{ REVISTA COUROBUSINESS }
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Ceará embarca na produção calçadista.
Rumo ao desenvolvimento o estado visa o aprimoramento de suas indústrias a fim de inserir-se, cada vez mais, no setor e firmar-se como competitivo pólo produtor.

Apesar de uma tradição já consolidada no setor, o Ceará tem se firmado cada vez mais como foco de atenções da indústria calçadista. Não é a toa que o estado foi escolhido como sede do 12º Seminário Nacional da Indústria de Calçados, cujo tema central foi “Alternativas para o Calçado Brasileiro”, realizado nos dias 8 e 9 de maio, em Fortaleza.
            Pode-se dizer que um dos pontos que marcaram uma nova fase para o estado foi a conquista da liderança, no início do ano, do ranking de maiores exportadores de calçados do país, ultrapassando o Rio Grande do Sul em número de pares enviados ao exterior. Entretanto, o valor médio por par exportado ainda está bem abaixo do estado sulista, o que pode ser explicado pela enorme quantidade de calçados sintéticos produzidos no Ceará.
            Os números seriam alarmantes e alvo de críticas vindas do setor coureiro, não fosse o fato de que a indústria coureira cearense também vai bem. No primeiro bimestre de 2008, foi registrado um aumento de produção de 78,3% em relação ao mesmo período no ano passado.
            Com o intuito de debater e esclarecer essas e outras informações relativas ao setor coureiro-calçadista cearense, a revista Courobusiness entrevistou o presidente da Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece), Antônio Balhman.              Balhmann é funcionário de carreira do Serviço Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas Empresas (Sebrae), onde trabalhou por mais de 30 anos, chegando a ocupar a Presidência do Conselho Deliberativo do órgão no Ceará. Entre 1989 e 1994, participou do Governo do Ceará, primeiro como secretário de Indústria e Comércio e depois como secretário de Indústria, Comércio e Turismo. Balhmann exerceu o mandado de deputado federal entre 1995 e 1999.   

COUROBUSINESS: Atualmente, o Ceará ocupa o topo do ranking nacional de exportação de calçados. Somente em fevereiro, registrou-se o embarque de 7,4 milhões de pares, contra 6,5 milhões do Rio Grande do Sul, segundo colocado. Como foi a trajetória e quais os elementos que contribuíram para esse resultado?

Antônio Balhmann: O Estado iniciou há mais de 10 anos, um longo processo de atração de novos investimentos, privilegiando a captação de empresas que tivessem interesse estratégico de implantarem-se no Ceará e aqui permanecerem, gerando emprego e renda para os cearenses. Indiscutivelmente, um dos setores que mais se sensibilizaram com o desafio de desconcentrar a produção do eixo-Sul/ Sudeste foi o setor calçadista. A partir do início da década de 1990 vieram para o Ceará as primeiras grandes fábricas de calçados, atraídas pelos incentivos e, sobretudo, pela vocação natural da mão-de-obra cearense para a atividade. Além disso, é importante lembrar que o Ceará desenvolveu uma avançada logística para a exportação calçadista, através do Complexo Portuário do Pecém, tendo em vista o Ceará ter sua localização geográfica mais próxima do mercado europeu, para onde grande parte da produção calçadista cearense é exportada.

COUROBUSINESS:O Ceará é visto como um Estado cujos principais itens da produção calçadista são chinelos, sandálias e sapatos de plástico ou borracha, o que pode ser sentido na diferença entre os valores médios por par exportado (US$ 4,47 contra US$ 18,73 do Rio Grande do Sul, primeiro colocado em valor). Há espaço, e principalmente interesse, no crescimento da produção de calçados de couro nesse contexto?

Antônio Balhmann: Sem dúvida, o Ceará tem interesse em ampliar o perfil da sua produção calçadista. Até porque, aqui no estado, dispomos de mão-de-obra capacitada para trabalhar com esse tipo de produto, além de matérias primas de boa qualidade, a exemplo das peles bovinas e caprinas, processadas pelos curtumes instalados aqui. Entretanto, é preciso lembrar que já existem algumas empresas calçadistas instaladas no Ceará, que trabalham com produtos exclusivamente de couro, o que só reafirma o interesse do governo de continuar apoiando o crescimento desse segmento calçadista.

COUROBUSINESS: É interessante notar que, entre janeiro e fevereiro, houve um incremento de 20,48% no valor do calçado exportado, embora se tenha registrado uma queda de 19,73% em quantidade. Como o senhor analisa essas estatísticas? Além disso, como está a absorção do mercado interno?

Antônio Balhmann: A produção para exportação do calçado cearense está focada em demandas localizadas, sobretudo para a Europa, Ásia e Estados Unidos, onde os produtos devem possuir maior valor agregado, o que acaba refletindo no preço médio do sapato exportado. Quanto ao mercado interno, a produção está voltada para atender os as demandas do Nordeste e Sudeste.           

COUROBUSINESS: O Nordeste está sendo apontado como o novo alvo de migração de indústrias, que buscam mão-de-obra barata e menores impostos. Quais os principais resultados desses incentivos quanto à instalação de indústrias do setor coureiro-calçadista?

Antônio Balhmann: Especificamente, no caso cearense, a nossa política de atração de investimentos é muito mais ampla e exigente com as empresas que se instalam aqui. Nossa principal preocupação não é apenas com a quantidade de indústrias que aqui se instalam, mas sim com a capacidade de geração de emprego e renda que esses investidores podem trazer para a economia cearense, além do nível de comprometimento que terão com o governo e com a sociedade cearense. Desejamos parceiros perenes, que nos ajudem a fortalecer o estado a médio e longo prazos, que contribuam para a consolidação da nossa economia de forma duradoura. O setor calçadista é um exemplo prático de uma parceria que deu certo, cujos frutos são a concretização de um pólo do segmento fora do eixo Sul/ Sudeste e a criação de raízes do setor no Ceará.

COUROBUSINESS: A exportação de couro deu um salto de 78,3% no primeiro bimestre de 2008 em relação ao mesmo período do ano passado. Em 2005, o diretor do Sindcouros/CE, Cândido Couto Filho, afirmou que o crescimento, na época, se devia à instalação de uma grande empresa do setor, e que esses números não indicavam a retomada da indústria de beneficiamento local. Esse quadro persiste? O que está sendo feito para apoiar exportações de indústrias locais?

Antônio Balhmann: O Ceará tem buscado criar todas as condições necessárias para o desenvolvimento do setor produtivo, principalmente no que se refere a ampliação da sua infra-estrutura, como a consolidação do Complexo Portuário do Pecém, a construção e manutenção das rodovias estaduais, a ampliação da oferta e água e energia elétrica, além da capacitação da mão-de-obra local. O setor coureiro-calçadista também está sendo beneficiado com a melhora da oferta de infra-estrutura, o resultado pode ser aferido pela elevação das exportações do setor. Por outro lado, a captação de grandes indústrias do segmento nos últimos anos representa o acerto da política de atração de investimentos do Estado do Ceará.

COUROBUSINESS: Quais desafios ainda precisam ser superados para que a indústria coureiro-calçadista continue crescendo no Ceará?

Antônio Balhmann: O governo tem mantido um importante diálogo com os setores produtivos, sempre buscando identificar as deficiências e reivindicações de cada setor da economia cearense. Para tanto, o governo do Ceará está criando as chamadas Câmaras Setoriais, para os segmentos mais representativos da produção cearense. Os integrantes das cadeias produtivas de cada setor terão um espaço institucional de diálogo com a participação do governo, o que possibilitará uma significativa melhora nas suas relações. Quanto ao setor coureiro-calçadista, é preciso que os empresários continuem aperfeiçoando a profissionalização e a qualificação do setor, enquanto o governo fará a parte dele, apoiando os bons projetos, além de oferecer orientação e apoio técnico.   

                

Revista Courobusiness, Ed. 57 – mar/abr 2008.

 

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