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ABDI LANÇA PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO
EM ABRIL

Dois anos depois de iniciado o governo Lula, instala-se a estrutura administrativa e política de orientação, promoção e execução da política de desenvolvimento industrial. É um modelo novo, estável, fora do âmbito da burocracia, com larga participação de representantes do setor privado, financiado com recursos não orçamentários. Criada em dezembro do ano passado a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial – ABDI – é um Serviço Social Autônomo. A finalidade da ABDI é “promover a execução de políticas de desenvolvimento industrial, especialmente as que contribuam para a geração de empregos, em consonância com as políticas de comércio exterior e de ciência e tecnologia”. O presidente, Alessandro Golombiewski Teixeira, foi escolhido dentro do Grupo de Política Industrial, do qual era coordenador e que foi extinto com a criação da agência.

Segundo ele, essa estrutura de comércio exterior formada no governo Lula é um modelo novo de gestão de Estado. “É um modelo que precisa da agilidade no processo das decisões, é um modelo que precisa dar mais penetrabilidade e diálogo com o setor empresarial”, afirma o presidente da ABDI.

Apesar da agenda intensa de viagens para Índia, China, México, por exemplo, Alessandro aguarda o dia 12 de abril para divulgar o Planejamento Estratégico da ABDI, que vai mostrar efetivamente como a agência vai trabalhar na direção da meta de promover o “salto na mudança de paradigma produtivo brasileiro”. E para falar sobre este novo desafio, Alessandro Teixeira recebeu COUROBUSINESS para a seguinte entrevista:

COUROBUSINESS: Qual é o papel da ABDI neste novo modelo de política industrial?

A.TEIXEIRA: Basicamente a ABDI tem a responsabilidade de fazer toda a coordenação da política industrial bem como, em alguns casos, executar os diversos planos de ação que a política industrial  tenha necessidade. Ela não vem cumprir ou sobrepor as funções dos ministérios, porque os ministérios tem uma função finalística, cada um cuida da sua área e da sua ponta. Esta questão de integração e as questões transversais dos ministérios são a área de atuação da Agência. Anterior a ABDI nós tínhamos um grupo de coordenação executiva da política industrial. Então, basicamente, a função da ABDI é função de coordenação e execução.

COUROBUSINESS: Como está o trabalho da Agência hoje, após três meses de sua criação?

A.TEIXEIRA: Nós estamos nos estruturando (risos... ele olha à sua volta e está numa micro sala, ainda sem muito espaço físico). Na verdade, até o final do mês de março a ABDI deve estar em pleno funcionamento. O dia 12 de abril, nosso dead line, é o dia da apresentação do programa, do Planejamento Estratégico da Agência.

COUROBUSINESS: Há algum ponto desse planejamento que podemos adiantar?

A.TEIXEIRA: O que se pode falar é que a Agência atualmente faz o acompanhamento das políticas industriais. Por exemplo, um tópico específico é coordenar um grupo para novas formas de financiamento de garantia. Também estamos trabalhando no estudo de uma lei, um decreto, uma forma jurídica para consórcios de exportação. O BNDES deve ser o executor das diversas linhas de financiamento. Na verdade o trabalho da Agência é auxiliar o governo de forma geral a buscar as melhores formas de financiamento, um exemplo é o desenvolvimento da área de capital de risco.

COUROBUSINESS: Como a ABDI vai gerar informações e soluções para os setores industriais?

A.TEIXEIRA: A agência vai sentar com cada um dos setores e trabalhar um Plano Estratégico Setorial. Temos os Fóruns de Competitividade como um dos palcos do processo de construção das políticas industriais, e temos na agência, em conjunto com os esses fóruns setoriais e com o próprio setor, a possibilidade de construção de novas políticas, e de atendimento às demandas. Já tive reunião, por exemplo, no Vale dos Sinos (Rio Grande do Sul), com todo o setor de calçados. Fiz uma apresentação da ABDI, e conversamos sobre as possibilidades de interação. Um dos pedidos que fiz foi para que eles levantassem as necessidades de melhoria setorial que não sejam só na área tributária e cambial, porque isso é um problema histórico do Brasil. Acho que tem muito mais coisas a serem feitas além disso. Na questão cambial nós sempre teremos um diálogo, mas são questões macroeconômicas que não dependem só do governo brasileiro, é internacional.  Na tributária, a Agência vai sim ter o papel de identificar os gargalos tributários e auxiliar os ministérios quando for necessário na busca de alternativas

COUROBUSINESS: O que a ABDI espera da relação com as entidades setoriais?

A.TEIXEIRA: Esperamos da parte das entidades uma participação cada vez maior, ou seja, uma participação construtiva. Necessitamos de criatividade e de buscar soluções para os problemas, não basta somente ficar sentado, reclamando do câmbio ou que a taxa de juros está elevada. São elementos restritivos, não são impeditivos, portanto temos que ter criatividade, temos que cumprir o nosso papel, que é articular com o setor privado. Por outro lado, o setor privado tem que cumprir o papel de pressionar o governo naquelas questões que ele acha importantes, mas também tem que se conscientizar, e eu acho que vem fazendo isso, de que precisamos criar mecanismos diferentes para que se busque minimizar qualquer tipo de problemas eventuais na área tributária ou cambial.

COUROBUSINESS: Como isso poderia ser feito na área do couro, por exemplo?

A.TEIXEIRA: Exemplo disso hoje é a forma de distribuição dos produtos do couro e calçado no exterior. Todos nós sabemos que dependemos de agentes, e são grandes agentes, grandes distribuidores. Essas pessoas, em média, pelo que fiquei sabendo, ganham em torno de 45% de mark up. Se conseguíssemos ter canais de distribuição direto com as lojas, qualquer variação e qualquer um dos dados macroeconômicos não seriam suficientes para deixar o setor complicado.  Seria o caso de se fazer  um trabalho para chegar numa determinada cadeia de lojas direto em vez de passar por um distribuidor do mercado, para as empresas de médio e grande porte serve, para as pequenas não. Então acho que esta construção de alternativas, de novas formas é importante. A melhoria da qualidade também. Eu tenho escutado cada vez mais, principalmente no setor de couros, que muitos dos melhores técnicos de curtimento do Brasil têm saído para o México e para a China. E isso tem feito com que esses países consigam melhorar o Wet Blue que compram de nós bem mais do que se faz internamente. Isso é um problema que tem que ser discutido, tão grave quanto à questão cambial, a questão da taxa de juros, quanto à questão de financiamento. A perda desses profissionais no passado significa que colocamos fora do Brasil várias pessoas que acabaram fechando as pontes que nós tínhamos com as cadeias de lojas, as cadeias nos Estados Unidos, porque foram trabalhar em Guandong, em León.

COUROBUSINESS: De forma prática, como a ABDI pode atuar para trazer esses técnicos de volta ao Brasil, por exemplo?

A.TEIXEIRA: Um dos pontos que vamos discutir é a interação da política educacional com a política industrial, ou seja, a formação técnica, a formação dos cargos profissionais para a indústria. A formação universitária é extremamente importante, é fundamental para o desenvolvimento industrial. Aqui está a diferenciação entre a nossa política industrial e as políticas anteriores. As políticas que o Brasil sempre teve foram políticas focadas em determinado setor, numa determinada ação. Na década de 50 foi o setor automobilístico, na década de 80/90 foi o setor de informática, para citar exemplos. Agora buscamos modernização industrial, inovação, redução da vulnerabilidade externa, e também uma política transversal que consiga dialogar com a política de educação do país, com a política de desenvolvimento regional, e todas essas ações tendem a se tornar perenes, e isso é o que buscaremos. Abrindo essa discussão, é importante que o país sempre veja a política industrial vis-a-vis a política educacional. Este foi o modelo que a Coréia utilizou, que a China vem utilizando, que o Canadá ou Japão também utilizaram. Quer dizer, qualificação técnica das pessoas é fundamental para o salto de desenvolvimento tecnológico e para o salto de competitividade que a indústria precisa dar.

 COUROBUSINESS: Esta foi a orientação que o governo quis ao elaborar a Lei de Inovação Tecnológica?

 A.TEIXEIRA:  A Lei de Inovação tem a compreensão de que o locus inovador não é a universidade, é também a empresa, centralmente a empresa. A universidade tem a capacidade de inovação, ela é a base do sistema de inovação, mas na verdade a inovação se dá e aufere seu lucro e sua função dentro da empresa. Entender isso é entender que cada vez mais que a empresa precisa de pesquisador, precisa de cientistas para que o país consiga transformar aquilo que é conhecimento e informação em inovação, e isso é fundamental para fazer aquilo que nós nos propomos que é dar um salto na mudança no paradigma produtivo brasileiro. 

COUROBUSINESS: A atuação do Ministro Furlan, desde o princípio do governo Lula, a posterior reformulação da Apex-Brasil e agora a ABDI formam um novo modelo de política industrial?

A.TEIXEIRA: É um modelo novo de gestão de Estado. Ou seja, a criação de uma Agência para Desenvolvimento Industrial e a criação de uma Agência de Promoção da Exportação, o trabalho articulado dos ministérios formam um modelo novo. É um modelo que precisa de agilidade no processo das decisões, é um modelo que precisa dar mais penetrabilidade e diálogo com o setor empresarial porque o nosso governo, o governo do presidente Lula, não pretende ser soberano nas suas decisões. Vamos escutar o setor empresarial para construir políticas, porque não adianta ter aquele tipo de governo que constrói uma política sem escutar ninguém e visualiza depois que a política não está correta. Queremos criar um ambiente propício de desenvolvimento e este ambiente passa necessariamente por uma construção conjunta entre setor privado, academia e governo.

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