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A MÃO DA EMBRAPA NA MELHORIA DA QUALIDADE DO COURO

Em entrevista ao diretor presidente da Embrapa, Alberto Duque Portugal,
COUROBUSINESS explora a participação do órgão no setor coureiro
como agente promotor da valorização do couro

Alberto Duque Portugal
Presidente da Embrapa

 A EMBRAPA, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, é uma das maiores instituições de pesquisa do mundo tropical. Atua desde 1973, com a missão de viabilizar soluções para o desenvolvimento sustentável do agronegócio brasileiro por meio de geração, adaptação e transferência de conhecimentos e tecnologias, em benefício da sociedade. Num momento em que a cadeia do boi busca soluções para um de seus maiores problemas, a má qualidade do couro, a Embrapa aparece como uma das grandes aliadas no combate às más práticas no campo, de onde resultam 60% dos problemas de qualidade do couro.

 A seguir, as opiniões do diretor-presidente da Embrapa, Alberto Duque Portugal, há sete anos na presidência do órgão. Doutorado na área de Sistemas Agrícolas pela Universidade de Reading, Inglaterra, com especialização em gestão de pesquisa e desenvolvimento rural, tanto no Brasil como no exterior, ele é uma das maiores autoridades da América-Latina no setor.

COUROBUSINESS: A exportação direta de couro continua crescendo. A estimativa para 2002 é de US$ 1 bilhão de dólares em 2002. Alguns exportadores desenvolvem parcerias com pecuaristas para melhorar a qualidade do couro. 60% dos defeitos do couro têm origem no campo: 40% por ectoparasitoses, 10% por marcação a fogo em locais inadequados e 10% por marcas de arame e espinhos (transporte e esfola mal feita são responsáveis pelos 20% restantes). A Embrapa tem algum programa nessa linha de melhoria da qualidade do couro bovino? Há estudos e pesquisas da Embrapa voltadas para a qualidade do couro bovino?

PORTUGAL: A Embrapa está desenvolvendo pesquisas com ectoparasitos com a finalidade de melhorar a qualidade do rebanho bovino do Brasil. Essas pesquisas se constituem também em importante instrumento para a melhoria da qualidade do couro bovino, uma vez que buscam eliminar esses parasitos que se fixam diretamente na pele do animal. A Empresa também está participando do esforço para a instalação do Centro de Tecnologia de Couro de Mato Grosso do Sul – CTC/MS em Campo Grande-MS. Trata-se de um modelo inédito no Brasil, tendo em vista três importantes inovações:

  1. Está sendo conduzido sob a forma de parcerias (nesse segmento econômico tal procedimento nunca havia sido realizado), envolvendo o Sindicato das Indústrias de Couro - SINDICOURO/MS; Embrapa; Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul – FIEMS; SENAI/MS; Federação da Agricultura do Estado de Mato Grosso do Sul – FAMASUL; SENAR/MS; Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS; Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal – UNIDERP; Sindicato das Indústrias de Carne de Mato Grosso do Sul – SICADEMS; Secretaria de Produção do Governo do Estado de Mato Grosso do Sul – SEPROD/MS; Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal de Mato Grosso do Sul – IAGRO; SEBRAE/MS; e Sindicato das Indústrias de Calçados de Mato Grosso do Sul – SINDICALÇADOS.
  2. Visa desenvolver pesquisas não só com couro de bovinos, caprinos, ovinos etc., como com peles e couros de animais exóticos ao sistema tradicional, como por exemplo, peixes, rãs, capivaras, jacarés etc. Estes animais se constituem importantes fornecedores de subprodutos demandados pelo mercado.
  3. Conduz estudos e pesquisas para produção de inovações tecnológicas, que levem ao aproveitamento da queratina de algumas espécies animais, para as áreas da biomedicina, alimentação e cosméticos.

Como contribuição inicial ao processo de instalação do Centro de Tecnologia do Couro, a Embrapa Gado de Corte (Campo Grande-MS) realizou recentemente duas reuniões técnicas, com a participação de consultores e pesquisadores, no sentido de elaborar a primeira proposta voltada para a implantação de um programa de pesquisa em peles e couros.

COUROBUSINESS: O CICB desenvolve o Programa de Melhoria do Couro Cru. Por meio dele empresas e frigoríficos formam parceria para a melhoria do couro e os fornecedores recebem um adicional por isso. Segundo a diretoria do CICB, uma parceria visando ampliar o esclarecimento do pecuarista seria um veiculo importante para que ele veja no couro uma renda adicional importante. Como a Embrapa vê essa possibilidade?

PORTUGAL: Sem dúvida alguma é o primeiro passo para se dar o real valor ao couro de qualidade. No entanto, é necessário um trabalho de conscientização junto ao pecuarista, pois 60% dos defeitos no couro, que acabam desvalorizando-o junto ao mercado internacional, têm origem "dentro da porteira". Esforços estão sendo realizados com a finalidade de se remunerar o couro de qualidade. Como exemplo, recentemente foi efetuada a aliança mercadológica entre a Associação Sul Mato-grossense dos Produtores de Novilho Precoce e o Frigorífico MARFRIG para abastecimento de churrascarias do Estado de São Paulo ligadas ao grupo Montana Grill, o qual lançou uma linha de carne de novilho, denominada Montana Premium Beef. O couro desses novilhos, considerado de boa qualidade, despertou interesse das indústrias de curtume do Estado de São Paulo. Um dos parceiros dessa aliança, o Curtume VITAPELE, está buscando entendimento no sentido de pagar aos pecuaristas associados a essa aliança valores que os estimulem a atuar na melhoria da qualidade do couro. Esse valor em princípio está sendo negociado à base de 10% do valor estipulado no peso de carcaça do animal. Um outro exemplo está sendo implementado no Estado de Mato Grosso, onde o Sindicato das Indústrias de Curtume, Frigoríficos e a Cooperativa dos Veterinários estão estudando a classificação do couro do boi em pé, em quatro níveis e valores assim propostos: R$ 10,00 ao couro tipo A, R$ 8,00 ao couro tipo B, R$ 6,00 ao couro tipo C e R$ 4,00 ao couro tipo D. Para estimular o pecuarista daquele Estado, somente participarão os produtores que se cadastrarem no PROMMEPE – Programa Mato-grossense de Melhoramento da Pecuária.

Mesmo assim, entendo como necessário o estabelecimento de uma política governamental para se instituir um programa de valorização do couro, remunerando o pecuarista que implementar um programa de melhoria do rebanho, tomando medidas de redução dos defeitos dentro de sua propriedade. Dentre elas podemos citar a redução de marcas a ferro, do uso de arame farpado, dos ectoparasitos, etc.

COUROBUSINESS: Arnaldo Frizzo, Diretor do CICB – Centro das Indústrias de Curtumes, afirma que o couro vale 7% do valor do boi e que o pecuarista brasileiro recebe pelo couro menos de 50% do que o pecuarista americano, por exemplo. A razão seria que apenas 5% do couro americano têm defeitos, enquanto no Brasil esse percentual sobe para 93%. Na conta dele, se o pecuarista brasileiro fosse remunerado como o americano, os 33 milhões/ano de couro disponíveis pelo abate bovino renderiam um adicional de cerca de US$ 500 milhões para a pecuária brasileira. Por isso ele defende que a Embrapa também estimule ações para a melhoria do couro. Como o senhor vê esses números? Eles seriam motivadores de ações entre órgãos do governo, como a Embrapa, e o setor privado, voltadas para uma nova ótica do couro?

PORTUGAL: De fato, o couro brasileiro perde na competição por causa dos defeitos. No entanto, como já afirmei, é necessário um esforço conjunto. A Embrapa já está se envolvendo nesse importante segmento econômico, mas temos que avaliar a política de incentivo, principalmente por parte dos Estados brasileiros no sentido de estabelecer programas de estímulo ao pecuarista, como desconto no ICMS ou atribuição de valor ao couro considerado de primeira qualidade. Tenho certeza que no momento em que o pecuarista for remunerado por esse critério, vai haver uma mudança na forma de manejo nas propriedades rurais e todos ganharão com isso. Como forma de iniciar os procedimentos visando à melhoria da qualidade do couro, a Embrapa Gado de Corte está elaborando um projeto no sentido de oferecer os critérios que permitam classificar o produto nos moldes usados na Europa e nos Estados Unidos. Acredito que esse procedimento, uma vez consagrado, será o primeiro passo para se instituir um programa de valorização do couro bovino produzido no Brasil.

COUROBUSINESS: Na região Nordeste, a indústria do couro caprino, especialmente, e ovino tem grande importância econômica e social. A Embrapa tem programas específicos para o desenvolvimento desse segmento?

PORTUGAL: Sim, nas reuniões técnicas promovidas pela Embrapa Gado de Corte, ocorridas no segundo semestre do ano passado, participaram pesquisadores da Embrapa Caprinos, Embrapa Pantanal, Embrapa Pecuária Sudeste e Embrapa Amazônia Oriental, pois o Centro de Tecnologia do Couro deverá pesquisar todas as espécies animais com as quais a Embrapa trabalha. A pele de ovino e a de caprino são produtos importantes e que têm mercado potencial reprimido. Falta apenas a implantação de um programa de qualidade para esses segmentos, o que está sendo iniciado agora.

No relatório final da Plataforma Tecnológica sobre Ovinocaprinocultura, realizada pelo CNPq, com apoio dos Ministérios da Ciência & Tecnologia e da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, aborda-se com muita precisão a situação do mercado mundial de peles dessas duas espécies e, segundo a FAO, foram comercializadas em 1992 um total de 756 milhões de peles, cujo montante chegou a US$ 1,65 bilhão de dólares. Isso caracteriza um mercado em franco desenvolvimento tanto na produção, quanto na comercialização. A exemplo dos defeitos apresentados no couro de bovinos, as peles de ovinos deslanados, apesar do maior valor de mercado, (mais elástica e resistente, textura fina e maior gama de aplicações na industria de vestuário e calçado), sofrem as conseqüências de manejo e esfola. As peles dos caprinos têm também boa aceitação pela indústria, mas menos opções de uso. Por isso apresenta um valor ligeiramente menor.

Já existem diversas recomendações técnicas para esse segmento. Ênfase deve ser dada, por exemplo, à exploração feita a pasto; ao uso de cercas compatíveis com a produção de peles de qualidade; à busca de uma elevada taxa de reprodução; à redução do intervalo entre partos para sete ou oito meses; controle de ectoparasitos e finalmente, qualificação da mão-de-obra para os diferentes setores da cadeia produtiva, particularmente o de beneficiamento da pele.


Edifício Sede da Embrapa em Brasília - DF

 

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