NOVA DIRETORIA DO CICB FOCALIZA
AGREGAÇÃO DE VALOR
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O novo presidente do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil, CICB, Umberto Cilião Sacchelli, é diretor presidente da empresa APUCACOUROS desde sua fundação, em 1990, como sucessora do Curtume Apucarana, sediada na cidade de Apucarana, no Estado do Paraná. Na direção de Umberto Sacchelli, as atividades da empresa se expandiram significativamente nos últimos anos. A Apucacouros, que está entre as maiores do Brasil no ramo e engloba couros bovinos em todos os estágios, tem procurado aumentar sua produção ano a ano, investindo em máquinas e equipamentos, bem como em seu quadro de pessoal, proporcionando cursos e treinamentos. O Grupo SEM, do qual a Apucacouros faz parte, possui ainda as seguintes empresas: Frigorífico King Meat (Carne Eqüina para exportação), Produtos Alpes (Material de higiene e limpeza), Água Maceratti (Água Mineral), King Pet (Ração para animais domésticos). Umberto Sacchelli sempre fez parte das diretorias do CICB nos últimos 20 anos, em funções estratégicas, agora assume a presidência com o ânimo de sempre e com muitos desafios pela frente. Eis o que ele disse à COUROBUSINESS, logo após sua posse. |
COUROBUSINESS: Nos últimos 10 anos, a exportação de couros deu um salto significativo. Trabalha-se este ano com uma meta de US$ 1,6 bilhão, incluindo todo o cap. 41 e exportação de “obras de couro”. Como o senhor vê o futuro da indústria de couros do
Brasil para os próximos 10 anos?
SACCHELLI: O futuro é muito promissor porque ainda podemos contar com o crescimento do rebanho brasileiro, e isso assegura o básico para o sucesso, que é a disponibilidade do mais importante fator, ou seja, da matéria-prima. Nossa preocupação deve ser em relação a adoção de uma política industrial abrangente e que proporcione crescimento para o setor coureiro, tanto no mercado interno quanto no externo, principalmente.
COUROBUSINESS: A exportação de couro de maior valor agregado se transformou numa meta do CICB. A quantidade exportada de couro Acabado já é quase um terço do total (31%), e a de Crust tem se situado na faixa de 12% do total. É possível um esforço adicional, através de novos programas ou fortalecimento dos atuais, para que a exportação de Acabado e Crust, em curto espaço de tempo, supere 50% do total em quantidade?
SACCHELLI: Sim, é possível desde que haja uma política industrial voltada para que as empresas tenham condições de competir no exterior, lembrando que esta condição também deve incluir todo o setor que utiliza couro, como sapatos, artefatos e estofamentos. É importante também o crescimento da indústria que finaliza o produto, com o consequente aumento da demanda no mercado interno. Destaco esse ponto de política industrial porque países como Índia e China, por exemplo, têm programas de incentivos para setores de manufaturados, portanto a competição internacional com esses países não é e nunca será fácil. Como exemplo de duas ações no campo da política industrial importantes para o setor cito, principalmente, a necessidade de se manter ou ampliar a taxação na exportação de Wet Blue e de se agilizar a restituição de créditos tributários. Aliás, a questão do crédito acumulado está se tornando num dos mais expressivos gargalos do setor. É inadmissível que os governos – federal e estaduais – se foquem exclusivamente no caixa, e coloquem em risco a saúde das empresas, as quais, no fundo, são quem bancam as estruturas dessas instâncias burocráticas. A tributação deve estar a serviço da geração de emprego, renda e investimento e não se transformar em risco para as empresas. E esse é um dos fatores que contribuem para reduzir a nossa competitividade internacional.
COUROBUSINESS: Embora a participação da exportação de Wet Blue no total tenha declinado nos últimos anos, ainda é significativa (cerca de 56% do total em quantidade). Nos últimos meses, ela vem crescendo mais do que a de couros de maior valor agregado. Como o senhor vê a exportação de Wet Blue? Qual seria, em sua opinião, o menor percentual aceitável de exportação de Wet Blue em relação ao total exportado?
SACCHELLI: O ideal seria que a exportação quantitativa de couros Wet Blue não passasse de 35% do total produzido. Penso que esse é o nível máximo que deve ser perseguido pelo CICB, pelos demais membros da cadeia produtiva e também pelas autoridades governamentais. O caminho seria gerar políticas capazes de induzir naturalmente a queda. Uma vez alcançado esse limite, novos estudos deveriam ser feitos de modo a se estabelecer nível ainda menor. Se em dois ou três anos isso ocorresse, todos ganhariam, e o país, muito mais.
COUROBUSINESS: A taxação do Wet Blue exportado tem previsão de cair de 7% (incidência atual), para 4% a partir de 1º de janeiro de 2006. O CICB fará gestões para que a redução não aconteça? Que percentual, nas circunstâncias atuais, seria defendido?
SACCHELLI: Faremos o possível junto ao governo para voltarmos aos 9% que prevaleceram de 2001 a 2003. Os números mostram que a taxação resultou num incremento extraordinário da exportação de couro bovino Acabado, o estágio de maior valor agregado, enquanto que a redução de 9% para 7%, vigente entre 2004 e 2005, resultou num incremento da exportação de couro Wet Blue. A queda para 4%, como prevista na Resolução CAMEX, seria um desastre para os interesses do país, e um sinal extremamente negativo para o mercado internacional. Cair para 4% não pode, pois o ideal é subir para 9%, já que um percentual maior encontra resistência junto às autoridades federais. (No dia em que concedeu esta entrevista, Umberto Sacchelli esteve na CAMEX para defender a posição do CICB. Veja texto nesta edição.)
COUROBUSINESS: A entrada dos frigoríficos na exportação de Wet Blue, nos anos recentes, se tornou uma realidade do mercado. Como ela influencia o comportamento dos curtumes tradicionais exportadores, e também a oferta no mercado interno?
SACCHELLI: Os frigoríficos são concorrentes de peso que passam a competir conosco no mercado, especialmente o internacional. Se a concorrência for leal, dentro das regras não escritas do mercado, tudo bem. Ela não pode se dar, todavia, com benefícios fiscais e outros que discriminem os curtumes. No cálculo do PIS e COFINS os frigoríficos gozam de crédito presumido das matérias-primas em razão da produção de carne. Mas este crédito acabado por fazer parte do conjunto em que também há exportação de couro, contrariando o espírito do crédito que é voltado para matérias-primas destinadas à alimentação, no caso a carne.
COUROBUSINESS: O que significa para a indústria de curtumes, exportadora, trabalhar com câmbio tão baixo? O que precisa ser feito para o setor se adaptar a essa realidade de real apreciado? Qual seria, em sua opinião, a cotação mais adequada para a realidade nacional?
SACCHELLI: O dólar em queda afeta não só a nós mas todo o setor exportador, porque sempre o dólar teve tendência de alta em nosso país, e muitos negócios são feitos com base nessa expectativa. Porém, desde o ano passado o dólar vem caindo em relação ao real e surpreendendo as nossas expectativas. A saída é adequar os custos para continuar a exportar. Quanto a melhor cotação do dólar, penso que depende da capacidade econômica do país. Se realmente os indicadores econômicos estão bem melhores, demonstrando uma posição mais sólida financeiramente, nós exportadores deveremos nos acostumar a ter um real mais forte e ajustar os custos a essa realidade. Por outro lado, imagino que o Banco Central deveria baixar a Taxa SELIC mais rapidamente, o que fortaleceria o dólar, pois a taxa de juros é o item que não está normal em termos mundiais, isto é, está muito acima de patamares normais e isso prejudica nossa competitividade.
COUROBUSINESS: Uma pergunta sobre um fenômeno de preocupação mundial: como o senhor vê a China no contexto da indústria mundial de couros e calçados? Como tirar proveito da agressiva entrada dos chineses nesse mercado? Como vender couro de valor agregado para os chineses?
SACCHELLI:É uma preocupação muito grande o crescimento da China porque sabemos que por diversos motivos, sem entrar no mérito, eles são mais competitivos que a nossa produção manufatureira. Uma oportunidade para o Brasil seria trabalhar em parcerias com as empresas chinesas, e isso já ocorre em nossa cadeia produtiva.
COUROBUSINESS: A nova diretoria do CICB se instala, pelo noticiado, sem divergências em relação às grandes teses do setor. Todos são pró exportação de couro de maior valor agregado. Como esse pensamento uniforme poderá ser canalizado no sentido e na direção do crescimento e da modernização da indústria curtidora nacional?
SACCHELLI: Sim, o objetivo do setor é trabalhar pelo maior valor agregado, e com esse pensamento único poderemos crescer gerando novos empregos e oportunidades. Todo nosso esforço será nessa direção e nesse sentido. Já disse antes que é preciso reduzir a exportação do Wet Blue a um nível próximo de um terço do total aqui produzido, mas é preciso também estimular, por meio de políticas industriais e de promoção comercial, a exportação de couros de maior valor agregado, especialmente o Acabado. Olhando a cadeia como um todo, ênfase também deve ser dada à exportação de manufaturados do couro. Há, na atual diretoria do CICB, consenso em relação à tese de exportação de valor agregado. Isso torna nossa missão mais agradável, mas não menos trabalhosa.
