Francisco Santos: um idealizador que deu certo
Ele apostou na promoção comercial do setor calçadista, alcançou sucesso e expandiu suas idéias a outros setores.
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Em 1973, o Brasil vivia uma ditadura militar. Tempos politicamente difíceis. A economia brasileira era predominante primária e a população se concentrava na área rural. A indústria brasileira vivia um perídio de letargia, embora próxima de experimentar um desenvolvimento que marcou aquela época. A década de 70, do ponto de vista econômico, acabou por ser a década não perdida dos últimos trinta anos. De lá, aos dias atuais, em que se comemoram cinco anos de crescimento consecutivos, muita coisa aconteceu na indústria nacional em geral e na indústria de calçados, em particular.
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Foi nesse ambiente de incertezas que Francisco Santos, um visionário apaixonado pelo que faz, criou a COUROMODA. Em 1973, o Brasil não exportava calçado e tinha um mercado interno modesto. Mas alguma coisa fez Francisco Santos criar a COUROMODA e transformá-la, 35 anos depois, numa das maiores feiras mundiais do setor e fora dele.
Milhares de pessoas a visitam anualmente, mais de 2.000 compradores externos chegam espontaneamente até ela, milhões de pares de calçados são negociados nos quatro dias da feira.
De lá para cá, as feiras comerciais adquiriram novo status, cumprem um papel importante não só na promoção comercial, pois geram demanda, pressionam a oferta, estimulam a moda. Elas são um elo importante de qualquer cadeia produtiva e assim devem ser vistas.
A cadeia couro e calçados brasileira talvez seja a única do mundo a dispor de dois eventos extraordinários que marcam as estações da moda: Francal e Couromoda. Uma nasceu num dos mais importantes berços da indústria calçadistas; outra, nasceu da cabeça sonhadora, iluminada e empreendedora de Francisco Santos.
Nos aniversário de 35 anos de COUROMODA, a Revista Courobusiness, modestamente, oferece aos seus leitores uma síntese do pensamento de Francisco Santos: a cara da promoção comercial brasileira do século 21.
COUROBUSINESS: O que o motivou, há 35 anos, quando a indústria ainda era incipiente e a promoção comercial um conceito pouco difundido, a criar a COUROMODA? Por que escolheu focar o setor de calçados?
FRANCISCO SANTOS: Essa idéia não surgiu do nada. Desde 1968 eu já trabalhava no setor. Até que, em 1973, fui à Europa visitar um evento em Bruxelas e voltei com a idéia de mudar o marketing na indústria de calçados do Brasil. Isso porque, até então, não havia promoção comercial no país. Ficávamos aguardando o comprador, no interior dos estados, vir até nós. Era preciso criar novos conceitos de marketing. Inverter a ordem: Vamos ao comprador!
A Couromoda foi criada e realizada, inicialmente no Rio de Janeiro, porque em 1973 a cidade era referência nacional. Depois, nos anos 1980, esta influência mudou para São Paulo, para onde levamos a feira.
COUROBUSINESS: Fazendo uma retrospectiva, da primeira edição da COUROMODA para cá, que tipo de mudança o setor calçadista sofreu? Destaque pontos positivos e negativos.
FRANCISCO SANTOS: O setor calçadista se profissionalizou. Mudou para melhor. Somos o único país, no mundo, que tem condições de competir com o Sudeste Asiático. E isso pode melhorar se mantivermos o mercado interno, que hoje já é muito bom, e melhorarmos o externo. Tenho visto, ao longo de todos esses anos em contato direto com o setor, a troca de comando nas indústrias. Muitos jovens estão tomando a frente das empresas, implantando idéias novas, novos conceitos de marketing. Empresários que viajam muito e se esforçam para progredir profissionalmente e dar continuidade ao avanço de suas empresas.
COUROBUSINESS: Como empresário e presidente de uma das maiores feiras do setor de calçados do mundo, qual e a sua opinião sobre a Promoção Comercial no setor? Que influências têm as feiras na produção e na venda (interna e externa), e, conseqüentemente, no crescimento do setor?
FRANCISCO SANTOS: As feiras são as ferramentas mais importantes do setor. O conceito de promoção comercial avançou muito, nos últimos anos. Nos setores onde atuamos (de calçados/ moda, beleza e saúde) somos líderes.
A promoção comercial tem uma influência muito grande não só na venda, como também na produção. E ajuda a manter o crescimento das empresas e do setor, como um todo, tanto interna como externamente.
COUROBUSINESS: Apesar da ultrapassagem, pela primeira vez, da barreira dos US$ 2 bilhões, os produtores de calçados lamentam a não obtenção de um resultado melhor em 2007. O senhor acredita que o ano de 2008 será melhor?
FRANCISCO SANTOS: O setor de calçados sofreu muito com o problema cambial, mas tem conseguido mudar e continuar agressivo. Hoje exporta para mais de 120 países. Somos independentes dos Estados Unidos. Somos bem estruturados e consolidados. E o crescimento do setor só tende a melhorar.
COUROBUSINESS: Nos últimos 13 anos, só em quatro a importação superou a casa de US$ 200 milhões (1955, 1996, 1997, 2007). Em 2007, representou 10,9% do total exportado. A importação preocupa? Qual seria um limite capaz de acender o sinal amarelo?
FRANCISCO SANTOS: No Brasil, 80% da produção é destinado ao consumo interno. O que atrapalha está muito além do problema tarifário.
Já o que protege a indústria nacional é a grande estrutura que o setor tem.
Temos milhares de lojas. O serviço e a logística, por exemplo, são tão importantes quanto a produção. E tudo isso o Brasil tem bem consolidado, o que permite um ótimo desempenho do setor.
Os asiáticos, em contrapartida, ainda têm problema quanto a isso.
Se não fosse essa estrutura, estaríamos importando o dobro, mais de US$ 400 milhões.
COUROBUSINESS: A COUROMODA, apesar dos milhares de compradores externos que a visitam, tem um foco especial para o mercado interno. Na sua avaliação como o mercado interno tem se comportado nos anos recentes? Seria ele capaz de compensar eventual redução no mercado externo?
FRANCISCO SANTOS: A capacidade de produção, no Brasil, é maior do que a de consumo. Aquelas empresas que fecharam, são justamente as que eram somente voltadas à exportação.
As que estão firmes até agora, mesmo após um momento de turbulência no mercado externo, não são dependentes da exportação.
Elas têm uma produção voltada para o mercado interno e apenas parte dela, ou seja, o restante, é destinado ao externo.
COUROBUSINESS: Ainda não se tem uma real avaliação da crise da economia americana. O senhor crê na possibilidade dela afetar as exportações de calçados em 2008?
FRANCISCO SANTOS: Não. Já temos 60% da nossa exportação em outros países. Está havendo um decréscimo da dependência dos Estados Unidos. Já estamos bastante independentes com relação ao mercado norte-americano.
COUROBUSINESS: O senhor tem algo a adicionar, sobre a relação Couromoda X Setor Calçadista? E sua opinião sobre o futuro do setor?
FRANCISCO SANTOS: Ao longo dos nossos 35 anos, creio que fomos importantes para o setor. Crescemos juntos. Foi ao longo desse tempo que vieram surgindo todas as associações de classe. Nosso setor é único: sólido e organizado – são nove associações nacionais. E por ter um grande estoque de matéria-prima – temos o maior rebanho do planeta – vai nos fazer competitivos por muitos anos.
Revista Courobusiness – Ed. 56 – Jan/Fev 2008.
