NEGÓCIOS APOIADOS PELA APEX-BRASIL PODEM
CHEGAR A 17,8% DAS EXPORTAÇÕES EM 2005
Em 2003, com a reformulação da Agência, cerca de 8 mil empresas obtiveram ajuda para exportar ao todo mais de US$ 2 bilhões. Em 2005, os negócios podem chegar a US$ 20 bilhões, e 15 mil empresas engajadas. Segundo o MDIC, a meta de exportações gerais para o ano está em US$ 112 bilhões
A promoção comercial viveu, nos anos de 2003 e 2004, uma reviravolta na política nacional de apoio às empresas, especialmente exportadoras. Quando o novo formato da Agência Brasileira de Exportações, Apex-Brasil, foi implantado (por Medida Provisória, em 2003), a palavra de ordem era “inteligência comercial”. Dentro desse conceito, estavam também as novas diretrizes da política que estava sendo adotada. Aproveitar ao máximo a capacidade exportadora das empresas brasileiras e trocar informações com o mundo para descobrir os melhores mercados para cada uma. Missões comerciais, rodadas de negócios, eventos promocionais, feiras e missões internacionais foram as ferramentas usadas para estruturar o crescimento nas exportações, meta declarada assim que o novo governo assumiu. Não por acaso, um ano depois, as exportações brasileiras chegariam à marca dos US$ 100 bilhões pela primeira vez na história do comércio exterior brasileiro (valor registrado entre março/04 e fev/05).
A APEX-Brasil não é capítulo único desse feito, mas sem dúvida tem um enorme peso. Hoje a agência está ligada a 45 setores da indústria e de serviços, cerca de 200 projetos foram assinados, abrangendo 63% da pauta exportadora do país, contribuindo de maneira definitiva para os resultados da balança comercial brasileira.
Com foco na pequena e média empresa, a Agência apóia o processo exportador desde a adequação de produtos e processos até a ação direta no mercado internacional. Destaques para 2005 são eventos inéditos como o “Ano do Brasil na França”, que já rendeu negócios de R$ 450 milhões até junho, diante de um investimento prometido da Apex-Brasil de R$ 10 milhões, e ainda a feira “Brasil na reconstrução do Iraque”, que será um dos maiores eventos do Brasil nos países árabes. Ainda merece especial destaque a inauguração do primeiro Centro de Distribuição no exterior, o Miami Free Zone. Novos projetos como esse serão implantados também em 2006. Comandando toda esta estratégia de exportação está Juán Quirós, primeiro presidente da Apex-Brasil no formato de agência autônoma. Quirós foi diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp - Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, dirigiu o CIN - Centro Internacional de Negócios, e coordenou a Divisão de Promoção Comercial do Programa SPEx - São Paulo Exporta. Durante uma pausa na sua agenda intensa de viagens, ele concedeu a seguinte entrevista para COUROBUSINESS:
COUROBUSINESS - Na sua avaliação, qual o espaço que a APEX-Brasil tem hoje na vida do exportador brasileiro?
QUIRÓS – A APEX-Brasil tem um papel importante na vida dos pequenos e médios exportadores ao criar instrumentos que facilitam a entrada e a permanência deles no ambiente do comércio global. Apesar de não ter foco nas grandes empresas, a Agência acaba ajudando a tais firmas também, por meio de ações que promovem a Marca Brasil no exterior e que favorecem todos os produtos nacionais. A contratação de pesquisas de mercado internacionais e a realização do trabalho de Inteligência Comercial pela APEX-Brasil são medidas de grande utilidade para os empresários. A organização de feiras internacionais de negócios, a realização de missões comerciais em países alvos e a atração de compradores internacionais também trazem benefícios imediatos ao exportador, sob a forma de geração de novos negócios ou oportunidades. Para se ter uma idéia, apenas considerando os dados dos eventos, feiras ou rodadas de negócio, por exemplo, nacionais e internacionais, verificamos que, em 2003, a Agência apoiou a participação de 8.196 empresas de micro, pequeno e médio portes em 410 eventos. O volume negociado nesses eventos ultrapassou os US$ 2 bilhões. Em 2004, foram 500 eventos e 13.500 empresas participando, movimentando cerca de US$ 12 bilhões em negócios. A previsão para este ano é apoiarmos 15 mil empresas em 550 eventos, gerando em torno de US$ 20 bilhões em novas oportunidades comerciais.
COUROBUSINESS – A APEX-Brasil tem projetos junto a 52 setores da indústria e de serviços. Como se pode medir a presença da Agência nesses setores?
QUIRÓS – Em cada um desses projetos temos o investimento de recursos por parte da Agência e de valores adicionais que são aplicados como contrapartida pela entidade setorial. Os projetos têm objetivos e metas muito bem estabelecidos, que incluem aumento das exportações, bem como aumento do número de empresas exportadoras e geração de empregos. Então, a presença da APEX-Brasil nesses setores pode ser medida pelo alcance de tais metas. Temos tido um retorno altamente recompensador. No ano passado, os negócios realizados pelas 13 mil empresas apoiadas pela APEX-Brasil somaram US$ 12 bilhões, o que equivale a 13% de todas as nossas exportações. Os projetos financiados pela Agência já respondem, hoje, por mais de 60% da pauta de exportações do Brasil.
COUROBUSINESS – Quando o presidente Lula assumiu o governo, a antiga APEX foi reformulada e ganhou autonomia. Essa alteração protege o exportador, engajado nos atuais projetos, de uma possível mudança de governo, seja em 2006 ou 2010?
QUIRÓS – A autonomia da APEX-Brasil foi extremamente importante para o desenvolvimento das ações da Agência, bem como do desenvolvimento de uma Política Estratégica de Promoção Comercial. Desde 2003, temos um orçamento próprio e realizamos acordos com vários estados da Federação, através dos quais a Agência repassa apoio técnico. Recentemente estivemos em Mato Grosso do Sul e verificamos, por exemplo, o interesse do estado e a necessidade em aumentar os investimentos para a exportação de peixes. Isso vem acontecendo nos contatos realizados com vários governos estaduais. Nossa meta é identificar setores estratégicos que possam ser alvo de uma ação governamental coordenada. Acredito que hoje a Agência está estruturada e com ações e atividades bem definidas. Eu sempre digo que temos uma atuação técnica.
COUROBUSINESS – Um dos grandes eventos que a Apex-Brasil promove no segundo semestre está ligado a oportunidades no Iraque. Como foi o trabalho para viabilizar a participação de empresas brasileiras nesta reconstrução e como a Agência lida com aspectos relacionados à segurança, uma vez que a situação política no país é instável?
QUIRÓS – O Iraque, apesar de todas as dificuldades que enfrenta, está se reconstruindo e precisa importar um grande volume de produtos e serviços, boa parte dos quais pode ser ofertado pelo Brasil. Há pouco mais de dois meses uma equipe técnica da Agência realizou um trabalho de prospecção de mercado e identificou 18 setores em que existe um grande potencial de negócios. Assim, por meio dos projetos que temos com as entidades setoriais, convidamos as empresas a participarem do evento. Tivemos um ótimo retorno e cerca de 80 já confirmaram presença no evento. Além das pequenas empresas, estão indo também companhias de grande porte como Lupo, Cargill, Trifil, Bauducco, Celite e Perdigão. Quanto às questões de segurança, optamos por realizar o evento em Amã, capital da Jordânia, exatamente por oferecer a estabilidade necessária, além de facilidades logísticas para que os produtos cheguem ao Iraque.
COUROBUSINESS – Ainda sobre o Iraque, o que a Agência espera alcançar em negócios?
QUIRÓS – A expectativa é fechar negócios no valor de US$ 30 milhões apenas com o evento e, a partir daí, pretendemos retomar com vigor os nossos contatos comerciais com o Iraque. Em 1995, o comércio bilateral ultrapassou US$ 2,4 bilhões, sendo US$ 630 milhões em exportações brasileiras. O bloqueio comercial ao qual o Iraque foi submetido fez cair esses valores para apenas US$ 6 milhões em 2001. Mas desde o fim do embargo comercial, estamos trabalhando para recuperar as vendas ao Iraque e já alcançamos US$ 62 milhões em 2004. Nossa meta é voltar, em breve, aos valores de 1995.
COUROBUSINESS – O setor coureiro conta com uma lista de feiras no mercado externo bastante consolidada. Nesse caso, como a agência participa dos desafios internos dos produtores, como por exemplo a questão da melhoria da qualidade do couro e o aumento de exportações de maior valor agregado?
QUIRÓS – A APEX-Brasil considera importante que o setor trabalhe a qualidade do produto, porém, ações nesse sentido não estão dentro do escopo de atuação da Agência e devem ser trabalhadas com o apoio da entidade setorial e de organismos como o Sebrae ou o Senai. A exportação de produtos de maior valor agregado também é um ponto importante da estratégia da APEX-Brasil e, por isso, priorizamos o apoio às empresas que estão trabalhando nesse sentido, ou seja, agregando às suas mercadorias condições que a levem a ter um diferencial de mercado.
COUROBUSINESS – Qual é a política adotada pela Agência quando questões relacionadas às exportações dependem de outros setores do governo, como no caso das taxações e impostos? Até onde a Apex-Brasil pode atuar?
QUIRÓS – Questões de taxação e impostos são resolvidas pelos ministérios competentes para isso – Ministério da Fazenda e Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior no caso de tarifas de importação. O papel da APEX-Brasil é centrado na promoção comercial externa dos produtos brasileiros e na divulgação da imagem do Brasil no exterior. Por outro lado, como a Agência tem grande conhecimento dos problemas setoriais, procuramos ajudar expondo os pontos de vistas dos empresários aos órgãos responsáveis pela tomada de decisão.
COUROBUSINESS – Investimentos em projetos como “Ano do Brasil na França” tendem a perpetuar os negócios entre os dois países envolvidos, ou os negócios ficam dependentes de uma mesma iniciativa em anos futuros?
QUIRÓS – Um evento desse tipo tem um impacto grande na visão que os importadores e consumidores estrangeiros têm do Brasil. O objetivo é que eles percebam que o Brasil não é apenas o país do samba e do futebol, mas tem produtos de qualidade e preço competitivo em vários setores, tem uma moda moderna e bonita, tem design e muita criatividade. É evidente que a construção de uma marca não é uma coisa que se faça de um dia para o outro. A APEX-Brasil pretende continuar trabalhando com esse objetivo mas não necessariamente com o mesmo evento. Quanto ao impacto nos negócios entre os dois países, um evento como esse possibilita que o exportador, principalmente o pequeno, entre no mercado internacional, o que poderia ser muito mais difícil se não existissem tais ações. Trata-se de um primeiro passo, mas que precisa ser seguido por várias outras ações. A manutenção do mercado vai depender não apenas de eventos promocionais, mas também de medidas tomadas pelo próprio exportador, que precisará manter a qualidade que demonstrou e estar sempre em busca de inovações e melhorias para seu produto.
COUROBUSINESS – A inauguração de Centros de Distribuição, como o de Miami, abre uma nova etapa na história das exportações brasileiras. Como está o calendário para a instalação de novos centros? Eles serão nos mesmos moldes e atenderão os mesmos setores?
QUIRÓS – O Centro de Distribuição de produtos em Miami foi o primeiro dos CDs multisetoriais que serão instalados pelo Governo Brasileiro em locais estratégicos no exterior, que garantam o acesso a mercados regionais. A intenção é que estes espaços sejam utilizados por empresas exportadoras brasileiras, previamente selecionadas, como local para negociação e manutenção de estoque de produtos. O fato de a mercadoria já se encontrar no território onde a venda será realizada agiliza a entrega e ajuda a garantir o cumprimento de compromissos pós-vendas. Depois de Miami, Frankfurt na Alemanha será o próximo local a receber um Centro de Distribuição, com implantação prevista para o final deste ano. Já existe um CD funcionando em Dubai, nos Emirados Árabes, mas está focado apenas no setor de móveis. Esta foi uma primeira experiência e nos ajudou a definir o funcionamento do CD de Miami. Agora, é importante destacar que os CDs estão sendo planejados para receber empresas que já possuem cultura exportadora, em geral de pequeno e médio porte, ainda que algumas grandes marcas sejam integradas para auxiliar a consolidação desses espaços. Produtos perecíveis ou que exigem acondicionamento especial não poderão fazer parte dos CDs neste primeiro momento, uma vez que a estrutura de refrigeração encareceria o projeto. Estão excluídas também commodities e produtos a granel, porque o objetivo é estimular a venda de produtos com valor agregado. A idéia é que os CDs constituam o primeiro passo para que empresas nacionais abram filiais no Exterior. A idéia é que cada uma adquira experiência para se estabelecer no mercado a médio prazo.
