Francisco Santos: indústria nacional de calçados X indústria asiática
“A indústria nacional é, no ocidente, a única capaz de competir mundialmente com os calçados asiáticos”.
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Nesta edição a Courobusiness entrevistou Francisco Santos, Fundador e Presidente COUROMODA, Vice-Presidente de Relações Internacionais da Ubrafe e Vice-Presidente WSFO/ World Shoe Fairs Association, em Paris.
A COUROMODA, realiza em janeiro de 2007 sua 34ª edição. É a maior feira de calçados da América Latina, reunindo 1.200 empresas expositoras em 80.000 m² de área de exposição. Divulgada em mais de 90 países, deverá receber a visita de mais de 4.000 compradores internacionais. |
Courobusiness: Há vinte anos a indústria de calçados brasileira venceu a barreira de US$ 1 bilhão de exportação. De lá, aos dias atuais, registram-se movimentos pendulares. O que fazer para a exportação superar a marca de US$ 2 bilhões/ ano de exportação e se manter acima desse nível com taxas anuais crescentes?
Francisco Santos: O balanço das exportações de 2006 mostra que o setor está no caminho certo. A exportação, em valor, vai ficar igual a 2005 e tudo indica que voltaremos a crescer em 2007, quando certamente ultrapassaremos a barreira de US$ 2 bilhões. Indústrias modernas, modelagem atualizada, maior valor agregado, e logística ágil, começam a fazer o diferencial, principalmente no confronto direto com os concorrentes asiáticos. Mão-de-obra diversificada, matéria-prima abundante e deslocamento da produção dentro do Brasil, com o desenvolvimento de novos clusters , indicam que nosso país é o único competidor no Ocidente aos produtos da Ásia.
Courobusiness: A promoção comercial de calçados no exterior está no caminho certo? O que fazer para exportar calçados de maior valor? Que países procurar?
Francisco Santos: A promoção comercial do calçado brasileiro experimentou um grande impulso nos últimos quatro anos, graças, sobretudo, ao suporte financeiro oferecido pela APEX-Brasil, que torna mais econômica a participação das empresas nacionais nos mais variados eventos em todo o mundo. O que antes era um custo elevado, bancado pelas empresas e por alguns apoiadores, como a Couromoda, ficou mais leve de ser suportado pela indústria e ampliou o leque de mercados atingidos. Reflexo disto é a variedade de países que hoje compram o nosso calçado. O que antes estava concentrado no mercado americano, que chegou a comprar 80% da nossa produção exportada, hoje está pulverizado em 124 países, embora os Estados Unidos, a Argentina e o Reino Unido ainda sejam compradores de 60% do que o país exporta. A exportação ainda é concentrada, mas reduziu em muito a dependência a um só país.
Courobusiness: Que papel as feiras brasileiras desempenharam no processo de divulgação do calçado brasileiro e da atração de novos compradores?
Francisco Santos: Um papel de suma importância, diria. A Couromoda, em especial, sempre esteve presente na promoção internacional ao longo dos últimos 30 anos, buscando novas oportunidades de venda em todos os continentes. Sua presença se dá com a organização de stands brasileiros nas principais feiras mundiais de calçado, com o estímulo à criação de marca própria, trazendo compradores internacionais e formadores de opinião para visitarem a feira no Brasil, desde tempos em que isso ainda nem era pensado como política pública.
A propósito, hoje, o papel da APEX-Brasil na promoção comercial no mercado externo se completa com as feiras que são realizadas no país, não só no setor de calçados, bem como em todos os setores da nossa economia. Mas para que esta “dobradinha” dê melhores resultados, seria importante que a APEX-Brasil também valorizasse os eventos nacionais, muitos com mais de três décadas de vida e uma longa experiência em cada um dos setores objeto de feiras nacionais de grande porte. Este é, sem dúvida, um imenso capital em conhecimento de promoção comercial que não está sendo utilizado e que poderia ser um importante braço no apoio ao importante trabalho feito no exterior. Creio que a APEX-Brasil, em sua permanente evolução, há de considerar esse aspecto na programação dos próximos anos.
Courobusiness: Alguma outra sugestão em relação ao trabalho desenvolvido pela APEX-Brasil?
Francisco Santos: Outro ponto no qual temos apostado, ao trazer importantes compradores e/ ou distribuidores para visitar as nossas feiras, é também levá-los a conhecer a ótima estrutura industrial do setor calçadista brasileiro. Creio que a APEX-Brasil também poderia adotar este procedimento Os europeus, em especial, não querem parceiros para uma só compra. Eles querem conhecer a estrutura do seu parceiro, querem parcerias mais profundas, e isto sempre dá frutos e negócios de longo prazo, e que tendem a se perenizar.
Courobusiness: Voltando ao mercado externo, que paralelo o Senhor faz entre a indústria de calçados da Europa e do Brasil?
Francisco Santos: A situação européia deve levar a uma diminuição muito rápida da produção de calçados naquele continente. Isso certamente pode também ser um ponto altamente favorável para o Brasil. Com a indústria desaparecendo na Franca, Itália, Espanha e Portugal, abrem-se importantes portas para nossos calçados em todos os paises da Europa. Temos espaço para vender por meio de distribuidores e cadeias de lojas, mas também podemos estabelecer parcerias com indústrias que têm grife conhecidas e suas próprias redes de representantes, além de capital para se associar aos industriais brasileiros. Esse aspecto merece análises mais profundas, pois, voltando ao começo, o Brasil certamente é, pelas razões apontadas, o grande e talvez maior competidor ocidental em condição de enfrentar os produtos asiáticos.
CALÇADOS: SOBRE CRISES E CRISES
Roberto Nogueira Ferreira
Membro do Conselho Deliberativo do SEBRAE Nacional,
da ABDI e da APEX-Brasil
Assumiu-se a condição de lugar comum atribuir à indústria de calçados o estado de crise. Para não ser injusto com a língua portuguesa e nem com a indústria de calçados, resolvi consultar o Houaiss. Meu interesse era o conceito econômico: “grave desequilíbrio conjuntural entre a produção e o consumo, acarretando o aviltamento dos preços e/ ou da moeda, onda de falências e desemprego, desorganização dos compromissos comerciais”. Crise segundo Hoauiss também poderia ser a palavra utilizada para marcar uma fase de transição entre um surto de prosperidade e outro de depressão ou vice-versa. Houaiss tem vários outros conceitos de crise segundo a medicina, a sociologia e a psicanálise, onde talvez fique mais bem classificada a tal crise da indústria calçadista, porque do ponto de vista econômico não dá para generalizar.
A propósito, um artigo do Diário de Franca de 11 de dezembro de 2006 contesta a tal crise, assegurando que ela não é consenso em Franca. Empresários , sindicalistas e analistas descomprometidos em relação a seus empregos, ou seja, absolutamente independentes, certamente avaliam diferentemente, mas não há caminho que aponte para uma crise conjuntural incontornável. Há problemas estruturais sérios, alguns já com certa idade, os quais foram mascarados pelo câmbio favorecido e pelo avassalador comportamento comercial da China.
Alguns elementos pontuais deveriam preceder aos lamuriantes profissionais:
1. Não há registro, na história da indústria brasileira de calçados, de derrocada industrial em escala significativa decorrente de problemas internos ou externos. Ao contrário, a história registra superação e adequação às novas realidades.
2. Não há espaço para pessimismo, derrotismo ou qualquer adjetivo nessa linha, para um segmento que ostenta números extraordinariamente surpreendentes numa visão histórica de três décadas:
1970 – Exportação de US$ 8 milhões; 4 milhões de pares, a preço médio de US$ 2,19.
1980 – Exportação de US$ 387 milhões; 49 milhões de pares, a preço médio de US$ 7,89.
1990 – Exportação de US$ 1,107 (Hum bilhão, cento e sete milhões de dólares); 143 milhões de pares, a preço médio de US$ 7,74.
2000 – Exportação de US$ 1,547 (Hum bilhão, quinhentos e quarenta e sete milhões de dólares); 163 milhões de pares, a preço médio de US$ 9,52.
2005 – Exportação de US$ 1,887 (Hum bilhão, oitocentos e oitenta e sete milhões de dólares); 189 milhões de pares, a preço médio de 9,98.
4. O mercado mundial confirma a China com player de primeira grandeza no mercado de calçados de baixo valor. Sua produção avança internacionalmente e a concorrência pelo mercado americano se acirra. Questão cambial? Não somente. A formação de preços na China desconhece a economia de mercado no conceito capitalista. Tudo favorece ao produtor chinês, tornando-o, numa determinada faixa de mercado, concorrente temido. Em parte isso explicaria a presença de “indústrias brasileiras” em território chinês. Perde o Brasil ao transferir empregos para lá. Explicaria, também, a migração de empresas da região sul para o nordeste, atrás de uma “China nordestina”.
5. Numa análise mais ampla, crises geralmente resultam em ganhos de produtividade e a indústria calçadista historicamente é prova disso. Apesar de todas as considerações em relação à questão cambial, a exportação de 2006 mostrará, ao final, resultados aos níveis de 2004 e 2005, ou seja: exportação da ordem de US$ 1,8 (Hum bilhão, oitocentos); 180 milhões de pares exportados, preço médio em torno de US$ 10/par.
6. Há um ligeiro esforço pela qualificação da exportação de calçados (busca de mercados de valor médio mais alto), pois a tal “crise” estaria localizada num nicho de mercado de preço médio baixo, especialmente o dos EUA. Já os programas de exportação continuam concentrados em poucas empresas. Melhor seria se os benefícios fossem socializados, pois são financiados com recursos de todos.
7. A exportação de calçado brasileiro para os EUA foi, durante anos, a grande força da exportação brasileira, atingindo níveis superiores a 80% do total. Em 2003, caiu para 64,2%; em 2004 para 56,6%; em 2005, 50,2%. Em 2006, deverá ficar abaixo de 50%. A crise faz o produtor-exportador procurar novos mercados e de preço médio mais elevado. São ganhos decorrentes das crises.
8. A importação brasileira de calçados ainda não seria componente importante, visto em seu conjunto e sob a ótica de que o mercado externo é uma via de duas mãos. O Brasil exportou cerca US$ 1,8 bilhão em 2004, 2005 e 2006. Importou US$ 65,2 milhões em 2004 e US$ 115,4 milhões em 2005. Comparativamente não é de assustar, mas em 2003 importamos US$ 30,6 milhões da China; em 2005, US$ 78 milhões. É uma importação acelerada que subiu de 5 milhões de pares em 2003, para 9 milhões em 2004 e 14 milhões de pares em 2005.
9. Para um país que produziu 755 milhões de pares em 2004 e 725 milhões em 2005, a importação chinesa comparativamente parece não relevante. Mas não se deve descuidar. Há que se analisar o que se está importando, quem está importando, se é produção brasileira lá localizada ou não. Reivindicar taxação da importação chinesa é uma simplificação inconcebível, pois esse não é o real problema.
10. Outro dado comparativo importante - e que revela a força da indústria calçadista e do mercado interno - é o consumo aparente, que subiu de 484 milhões de pares em 2002, para 552 milhões em 2005. O consumo per capita continua baixo, mantendo-se na casa de 3 pares.
11. A indústria de calçados vive o desafio China – assim como todos os demais players mundiais – e uma realidade cambial que incita nova logística de produção e comercialização. A indústria superará este momento como superou todos os demais em que dificuldades conjunturais e estruturais atravessaram seu caminho. Há problemas econômicos, com efeitos sociais graves, embora localizados. Muitos deles nada têm a ver com a questão cambial e estariam sendo inflados, mais uma vez, por uma guerra fiscal que retira de uns para dar a outros, dentro do mesmo território.
12. À abertura comercial dos anos 90, a indústria de calçados respondeu com mais exportação e atenção especial ao mercado interno, inibindo a presença de produtos importados de consumo de massa. À entrada da China, a indústria responde com a busca de novos mercados, o estímulo à participação de um maior número de exportadores e a promoção comercial preferencial em mercados de maior valor agregado.
13. A China vem abocanhando a maior parte do crescimento mundial da exportação de calçados. Segundo o SEBRAE-RS, no decorrer desta década elas teriam crescido em US$ 48 bilhões, dos quais 52% foram para a China e 17,5% para o Brasil. Há muito a fazer nesse campo. A COUROMODA aponta a França como um mercado ainda aberto para conquista, com preço alto e qualidade.
14. Não daria para se falar em crise em um segmento que tem um mercado interno extraordinário, uma presença constante e crescente no mercado externo, uma indústria tecnologicamente preparada. Pouco se investiu em marcas e talvez seja essa a principal missão de programas governamentais e não governamentais, os quais, às vezes se perdem em burocracias e interesses corporativos específicos sem maiores compromissos com o país, e se tornam mais importantes que as empresas e o setor.
roberto@rnconsultores.com.br
Revista Courobusiness Ed. Nº 49 – Novembro/dezembro 2006.
