Dorothea Werneck,
gerente especial da Agência de
Promoção de Exportações, APEX
"EXPORTAR NÃO É BRINCADEIRA"
Na visão de Dorotha Werneck, diretora da Agência para Promoção das Exportações, APEX, exportar é uma decisão muito mais séria e definitiva que deve estar na visão estratégica da empresa. Com mais de 300 projetos de incentivo ao exportador, a APEX vem sendo na prática um elo entre o empresário e o mercado externo. Nesta entrevista a COUROBUSINESS, Dorothea fala com precisão de conjuntura internacional, barreiras comerciais, caminhos da exportação e mostra, nas entrelinhas de suas frases, um tremendo otimismo em relação ao futuro da exportação brasileira.
COUROBUSINESS - Grandes mercados internacionais como o norte-americano e o europeu estão no centro das discussões sobre barreiras protecionistas. Como o exportador brasileiro é atingido e o que deve ser feito para enfrentar mercados com restrições?
DOROTHEA - Nós estamos num momento extremamente favorável porque o Brasil ainda pesa muito pouco no mercado internacional, estou falando em termos genéricos mas é certo que quanto mais o Brasil crescer e tiver uma posição de destaque em qualquer produto, existe uma reação natural do mercado de tentar criar restrições às nossas exportações. Melhor exemplo para isso, veja o caso entre a Bombardier e a Embraer, ou seja, a partir do momento que a Embraer passou a ser um competidor, e atualmente tem mais de 50% do mercado externo, vem toda a reação da Bombardier. Então é muito importante que todos os setores saibam e se preparem para quando vierem a ter uma posição forte no mercado internacional, suportarem reações dos nossos competidores. Essas reações podem vir desde uma ação junto a OMC, como foi no caso da Embraer, como também por meio de notícias na imprensa, como já começou contra a indústria têxtil brasileira, questionando sobre a proteção do setor ao meio ambiente. O que não pode é criar com isso algum tipo de comportamento do tipo "então eu não vou me envolver na exportação" ao contrário, isso só significa que tem de se preparar desde já para defender suas posições nos fóruns internacionais. Se preparar significa ter uma ação preventiva de adoção de normas técnicas, normas ambientais, e divulgar isso na imprensa. Se preparar também significa que caso surja algum questionamento, a empresa tenha alguma equipe técnica de especialistas, de advogados que vão agir, junto com o governo, na defesa da posição brasileira.
COUROBUSINESS O setor privado não pode agir sozinho quando o assunto é mercado internacional, ele depende da interferência e da estrutura do poder público. Quais dessas estruturas estão exercendo um papel fundamental em favor do empresariado, e qual papel elas esperam do setor privado?
DOROTHEA - Todas as questões ligadas a barreiras técnicas têm uma responsabilidade de negociação de representação do país, que é do governo, e aí vem o Ministério de Relações Exteriores, e alguns casos envolve o MDIC, na estrutura atual neste governo, que está terminando. Então tem uma responsabilidade do poder executivo grande, incluindo as nossas embaixadas. Mas também tem um papel muito importante das empresas e do setor. Não há nenhum especialista dentro do poder executivo que conheça tanto o setor como o pessoal do próprio setor. Então é muito importante essa participação, esse envolvimento e as iniciativas que são tomadas pelo próprio setor privado. A APEX tem um projeto junto com a Confederação Nacional da Agricultura que prevê a defesa das exportações brasileiras de uma série de produtos, esse já é um exemplo dessa participação do setor privado nessas discussões internacionais.
COUROBUSINESS Melhorar o produto final é o principal requisito para melhorar também as exportações de um produto. Qual a importância em organizar as cadeias produtivas, especialmente a coureiro-calçadista?
DOROTHEA - A coisa mais importante quando nós estamos ganhando espaço no comércio internacional é que tenha toda a cadeia produtiva trabalhando junto. No caso do setor couro, vem desde o pecuarista, com a carne, o frigorífico até o curtume. Se nós tivermos um relacionamento dentro dos diferentes elos dessa cadeia produtiva, ou seja, entre o pecuarista, o pessoal de frigorífico, o pessoal do curtume e o produto acabado, lá na ponta, isso facilita o processo de chegar a colocar um produto lá fora com menor preço, com maior qualidade. Então essa relação tem que ser em muitos casos construída e em outros casos tem que ser consolidada. Se nós conseguirmos ter a compreensão de que a ação de cada um é importante para ter lá na ponta um couro de excepcional qualidade, com preço menor porque não vai ter desperdício ao longo do caminho, e utilizado ainda em outros produtos como é o caso do móvel de couro, nós vamos aumentar tremendamente o valor das exportações, e vai ser extremamente benéfico porque está gerando emprego aqui dentro e porque a empresa vai poder se apropriar desse valor agregado.
COUROBUSINESS Como trabalhar a mentalidade exportadora para agregação de valor dentro de empresas tradicionais em um determinado estágio de produção?
DOROTHEA - Quando a gente tem essa questão de necessidade de mudança de cultura dentro de uma cadeia produtiva eu chamo atenção para o seguinte: exportar é um processo de mudança. Processo significa que não é de um dia para o outro e não é tudo de uma vez. Hoje nós já sabemos que existem relações muito mais modernas, muito mais atualizadas, muito mais de cooperação e de uma compreensão clara desse objetivo de melhorar a qualidade do couro, no próprio setor no Brasil. Então você já tem frigorífico trabalhando com curtumes, trabalhando por sua vez também o frigorífico com o pecuarista, onde se está remunerando o couro que não tem defeito, que não sofreu nenhum tipo de avaria na fazenda e da mesma forma o curtume paga ao frigorífico um valor maior se ele recebe também o couro sem problema na hora da retirada do couro da carcaça. O que nós estamos percebendo é que o próprio projeto do CICB/ APEX, que trabalha com os frigoríficos e com os pecuaristas, já está conseguindo resultados e a nossa expectativa é que com o tempo nós já teremos uma proporção muito grande da produção de couro de excepcional qualidade.
COUROBUSINESS Em que tempo poderá ocorrer essa mudança visível?
DOROTHEA - É um trabalho que já começou, repito, já tem resultado mas por definição, o processo acontece ao longo do tempo. Quanto tempo? Não sei, o ideal é que seja um ano, não precisa de muito tempo para fazer isso, obviamente para o resultado você precisa de um pouco mais, se você vai matar um gado com três anos, você tem que cuidar do bezerro que está nascendo agora para evitar os problemas daqui a três anos na hora que ele for para o frigorífico. Então vamos pegar isso como prazo máximo, três anos.
COUROBUSINESS Mas a melhor remuneração nos elos da cadeia é um resultado mais imediato...
DOROTHEA - Nós já temos casos concretos de frigoríficos, de curtumes que começaram na frente já estão remunerando melhor o pecuarista. Agora, isso envolve uma relação direta entre o pecuarista e o frigorífico e o curtume. Por quê? Porque o curtume e o frigorífico já estão recebendo o couro sabendo que este pecuarista já cuida do couro. Não é uma análise couro a couro, se faz a compra e se remunera melhor pelo tanto de bois que você está comprando de um determinado tipo e de um determinado fazendeiro. Para isso vai ajudar muito aquela rastreabilidade que está sendo feita, ou seja, como é que esse produtor cuida do seu gado, de forma que garanta que ele vai chegar lá no frigorífico, e depois no curtume com a qualidade exigida. É uma negociação que já está sendo feita, já tem exemplo concreto, entre determinados produtores rurais, pecuaristas, e determinados frigoríficos e curtumes.
COUROBUSINESS Com um país do tamanho do nosso, como a APEX está estruturada para atender a todas as regiões onde existam cadeias produtivas com perfil exportador?
DOROTHEA - Nós optamos no início do ano de 2002, por ter um trabalho por setor e cada projeto nacional nos ajuda a coordenar os projetos estaduais e os consórcios. Por que a gente fez isso? Para evitar duplicação de esforço, duplicação de recursos, para não ter dois, três projetos de consórcio fazendo prospecção de mercado no mesmo país, então há uma coordenação e uma troca de informações, isso está dando muito certo. A sugestão que a gente faz é a seguinte, se tem algum grupo de empresários de um determinado segmento, pode ser no caso da carne, pode ser no caso do curtume, do couro, que primeiro ele se atine a ver se sua associação de classe tem projeto com a APEX, e tendo projeto com APEX a pergunta já vai direto para a sua associação de classe. O trabalho que está sendo feito no segmento de curtume é com o CICB e o trabalho que estamos fazendo com a exportação de carne é com a ABIEC. E no caso de carne nós já estamos com um projeto que é específico do Rio Grande do Sul, que também tem trabalhado em sintonia com o projeto nacional da ABIEC.
COUROBUSINESS Apesar da promoção do produto nacional, da cultura brasileira, a APEX optou por escrever Brasil com Z em sua marca principal. Por quê?
DOROTHEA É da missão da APEX apoiar a exportação brasileira e a imagem do Brasil no exterior. Os projetos de promoção comercial das exportações têm em torno de 16 atividades, que vai desde a sensibilização, treinamento, treinamento em comércio exterior, treinamento em gestão da empresas, vinda ao Brasil de importadores, de formadores de opinião, e dentre essas atividades todas nós temos a elaboração da marca do setor. Em relação à nossa logomarca, onde está escrito só Brazil, houve uma grande discussão no comitê nacional de promoção, da qual participam os líderes desses projetos nacionais que a APEX apóia. A decisão foi de ficar com Z porque o idioma do comércio exterior é o inglês.
COUROBUSINESS Em relação ao câmbio, o momento atual é extremamente favorável ao aumento das exportações. Nesses períodos há um aumento de novos exportadores no mercado?
DOROTHEA - Todas as perguntas se deve ou não deve entrar na exportação, aproveitando que o câmbio está alto, ou dada a estabilidade do câmbio, eu sempre respondo o seguinte: não se toma a decisão de exportar ou não exportar por situações conjunturais. É uma proposta que a empresa tem de analisar e tem que incluir na sua visão estratégica para resultados de médio a longo prazo. Para entrar na exportação é entrar para ficar. Quem nunca exportou para começar a exportar leva de 18 a 24 meses. Então, não são questões que acontecem no curto prazo, e muito menos, por exemplo, da crise no mercado doméstico, que vai determinar se sua empresa vai exportar ou não. Isso é uma tragédia, por que não é assim que as coisas funcionam. Não é simples começar a exportar, no sentido que envolve um esforço monumental, tem que preparar a empresa, tem que adequar o produto, tem que ter contato com importador, tem que mandar sua primeira amostra, tem que participar de feira, isso leva na nossa experiência, em torno de 18 meses e em alguns casos chega a 24. O que você está fazendo hoje vai entrar no faturamento da sua empresa daqui a 18 meses, para quem está começando, e os resultados que o pessoal está tendo hoje, incluindo os ganhos com o atual câmbio, é resultado de um trabalho que começou há um ano ou 18 meses atrás. Então não é para ficar com essa visão de que o que está acontecendo hoje impede ou estimula a exportação. É uma decisão muito mais séria e definitiva que deve estar na visão estratégica da empresa.
COUROBUSINESS Qual o caminho do empresário para chegar até a APEX?
DOROTHEA - Todos os estados têm contato com a APEX. A agência pretende ser aberta para todos, que podem entrar em contato direto conosco, mas eu reforço a idéia de que é muito importante cada setor buscar sua associação de classe. Hoje nós já estamos com mais de 180 projetos em execução além de 120 que já foram concluídos, isso significa o seguinte: se existe projeto em execução, cada empresa que quiser se envolver no projeto, pode ir na associação que coordena esse projeto e dizer "estou interessado, eu quero participar". Nós temos o nosso site www.apexbrasil.com.br. Clicando em projetos, você vai encontrar a lista dos nossos projetos em execução. A nossa capilaridade tem, além do SEBRAE, as federações de indústrias que se somam a essas associações de classe que a gente já apóia. O contato direto com a APEX pode ser feito pelo e-mail apex@apexbrasil.com.br.
COUROBUSINESS - O custo total dos projetos para a APEX foi de 298 milhões, até agora. Em relação a esse investimento, é possível saber o quanto já se reverteu em aumento de exportações com apoio da APEX?
DOROTHEA - Ainda não temos projeto a projeto o que aumentou de exportação no agregado, porque tem alguns segmentos com empresas que participam de um evento e não participam de outro. O que nós fizemos pegando 2001, quando fechou os dados da exportação, foi comparar aqueles setores que tiveram projetos com a APEX, e medimos o crescimento da exportação comparado com o ano anterior. Os setores em parceria com a APEX cresceram então isso já dá um resultado importante nas exportações. Uma outra coisa que é muito importante, e já é resultado em 2002, é que nós estimulamos muito a abertura de novos mercados. Então, se nós olharmos o resultado das exportações brasileiras em 2002, o que mais cresceu foram os novos mercados, os chamados mercados não tradicionais, onde certamente tiveram uma atuação importante aqueles setores que estão buscando mercado nos países árabes, na Rússia, China, Leste Europeu, países da América Latina, exceto Mercosul. Os resultados são extremamente positivos, especialmente o crescimento, também, das exportações de manufaturados. Esse ano, o crescimento de móveis para os EUA está sendo de 48%, nós já somos o décimo país exportador para o mercado americano e é um projeto que a gente tem com a ABIMÓVEL, que é um projeto que começou focado para os EUA mas expandiram para Inglaterra e agora também para os países árabes. E nós temos ainda o próprio segmento de carne que teve um crescimento extraordinário. Na cadeia coureiro-calçadista os resultados também são expressivos e a tendência é melhorar. O importante é que além dos resultados, está sendo sedimentada uma cultura exportadora.
COUROBUSINESS Então pode-se chamar de positivo o balanço das atividades que a APEX desenvolveu nesse último ano?
DOROTHEA - A gente evita fazer um balanço só no ano exatamente pelos motivos que eu expliquei antes, que quando a gente começa um projeto, ele leva de 18 meses a 24 meses para começar a ter resultados sólidos. O que está acontecendo agora é que os projetos que nós começamos a apoiar em 99, 2000 e 2001 começaram a ter resultados mais significativos e é sim muito positiva a avaliação que nós fazemos. De forma qualitativa, eu acho que os resultados estão no nosso livro, "A primeira exportação a gente nunca esquece" (ver quadro ao lado), que foi elaborado pela equipe da APEX, e traz muitos "causos" de segmentos, de setores, de produtos que fizeram esforço e conseguiram resultados muito interessantes não só no volume total de exportação, mas em cada uma das atividades que são importantes como abertura de novos mercados, novos produtos, encontro de novos clientes, treinamento, desenvolvimento de marcas, etc. E nós também já contratamos a Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior, Funcex, para fazer uma avaliação mais técnica não só da APEX mas também dos nossos projetos.