A NOVA APEX-BRASIL
Juan Manuel Quirós
Presidente da APEX-BRASIL
Entre as prioridades listadas pelo novo Governo, a exportação foi uma das primeiras a vir a público, com meta definida: aumento de 10% em 2003. Quem acompanha a balança comercial brasileira, por setor, entende que o recado deve ser seguido de inúmeras mudanças estruturais para que os setores produtivos possam dar conta do resultado. Uma dessas mudanças pode estar contida na MP 106, de janeiro de 2003, que modifica o corpo da anterior APEX, que passa a chamar Serviço Social Autônomo Agência de Promoção de Exportações do Brasil, e será mais facilmente conhecida como APEX-BRASIL. A APEX já era um órgão capaz de estar o mais perto possível da realidade do exportador, e isso deve seguir. De diferente, a nova MP trará mais recursos para o órgão, com dinheiro previsto no Orçamento Geral da União uma das melhores novidades - e com a possibilidade de convênios com organizações internacionais, por exemplo. Do ponto de vista político, o Executivo tomou conta. É maioria no Conselho Deliberativo encabeçado pelo Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan e indica o presidente do órgão, com o qual COUROBUSINESS inaugura a seção Encontro Marcado 2003. Juan Quirós, 41 anos, é brasileiro naturalizado e tem um longo histórico de atividades de promoção comercial cujos cargos caberiam em uma página inteira. Vale destacar, a título de ilustração, sua participação em diversas rodadas externas sobre a Alca e seu papel em variados órgãos de peso, como a FIESP, na área de relações internacionais. A fim de cumprir a meta estipulada pelo governo no início do ano, Juan Quirós promete usar a "inteligência comercial", para transformar toda a informação disponível em conhecimento traduzido aqui como ganho no comércio exterior.
COUROBUSINESS: A instituição de um Serviço Social Autônomo, supervisionado pelo Governo Federal, com um Conselho Deliberativo majoritariamente governamental, conforme MP 106, marca o retorno governamental ao comando da política de promoção das exportações brasileiras. Quais são as suas expectativas como primeiro presidente da APEX-Brasil? J. QUIRÓS - A Agência ganha mais autonomia e poder político. Com isto, o trânsito é direto, seja no Ministério do Desenvolvimento e suas secretarias, como a SECEX, ou mesmo, na relação interministerial. Representantes do governo e entidades não governamentais já começaram a apontar quais as ações exercidas, por cada um, para evitar sobreposição e maximizar os esforços com foco numa política de promoção comercial baseada na Inteligência Comercial, sob a coordenação da APEX-Brasil. Vale observar os integrantes do Conselho da Agência e outros agentes importantes como o Banco do Brasil, os Ministérios do Turismo e da Agricultura, aliados nesta meta de exportar mais para gerar emprego e renda. Além de uma sintonia fina com o Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan.
COUROBUSINESS - A APEX, no modelo anterior, priorizava o trabalho de longo prazo, assim entendido como a inserção de novos produtos e empresas no mercado externo, a consolidação de uma cultura exportadora, vis-a-vis a resultados mais imediatos na balança comercial brasileira. Quais serão as prioridades da APEX-Brasil? J. QUIRÓS - A APEX-Brasil tem uma missão e ela será cumprida: cabe à Agência ser o instrumento de coordenação das atividades de promoção comercial do Brasil, de modo a integrar no mesmo esforço todos os órgãos, entidades e sistemas de informação. O objetivo é proporcionar clareza e unidade à política de promoção comercial do Governo, com a mobilização da comunidade empresarial e, conseqüente aumento das exportações. O trabalho de consolidação da cultura exportadora é um processo de conscientização e deve ser constante. O maestro é o Ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, em sintonia com a APEX e os aliados que lideram as ações, muitas desenvolvidas pelas Secretarias do Ministério, com o apoio da Agência e dos setores da economia. Na Secex, por exemplo, temos o Portal do Exportador, instrumento de informação, com os caminhos para quem quer começar a exportar. Outros exemplos? Os Fóruns de Competitividade, realizados pela Secretaria de Desenvolvimento da Produção, assim como os trabalhos direcionados ao exportador, dentro da SECEX, como o projeto Rede Agentes, além das mobilizações, que já são apoiadas pela APEX, como os Encomex, Encontros de Comércio Exterior, realizados em diversos municípios, que garantem a interiorização do desenvolvimento e a disseminação do conhecimento. A sintonia é a palavra-chave para exportar mais. Evitar sobreposições e maximizar esforços leva ao maior aproveitamento de pessoal e conseqüente aumento das exportações.
COUROBUSINESS - Algum programa novo na área de promoção comercial? J. QUIRÓS - A Inteligência Comercial: transformar informação em conhecimento. Com o mapeamento dos estados prontos, o trabalho é de identificar produtos exportados e os principais mercados compradores. Com a identificação dos produtos adquiridos no mercado internacional, pode-se, por exemplo, saber se um país já é comprador de qualquer estado brasileiro, qual produto e, principalmente, apontar os caminhos para a exportação de outros produtos que, por ventura, o país importa e o Brasil poderia fornecer. Não é o fato de ter produto, preço e qualidade, mas saber para quem vender, canalizar a energia. O resultado é ampliar a base exportadora, pois, não há como exportar e apostar em um só produto. Temos um espaço enorme para crescer.
COUROBUSINESS - Como funcionará a questão de metas e cobrança de resultados? Qual a meta global para aumento de exportação em 2003? J. QUIRÓS - Todos estão atentos a resultados e a ações eficientes. Quanto foi gerado de emprego e renda, além de quantas novas empresas exportadoras, são as respostas que a APEX precisa conhecer, em relação ao valor dos recursos da APEX investidos nos setores que mantêm projeto com a Agência. A meta do Governo, como já foi anunciado pelo Ministro Furlan é de aumentar o volume das exportações brasileiras e gerar 400 mil empregos.
COUROBUSINESS - O setor privado brasileiro da cadeia coureiro-calçadista tem um calendário já consolidado internacionalmente de feiras comerciais de primeira qualidade os melhores exemplos são Couromoda, Francal, Fimec, Fenac estilo Couromoda. Como a Agência pretende se utilizar desta estrutura já pronta no esforço de promoção da exportação? J. QUIRÓS - As participações em feiras e eventos internacionais são canais que devem ser aproveitados ao máximo pelos setores para mostrar a cara lá fora, o potencial produtivo da cadeia, diagnosticar as ações dos concorrentes, identificar produtos, identificar importadores, vender e prospectar. Aliado ao trabalho dos setores, a APEX-Brasil está desenvolvendo o estudo, denominado "Inteligência Comercial", com o objetivo de ampliar as exportações brasileiras, levando em consideração não apenas a inserção de mais empresas na base exportadora, mas também a inserção de novos produtos. O estudo será regionalizado por Estado e deverá ser concluído num prazo máximo de 60 dias. É preciso identificar a pauta de cada região, as vantagens competitivas e disponibilizar as informações de prospecção de mercado, como os potenciais compradores de cada segmento e região.
COUROBUSINESS - A cadeia produtiva do "boi ao calçado" exportou US$ 3,6 bilhões em 2002, com saldo comercial de US$ 3,3 bilhões. A exportação total representa perto de 6% do total do Brasil e o saldo da cadeia representou 25,5% do saldo brasileiro. Como essa cadeia pode contar com o apoio da APEX-Brasil para ampliar sucessivamente o resultado de 2002? J. QUIRÓS - O apoio sempre será dado àqueles que estiverem em sintonia, trabalhando em ações que incrementam a geração de emprego e renda, mais empresas exportadoras e maior valor agregado.
COUROBUSINESS - Falando especificamente da exportação de couro, o resultado de 2002 foi da ordem de Us$ 960 milhões. Um dos efeitos do convênio APEX-CICB (Centro das Indústria de Curtumes do Brasil) é que pela primeira vez a exportação de couro Acabado (o de maior valor agregado) ultrapassou o percentual de 20% do total. Todavia, o Brasil continua exportando em torno de 65% do couro em estágio primário (Salgado e Wet Blue) que são transformados em sapatos, vestuário e outros artefatos e concorrem com o nosso produto lá fora e aqui dentro. Como a APEX-Brasil vê esse quadro e o que pode ser feito, em conjunto com a iniciativa privada, para o Brasil exportar predominantemente produtos de maior valor agregado? J. QUIRÓS - No ano passado foi lançado o Programa de Agregação de Valor do Couro e a cartilha Couro Brasil. São iniciativas louváveis que tendem a melhorar a qualidade da matéria-prima e aumentar as exportações do produto acabado. A Agência de Promoção de Exportações já deu o passo inicial para a APEX-Brasil: o programa de treinamento em dezenas de frigoríficos brasileiros para melhoria da qualidade da esfola dos animais. O desafio é ao invés de couro, exportar sapatos, para aumentar o valor agregado. Melhorar a qualidade da matéria-prima e investir na produção de artigos com maior valor agregado são condições essenciais para aumentar as exportações de couro. As Secretarias de Agricultura e de Indústria e Comércio de cada estado, e as indústrias do setor já estão atentas a programas que tendem a gerar uma forma de remunerar melhor o produtor que entregar um couro mais cuidado no frigorífico.
COUROBUSINESS - O Ministro Furlan fixou a meta de 10% de crescimento na exportação do Brasil em 2002. A cadeia do "boi ao calçado" pode ultrapassar esta meta, sobretudo se a política tributária eliminar seu viés anti-exportação. Como a APEX-Brasil analisa a questão tributária no contexto da promoção das exportações brasileiras? J. QUIRÓS - O Governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva já sinalizou que está atento a esta questão das reformas, inclusive a Tributária.
