JACOMETTI: “MUDANÇA CAMBIAL É SOLUÇÃO PARA CRISE NO SETOR CALÇADISTA”
Dados da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados, Abicalçados, mostram que o país exportou de janeiro a março deste ano 57,4 milhões de pares, contra os 60,1 milhões embarcados no mesmo período de 2005. A queda de quatro pontos percentuais preocupa o setor, que ainda aguarda a divulgação dos dados oficiais de abril para avaliar o que acontecerá no segundo semestre. A baixa na quantidade é seguida por uma alta no valor negociado, que atingiu US$ 489,4 milhões e aponta para um ganho de 7% no valor médio vendido por par – sinalização clara de vendas de calçados com maior valor agregado para mercados onde o calçado chinês, barato e subsidiado, não domina.
O cenário, segundo o presidente da Abicalçados, Elcio Jacometti, não poderia ser pior. Ele defende mudanças imediatas na política cambial e culpa o governo pelo desemprego gerado no setor. Jacometti acredita que o esfoço das empresas, em parceria com apoiadores como a Apex-Brasil, está garantindo as vendas aos mercados de maior valor agregado para driblar a concorrência chinesa. Paralelamente, a Abicalçados elabora estudo para abertura de processo antidumping contra a China. O setor calçadista gaúcho ainda prepara para maio uma grande reivindicação em Brasília para cobrar das autoridades as mudança necessárias para recuperar a indústria de calçado, especialmente aquelas relativas ao câmbio.
Esse é o quadro que serviu como base para a entrevista com o presidente da Abicalçados, Elcio Jacometti, a seguir.
COUROBUSINESS : O setor calçadista está enfrentado sérias barreiras para seu crescimento. A maioria delas esbarra em ações do poder público. Quais as expectativas para este ano de 2006?
JACOMETTI : A principal expectativa é de que haja uma reação em relação ao câmbio. Sem isto, não há nenhuma outra medida que possa auxiliar o setor no seu crescimento.
COUROBUSINESS : Lideranças do setor vêm se reunindo com o governo federal tentando produzir resultados nas suas reivindicações. O deputado Tarcísio Zimmermann, do PT do RS, vê como positivas ações na direção de restituições dos créditos de PIS/Cofins e IPI, e de medidas de proteção ao mercado interno. O senhor concorda com esta avaliação?
JACOMETTI : Qualquer medida que auxilie o setor é bem vinda. Mas como disse anteriormente, sem uma reação positiva em relação ao valor do dólar, estas medidas não terão impacto imediato no desempenho das empresas. Nós propusemos, em dezembro passado, uma série de sugestões aos ministros de Estado e até o momento poucas foram executadas, e uma delas é a restituição mais ágil do PIS/Confins e IPI, mas isto é uma obrigação do Estado e não um favor. É um direito das empresas e que o governo, por alguma razão, estava atrasando o repasse.
COUROBUSINESS : O setor já trabalha com o cenário cambial desfavorável. Que medidas estão sendo adotadas para driblar esta situação e o setor continuar crescendo?
JACOMETTI : As empresas estão realizando todos os esforços possíveis para manter-se em operação no mercado internacional. Continuam participando de feiras e eventos internacionais, reduzem a margem de lucro para segurar o cliente. Mas há um limite para estes investimentos. No que cabe à Abicalçados, nós estamos continuamente em contato com os órgãos de governo, encaminhando nossas preocupações e também realizando uma série de ações promocionais através do Brazilian Footwear. Este é o programa de promoção às exportações que nós desenvolvemos com a Apex-Brasil e que auxilia as empresas no seu esforço exportador.
COUROBUSINESS: Quais estratégias o setor adotou para enfrentar a concorrência da China este ano?
JACOMETTI: A única forma de vencer os chineses é fazendo produtos de alta qualidade, para um público consumidor exigente, porque o grande consumo foi tomado pelos chineses. E pelo lado brasileiro, solicitamos à Receita Federal a instalação do canal cinza nos portos brasileiros, de modo a verificar as mercadorias que chegam da China. É uma atitude que ajuda no controle de produtos subfaturados.
COUROBUSINESS: A venda de produtos com alto valor agregado, mas com menor volume exportado foi classificada pelo senador Paulo Paim como péssima saída, pois contribuiu para o aumento das demissões, segundo ele. É correta esta avaliação?
JACOMETTI: Nós concordamos com ele. A venda de produtos de alto valor agregado é muito pequena, porque este público também é reduzido. Esta alternativa é válida para empresas de pequeno porte e não para as grandes indústrias. Mas nenhum empresário demite porque quer. A China tomou o mercado de alto consumo do Brasil, assim como nós tomamos da Itália há vinte anos. O mercado interno, por sua vez, também está recessivo. O consumo no Brasil está estabilizado há muitos anos. O Brasil é muito competitivo. O que nos deixa à margem dos produtos de alto consumo é o problema cambial. O calçado chinês, além de ser barato de produzir, por causa dos subsídios, também sai com uma vantagem cambial de, no mínimo, 30%.
COUROBUSINESS: Quais reivindicações o setor está pretendendo levar a Brasília nos próximos encontros? (A manifestação de maio está confirmada?)
JACOMETTI: Nossa maior reivindicação é a mudança na política cambial - ou quaisquer outros mecanismos que a equipe econômica possa descobrir para compensar estas perdas, desde que não sejam contra as leis da OMC. É a única forma de podermos competir no mercado internacional. Nosso sapato está muito caro, devido a questões mencionadas anteriormente, como câmbio desfavorável, mercado interno recessivo e concorrência com produtos chineses subsidiados.
