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Conheça as idéias básicas de Milton Cardoso: O novo presidente da ABICALÇADOS

Milton Cardoso, o novo presidente da ABICALÇADOS – Associação Brasileira da Indústria do Calçado é paulista e tem 51 anos. Formado em Economia, já foi professor universitário e atua no setor de calçados há mais de 20 anos e, por isso, se diz sapateiro. É diretor superintendente do Grupo Vulcabrás há dez anos, onde também foi diretor financeiro. Em agosto de 2007, também assumiu a superintendência da Azaléia, uma das maiores indústrias de calçados do país.

 

Nessa curta entrevista, Milton Cardoso apresenta, de forma concisa e objetiva, o que poderia ser chamado de moldura de sua linha de atuação à frente dos destinos da entidade nacional que congrega as indústrias de calçados do país. Uma tarefa difícil, sem dúvida, mas Milton Cardoso, em poucas palavras, permite inferir que ele sabe o caminho a ser trilhado, fruto, certamente, de sua experiência no setor.

 

COUROBUSINESS: Qual o foco (ou quais os focos) que pretende dar à sua gestão à frente da Abicalçados?

MILTON CARDOSO: Como estou no cargo há pouco tempo, pois assumi em julho passado, estou em processo de conhecimento do funcionamento da entidade. Mas é certo que daremos continuidade ao trabalho de convencimento das autoridades brasileiras quanto aos efeitos nocivos da desvalorização cambial para um setor que é tão fundamental para a economia do País.



COUROBUSINESS: A exportação de calçados tem crescido menos do que se projetava há alguns anos. Além da questão cambial, que outros fatores estariam retardando um crescimento maior?

MILTON CARDOSO: A desvalorização cambial foi o motivo da queda nas exportações de calçados. Caso tivéssemos mantido a trajetória de 2004, quando estávamos retomando o ritmo de exportação, hoje estaríamos exportando muito além dos dois bilhões de dólares. A desvalorização cambial fez aparecer ainda mais os descaminhos da política industrial, que é a manutenção destes juros exorbitantes e a pesada estrutura de custos das empresas, onde os encargos trabalhistas e o sistema tributário são os mais preocupantes. Para as empresas, se torna muito dispendioso produzir para exportar. E o mercado interno não tem como absorver o excedente desta produção que hoje não é mais exportada, pois o consumo per capta não tem aumentado.



COUROBUSINESS: A importação de calçados chineses tem crescido significativamente em termos relativos, embora a quantidade importada, quando comparada com a quantidade exportadora, ainda revele a vocação exportadora da indústria de calçados brasileira. Para a ABICALÇADOS a China assusta mais pelo que dela importamos, ou pelo que ela nos toma de mercado especialmente nos EUA?

MILTON CARDOSO: Nos assusta pelos dois motivos. As importações de calçados somaram 15 milhões de pares de janeiro a julho deste ano. Foi um crescimento de 46% comparando com o mesmo período do ano passado, sendo que 68% deste volume têm como procedência a China. E estes números são os oficiais, não estão contabilizados os sapatos que entram de modo ilícito, que não temos como contabilizar. E no mercado externo o problema é ainda maior. A China produz hoje cerca de nove bilhões de pares de calçados, tomando nossos compradores de assalto, com um preço abusivo devido aos subsídios do governo e qualidade duvidosa. Nossas exportações para os Estados Unidos caíram 13% em 2006 e 23% de janeiro até julho deste ano. Estaríamos numa posição diferente se estivéssemos com os preços adequados, porque nenhum comprador gosta de se abastecer em apenas um mercado e o Brasil é um excelente parceiro comercial.



COUROBUSINESS: O perfil da exportação de calçados tem mudado significativamente, com queda da exportação de calçados de cabedal de couro. A tendência é queda ainda maior nesse tipo de calçado, com crescimento dos demais materiais?

MILTON CARDOSO: Os calçados em materiais alternativos vêm tomando lugar do couro, cujo produto é cada vez mais nobre. Como a população mundial cresce mais do que a oferta desta matéria-prima, é bom que os calçadistas tenham alternativas de produção. Mas quem define o crescimento deste consumo realmente é o mercado e o couro continuará a ter seu espaço como material de alto nível.


COUROBUSINESS: Empresários brasileiros estão se instalando na China - isoladamente ou em parcerias estratégicas - para produzir calçados. Muito desses calçados certamente serão enviados para o Brasil. Como a Abicalçados vê essa situação de brasileiros produzindo na China e exportando para o Brasil?

MILTON CARDOSO: Quando se disputa preços, é natural que isto aconteça numa economia aberta e capitalista. O empresário fará escolhas que lhe revertam em lucros. Porém, é ruim para o setor como um todo, pois acaba desempregando e reduzindo divisas para o País, deixando de investir internamente. Esta é uma situação causada pela ausência de uma política industrial que favoreça os fabricantes de produtos de maior valor agregado e que gera milhares de empregos. Se tivermos condições competitivas, ninguém precisaria ir produzir em outro local.



COUROBUSINESS: A valorização do Real tem sido o principal argumento de alguns segmentos exportadores para justificar perda de mercados. Qual seria, na opinião da Abicalçados, o câmbio que daria condições de competitividade ao calçadista brasileiro?

MILTON CARDOSO: A Abicalçados pede um câmbio realista, acompanhado de redução dos custos. Destaquei no meu discurso de posse que se o governo nos desse um câmbio realista, o setor se comprometeria a gerar 14 empregos por hora, ou seja, 120 mil empregos por ano. Qual seria este câmbio realista? Com o custo muito elevado que as empresas têm hoje, teria que ser acima dos R$ 2,50, mas poderia ser menos se não tivéssemos uma carga tributária tão elevada, um sistema trabalhista que só onera o trabalhador e o empregador e juros altíssimos.



COUROBUSINESS: Em sua gestão há expectativa de implementação de novos projetos, como por exemplo, incentivo à criação de Marcas, busca de novos mercados onde a concorrência asiática seria menos sentida, etc?

MILTON CARDOSO: Estes projetos já vêm acontecendo há mais de seis anos. A Abicalçados vem promovendo insistentemente a presença de marcas brasileiras nos mais diversos mercados, basta ver o relatórios do Brazilian Footwear, o programa que a entidade desenvolve com a Apex-Brasil. Os resultados hoje seriam muito maiores se pudéssemos ter preços mais realistas. Mas a busca de novos mercados e a agregação de marcas nacionais têm sido uma constante e vão continuar.



COUROBUSINESS: O governo federal, com recursos do FAT, criou recentemente mais uma linha de crédito em favor dos calçadistas, com juros subsidiados, baixos, a exemplo do que fizera há menos de dois anos. A Abicalçados tem alguma análise dos resultados efetivos do uso desses recursos e se de fato eles contribuiram para ajudar a indústria calçadista?

MILTON CARDOSO: Nós ainda não temos estes dados. Mas como as exigências para a tomada destes recursos são muito altas, posso afirmar que muitas empresas acabam não utilizando os recursos, porque não atendem às especificações dos empréstimos.

 

Revista Courobusiness – Ed. Nº 53 – julho/agosto de 2007

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