negativos em toda a cadeia produtiva. Como não existe no Brasil, capital próprio, ou sob a forma de empréstimos específicos para retenção estratégica no país dessa matéria-prima fundamental, mais uma vez se verifica o favorecimento à exportação de Wet Blue. Nos momentos de depressão de preços intensifica-se a exportação de Wet Blue para os mercados italiano e chinês, nossos maiores competidores em manufaturados, e que não possuem matéria-prima em abundância. Esses países, possuidores de inteligência e estratégia competitiva, possuem política e capital para estocagem estratégica. Uma vez feita a estocagem financiam os criadores da moda para que ela seja criada ou "tendenciada" com lastro em seus estoques, formados com Wet Blue brasileiro. Num momento à frente, cresce a demanda por couros, os preços da matéria-prima brasileira se elevam e os transformadores brasileiros ficam alijados do processo. São eles que pagam os preços elevaods em função da demanda externa da nossa matéria-prima. Este círculo vicioso tem enfraquecido a cadeia produtiva sediada no Brasil
COUROBUSINESS: A livre exportação de Wet Blue seria, assim, um elemento estimulador de uma concorrência que poderia se chamar de predatória aos maiores interesses da cadeia produtiva e do país? ARNALDO FRIZZO: Os exportadores brasileiros de Wet Blue já são em número próximo a 100 empresas. A concorrência predatória está instalada. Frigoríficos produtores de Wet Blue com vantagens tributárias frente aos curtumes independentes e necessitando de capital para alavancarem negócios de boi e carne, pouco se preocupam com a estratégia de preços do mercado de couro (completamente secundário para eles). Eles causam depressão de preços e tumultos no mercado. A negociação internacional do Wet Blue brasileiro tornou-se um negócio altamente especulativo e predatório. Quem mais tira vantagem desta situação são os "pára-quedistas" e frigoríficos que entraram no negócio nos últimos anos. A indústria curtidora se ilude e nada tem ganho ou a ganhar com a destruição da indústria organizada nacional (seus clientes de Wet Blue e transformadores em produtos mais elaborados). Aliás, ninguém tem a ganhar a não ser os especuladores e concorrentes internacionais.
COUROBUSINESS: O que o Senhor recomendaria aos formuladores da política de comércio exterior? ARNALDO FRIZZO: Reconhecendo como verdadeiras, em maior ou menor grau, as dissertações anteriores, entendo que o CICB deve adotar posição de prudência e visão de longo prazo. Não entrar em conflito que divida a classe. A entidade deve buscar alternativas, não deve solicitar ou defender taxação sobre exportações de couro em qualquer estágio, mas pode aceitar taxação sobre exportação de Wet Blue, uma taxação que poderia ser entendida como uma salvaguarda de equilíbrio, que resulte em harmonia competitiva entre os segmentos que compõem o setor e a cadeia produtiva. Em havendo a taxação, o CICB deve comportar-se como um setor que cedeu, fez concessões em benefício de interesses maiores e, como contrapartida, deve obter apoio dos calçadistas para que o governo brasileiro, a exemplo da política para grãos, algodão e têxtil, crie uma política de estocagem estratégica de Wet Blue (10 milhões de couros) em valor próximo a US$ 400 milhões. Isto representaria uma vigorosa capitalização e fortalecimento do setor e da cadeia produtiva. Permitiria vendas de produtos elaborados por estações, garantindo-se preços estáveis aos clientes finais. COUROBUSINESS: A estocagem estratégica é tão importante assim para a indústria do couro?
ARNALDO FRIZZO: Com uma política de estocagem seria possível evitar-se a depressão e a especulação de preços do couro cru, a estratégica matéria-prima brasileira. O Brasil passaria a contar com equilíbrio competitivo frente aos países estrangeiros, nossos maiores concorrentes. E o que é mais importante, geraria muitos empregos, incrementaria a exportação de produtos elaborados em couro, fortalecendo o mercado e nossos clientes e fornecedores nacionais. Enfim, recriaria as condições para a indústria curtidora voltar a ser próspera, lucrativa e duradoura.
