O SETOR COUREIRO-CALÇADISTA
NA ÓTICA DA POLÍTICA INDUSTRIAL
Alessandro Teixeira*
Vice-presidente da APEX-Brasil

Com largo currículo na área de comércio exterior, coordenador da Política Industrial do MDIC, e vice-presidente da Apex, Alessandro Golombiewski Teixeira, 32, encara o Brasil no mercado internacional com otimismo, como um grande player, pró-ativo. Política industrial, para ele, é eficiência produtiva. Eficiência que vem através de duas frentes: do processo de inovação e do processo de modernização. Estas são as direções que, segundo ele, o Brasil precisa seguir para competir de igual para igual com os novos países que despontam na liderança mundial. Em recente viagem à China, ouviu de empresários locais do setor de máquinas que a meta dos próximos cinco anos é dominar o mercado de máquinas e equipamentos da América Latina. Mas Alessandro não se assusta. Pelo contrário, se entusiasma com o trabalho a ser feito. Isso significa dizer que o Brasil precisa fortalecer o setor de máquinas e equipamentos, conclui como um bom estrategista.
Alessandro Teixeira dirigiu a área de Assuntos Internacionais do Governo do Rio Grande do Sul e foi sob seu comando que o estado gaúcho alcançou a segunda posição no Ranking dos Estados Brasileiros Exportadores. Economista, mestre pela Universidade de São Paulo em Economia da América Latina, e doutorado na área de Competitividade Tecnológica e Industrial com ênfase em Comércio Exterior na Universidade de Sussex, Inglaterra, ele pode afirmar com autoridade que exportação não é um processo fácil. Tem que ser incorporado na empresa, trabalhado com planejamento estratégico. A promoção comercial é a última etapa. No meio do caminho está o desenvolvimento da oferta exportada, para que o empresário esteja apto a trabalhar no mercado externo, ensina Alessandro. O vice-presidente da APEX afirma com certo orgulho que atualmente cada empresa que participa das feiras internacionais, com apoio APEX, tem um tradutor à disposição. Para Alessandro, se hoje a APEX-Brasil atende 8 mil empresas, num universo de 17 mil no processo de exportação (ou seja, mais de 50% das empresas que exportam passam pelo trabalho da APEX), é possível acreditar que o Brasil vai colher de forma consistente e duradoura bons frutos na balança comercial. Admirador do ministro Furlan, acredita que o governo está no caminho certo em termos de política externa e diz que a prova são os números frequentemente divulgados pelo MDIC. No entanto, Alessandro Teixeira entende que outras políticas são igualmente prioritárias no governo, e que às vezes elas podem embaçar o caminho exportador, como é o caso da política tributária.
Entre uma viagem e outra, dentro de uma agenda voltada para abertura de novos mercados, Alessandro Teixeira gentilmente recebeu COUROBUSINESS para falar sobre o assunto que domina e sobre a posição que a cadeia coureiro-calçadista ocupa segundo a ótica da política industrial do governo Lula.
COUROBUSINESS - No final de março, o governo lançou a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE). Qual foi a lógica que determinou a escolha dos setores de Software, Semi-condutores, Bens de Capital e Fármacos e Medicamentos como os indutores de um novo modelo industrial?
A. TEIXEIRA - O governo não assumiu a lógica de escolher alguns setores. Na política industrial, não tem uma estrutura em que este setor é prioritário em relação ao outro. O que a gente fez foi encontrar alguns setores que perpassam toda a economia. Quando eu falo em semi-condutores e software, você pode dizer que o setor de agribusiness não entrou, mas hoje a rastreabilidade do gado, por exemplo, é feita com chip de computador, com chip de produção de semicondutor. O setor de máquinas e equipamentos, por exemplo, tem máquinas para todos os setores, é um setor que tem uma capacidade de dinamizar a estrutura industrial que nem um outro setor tem. Esses segmentos foram escolhidos porque têm a capacidade de modernizar a estrutura. Esses segmentos são básicos para se poder fazer o processo de modernização industrial.
COUROBUSINESS - Grande parte da modernização, referente ao setor couro, foi e é vivida por meio da importação de máquinas, e não pelo uso de máquinas nacionais. Como o programa de modernização (Modermaq) poderia afetar o setor couro?
A. TEIXEIRA - Estive em Uberlândia, em uma das maiores empresas de couros, olhando todo o processo de produção e, realmente, nós temos uma parte que são máquinas importadas. Mas o governo vem trabalhando com medidas como o Ex-tarifário, que permite importação sem imposto de máquinas que não têm similar no Brasil. Mas isso não é suficiente, porque qualquer flutuação de câmbio, penaliza-se o empresário brasileiro porque as máquinas sobem de preço. Uma das ações que o governo vem desenvolvendo para resolver isso, e que beneficia o setor de couro e calçados, é a Rede Brasil de Teconologia, que é uma articulação do governo com a iniciativa privada no sentido de trabalhar com SENAIs no desenvolvimento de tecnologia. O CTCCA, no Rio Grande do Sul, é um dos melhores da América Latina, pois transfere tecnologia para o México e para China, por exemplo. Outra ação no sentido de desenvolver tecnologia para construir máquinas no Brasil é a modificação na lei de inovação tecnológica que facilita a ida de pesquisadores para empresas, e viabiliza uma parte de pesquisa necessária para a modernização. Não basta ter o processo de Ex-tarifário e deixar os empresários dependentes de importação, porque se nós continuarmos assim a China vai estar nos exportando máquinas para curtimento.
COUROBUSINESS - E pelo que o senhor viu no parque de grandes empresas brasileiras que importam máquinas, daria para dizer que, logo, o Brasil estará em condições de produzir estas máquinas?
A.TEIXEIRA - Em médio prazo, tenho certeza absoluta. Se você olhar a qualidade do couro há 15 ou 20 anos, vai perceber que teve uma evolução absurda. Assim também com o setor de componentes e máquinas do setor couro. E o trabalho que a APEX vem fazendo no sentido de promoção comercial, levando as empresas brasileiras para as feiras, exportando para outros países e promovendo desenvolvimento, troca de experiências e aprendizados traz todo um benchmark que capacita o mercado brasileiro.
COUROBUSINESS - Outro ponto da política de exportação, além da modernização do parque, passa por questões tributárias, taxações. Como o ministério está dialogando com governadores, por exemplo, que vêem na exportação uma fonte de perda de receita?
A.TEIXEIRA - A diretriz básica do ministro Furlan é fazer um trabalho de desburocratização e desoneração do processo de exportações. Quando o governo toma uma medida como a diminuição da taxação de Wet Blue, ele está desonerando a exportação. Nem sempre o processo de desoneração é positivo para a exportação. Na minha opinião, há vários pontos que merecem um processo de taxação e outros não. A diretriz central do governo é desonerar a exportação e desburocratizar. O governo vem, em alguns setores, baixando o custo da exportação. A reforma tributária não foi feita para beneficiar exportação. Foi feita dentro de uma ótica fiscal. É preciso reconhecer que existem distorções no processo de exportação, mas é importante lembrar que governo brasileiro está aberto para revisar o quadro e acertar as distorções. Esse é o papel do Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial, que foi criado para apontar as diretrizes.
COUROBUSINESS - O senhor cita que em alguns casos é positivo desonerar as exportações, e em outros isso é negativo. Então o governo entendeu que seria positivo desonerar a exportação de Wet Blue?
A.TEIXEIRA - Não é isso. O governo não entende que desonerar o Wet Blue seja positivo, o que nós fizemos foi baixar as alíquotas para ver como é que se comportam as exportações de calçados, e as exportações de couro. Até o final do ano nós teremos uma posição, dentro de um estudo feito pela Camex. Há várias questões sobre essa taxação, não só dentro do governo. O próprio setor não chegou a um acordo. Se houve essa diminuição foi fruto de uma demanda do setor privado, não foi porque o governo quis. Eu acredito que exista um nível ótimo daquilo que o governo pode baixar das alíquotas, mas esse ponto de equilíbrio só vai poder ser definido a partir dos estudos. É preciso produzir um estudo coerente daquilo que vem acontecendo com as exportações de couro e com as exportações de calçados.
COUROBUSINESS - Quando o governo se depara com os números, ao final do ano, que mostram o aumento da exportação de couro Acabado e a vantajosa remuneração desse couro, não há uma visão clara do que seria mais valioso para o país em termos de divisas?
A.TEIXEIRA - Se hoje eu perguntar para qualquer um do setor, no que vale mais à pena o governo investir: exportação de couro Wet Blue, couro Acabado, máquinas, componentes, ou na exportação de calçados, não tem consenso. E não tem porque não há consenso de estudo. Não conseguimos produzir um estudo até hoje para saber em qual daqueles setores se tem um maior crescimento da demanda e qual dos setores vai representar num futuro, próximo ou distante, uma sustentabilidade da produção. Só o lado do valor não seria capaz de nos dar resultado. Nós não vamos só olhar os números finais, porque isso seria uma análise errônea. Nós vamos fazer uma análise de comparação entre a quantidade de peças e o valor. Porque o governo sabe das dificuldades de aumento do preço do couro no mercado interno e inviabilização das exportações de calçados. Eu acho que o governo ainda não tem elementos hoje para dizer qual dos cinco segmentos do setor é o mais importante. Os resultados até agora mostram um grande crescimento em todos esses setores.
COUROBUSINESS - Com os resultados já dos cinco ou seis meses das exportações do ano, o que o setor coureiro pode esperar em relação à postura do governo quanto à taxação do Wet Blue?
A.TEIXEIRA - Eu não sei, sinceramente, se isso se reverteria para um aumento da taxação. O que eu posso dizer é que, dependendo do resultado (anual) a taxação talvez se mantenha nesse mesmo nível. Não vai ser a posição de um ministro ou de uma pessoa que vai interferir diretamente nisso, quer dizer, vai ser uma posição tomada a partir de um estudo e a partir de uma análise crítica.
COUROBUSINESS - Do ponto de vista do desenvolvimento industrial, o papel que o Brasil ocupa como fornecedor de matéria-prima para grandes concorrentes, como a China, não assusta?
A.TEIXEIRA - Poderia assustar se o setor privado e o governo tivessem uma posição reativa, e não fossem proativos. Hoje, quem conhece a produção chinesa, e olha a fatia de mercado que eles nos tiraram no mercado europeu e no mercado americano, já tem consciência que se o Brasil não se cuidar nós iremos dançar no mercado, porque eles já estão trabalhando com calçado de boa qualidade. Para isso, o governo já vem fazendo um trabalho no setor de couro e calçado, dentro do Forum de Competitividade e dentro da articulação do setor, para não ter medo disso. Nós já estamos trabalhando num projeto, que envolve a APEX e o SEBRAE, para a melhoria do design do calçado brasileiro. Porque nós sabemos que se o país ficar parado, olhando as coisas acontecerem, estaremos numa postura reativa. Acredito que o setor privado brasileiro está evoluindo dentro do posicionamento estratégico. O governo, em conjunto com a iniciativa privada, começa a ter uma política ativa. E à medida que se tem uma política ativa, temos garantia de que o país vai ser competente o suficiente para competir com a China, Itália ou México.
COUROBUSINESS Como a APEX e o governo avaliam o peso do setor coureiro-calçadista na pauta das exportações?
A.TEIXEIRA - Eu vejo sempre o setor trabalhando integrado, porque onde nós vendemos couro, também podemos vender componentes, calçados ou máquinas. O que nós temos tentado trabalhar, principalmente na APEX, é mostrar que esta integração é fundamental. Se nós conseguirmos andar juntos, de mãos dadas, o setor não só vai se fortalecer como vai ser um dos setores dominantes na exportação e no mercado interno brasileiro.
COUROBUSINESS - O governo Lula, desde o início, falou que as exportações seriam um dos principais capítulos da política industrial. Qual é a sua avaliação do comportamento das exportações até agora no atual governo?
A.TEIXEIRA - O ministro Furlan é incansável nesse ponto, no sentido de viabilizar o aumento das exportações brasileiras para que cheguemos a 2006 a 100 bilhões de dólares exportados, mas para isso precisamos trabalhar, não é botar no papel 100 bilhões e ficar esperando que aconteça. Não se faz política de exportação sentado em Brasília. Se for olhar a agenda da equipe da APEX e do MDIC, pode-se perceber, pela quantidade de viagens, que há uma constante busca de abrir novos mercados e aumentar as exportações naqueles mercados já existentes. Promoção comercial não é ter uma gôndola e sapato pendurado. Precisa ter princípio, meio, fim e follow up. O setor privado tem sido muito mais agressivo do que já foi em toda a história. O setor de couro e calçado, para mim, é um exemplo típico. Uma das razões para este comportamento é o trabalho da APEX, de promoção comercial. Quem está trabalhando com a APEX, mais cedo ou mais tarde vai ter resultados concretos.
*Alessandro Teixeira
Vice-presidente da APEX-Brasil
Coordenador de Política Industrial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior
