{ REVISTA COUROBUSINESS }
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O “Encontro Marcado”, no décimo aniversário de COUROBUSINESS, é um presente aos leitores.  Traz uma consistente análise de mercado elaborada por um dos maiores especialistas em couro no Brasil. Estamos falando de Wolfgang Goerlich, atual Vice-presidente de Marketing e Promoção Comercial do CICB – Centro das Indústrias de Curtumes. Durante 20 anos ele foi diretor do Curtume Carioca. Foi também presidente do CICB, quando organizou o primeiro, e até hoje único, Congresso do Conselho Internacional dos Curtidores (ITC) na América do Sul. Fundou no Brasil a firma Kaufmann Goerlich & Cia Ltda que se tornou uma das maiores agentes de exportação e importação de couros e deu continuidade a esse trabalho com a W. Goerlich & Cia. Ltda.

Goerlich fala como um profundo conhecer do mercado do couro. Submetemos a ele um conjunto de questões de interesse geral. A resposta, para melhor aproveitamento do seu conteúdo, por se tratar de uma edição histórica, é apresentada de forma encadeada, partindo de um curto retrospecto até se chegar à informação central que todos querem saber, isto é, o que se pode esperar das exportações de couro ao final de 2008. 

 

A COMPETITIVIDADE DA INDÚSTRIA CURTIDORA BRASILEIRA
PREVISÃO PARA AS EXPORTAÇÕES EM 2008
Wolfgang Goerlich

Um breve retrospecto da evolução da indústria curtidora no Brasil

Nos anos 60 o abate de bovinos oscilava ao redor de 10 milhões por ano e o país contava com aproximadamente 600 curtumes distribuídos de Norte a Sul. Apenas cerca de 60 curtumes eram considerados empresas industriais e os demais eram estabelecimentos menores com, na sua maioria, instalações bastante precárias.

O Estado do Rio Grande do Sul, com seu rebanho de gado europeu, era o pólo curtidor mais tradicional e importante, mas também em São Paulo, na região de Campinas, em Minas Gerais, no Nordeste - particularmente em Pernambuco, Bahia, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará - e na região Norte, em Belém e Manaus, existiam curtumes importantes. No Rio de Janeiro havia o Curtume Carioca, o maior e mais diversificado de todos, com uma participação em couros bovinos de aproximadamente 10% da produção nacional.

Fora os curtumes que usavam exclusivamente taninos vegetais produzindo solas, correias e artigos de selaria, os demais, curtindo na base de cromo, eram pouco especializados e produziam basicamente para a indústria de calçados.

Nos anos 70 e 80 houve uma evolução considerável na pecuária, os rebanhos e abates cresceram extraordinariamente, os frigoríficos se mudaram para perto dos rebanhos e muitos curtumes acompanharam esta tendência. Com maior disponibilidade de couros, permitindo exportações em escala maior, parte da indústria curtidora se modernizou, novas empresas surgiram e muitos dos estabelecimentos antigos que não souberam acompanhar o progresso fecharam as suas portas.

Na mesma época começou a exportação de calçados, a qual, no entanto, pouco beneficiou os curtumes brasileiros, uma vez que a grande maioria dos calçadistas dava total preferência ao couro argentino que era importado em Crust (Semi-acabado). Nos pólos de exportação de calçados - Novo Hamburgo e Franca - surgiram grandes empresas de acabamento, em parte ligadas diretamente aos calçadistas. Os curtumes que não conseguiram se modernizar e se adaptar à nova realidade fecharam as portas. No início dos anos 90 muitos dos nomes tradicionais tinham sumido do mapa. Não que a capacidade de produção tivesse diminuído. Pelo contrário, novas empresas surgiram e os curtumes tinham capacidade de absorver e beneficiar toda a matéria-prima disponibilizada pelos abates que desde os anos 60 tinham triplicado para 30 milhões, embora parte apenas em Wet Blue,

Até então o couro cru brasileiro proveniente de animais de criação extensiva, com muitos defeitos da flor e na sua condição de ser 80% zebu, portanto com cupim, era considerado inadequado para a produção de couros para móveis. Na década de 90 veio a grande revolução com os avanços tecnológicos: foram desenvolvidos na Itália processos para usar, até com vantagem, o couro brasileiro para a indústria de estofados. Como o couro brasileiro naquela época era bem mais barato que as procedências tradicionalmente usadas para esses fins, a Itália, maior produtor de couro para móveis, começou a importar maciçamente couro Wet Blue do Brasil. Entre os anos 1988 e 2006, os abates cresceram de 35 para 47 milhões favorecendo essa evolução.

A indústria curtidora brasileira do presente

Iniciou-se uma nova era na indústria curtidora brasileira. Novas fábricas, em parte com capital estrangeiro, foram construídas para produzir em grande escala com as tecnologias mais avançadas, principalmente couros para estofados e couros automotivos, sendo que atualmente calcula-se que entre Wet Blue, Crust e Acabados, dois terços dos couros exportados do Brasil se destinam para esses fins.

Paralelamente ocorreu uma enorme concentração da produção e hoje se estima que 80% da capacidade produtiva do país se concentrem em mãos de apenas 10 empresas, sendo que a maior empresa, sozinha, é responsável por mais que 20%.

Uma concentração ainda maior aconteceu na indústria frigorífica onde atualmente apenas três grupos dominam o mercado de carne e também do couro cru, expandindo suas atividades cada vez mais para o campo dos curtumes, além de investirem maciçamente no exterior, sendo que um grupo especialmente já se tornou líder mundial no mercado de carne bovina.

Uma capacidade elevada de produção é considerada uma das prerrogativas do mercado globalizado, portanto, devemos considerar a concentração ocorrida no setor curtidor brasileiro, durante os últimos anos, como um fator positivo.

Os negócios de volume se processam cada vez mais entre empresas com alto potencial. Os principais artigos, tanto para móveis, automóveis, calçados ou vestuário tornaram-se commodities a preços altamente competitivos e viáveis somente com uma produção em grande escala. Também no lado dos consumidores houve uma concentração observada em todos os países e em relação a todos os tipos de material. De fato hoje dois terços dos couros exportados se destinam aos setores de móveis e automóveis. Cerca de 80% das exportações são efetuadas por apenas 15 empresas e 73% das exportações se destinam a apenas quatro países, China com Hong Kong, Itália, Estados Unidos e Vietnã.

Para os curtumes médios e pequenos, hoje, a alternativa para sobreviver tanto no mercado doméstico como na exportação, é a produção de artigos especiais e produtos de moda divididos em lotes menores, mas geralmente melhor remunerados.
 
Em relação aos curtumes pequenos, não há dados confiáveis sobre a quantidade ainda existente e as suas respectivas capacidades de produção. Em todo o caso, o número deve diminuir cada vez mais e hoje já deve ser bem inferior aos 800 mencionados eventualmente na mídia.

Resumindo, podemos afirmar que a indústria brasileira de curtimento está bem preparada para enfrentar os desafios dos mercados globalizados; dispõe de matéria prima, tem plantas modernas com tecnologia avançada, capacidade de produzir em volume, técnica e mão de obra capacitada e, last but not least, management bastante moderno. A indústria está preparada, mas o Real supervalorizado é o principal fator da atual falta de competitividade dos curtumes brasileiros. A razão principal da crise atual, sem dúvida alguma, é o alto custo de produção calculado em US$ em conseqüência da exagerada valorização do Real.

As demais razões como juros altos, impostos exagerados, demora ou falta na devolução de créditos fiscais e todo o resto chamado “custo Brasil”, sem dúvida também são itens importantes a serem corrigidos, mas não podem ser considerados diretamente responsáveis pela crise atual, uma vez que os mesmos já existiam anteriormente. Também os tão reclamados aumentos dos produtos químicos e demais insumos ligados à explosão do preço do petróleo no mercado mundial não são responsáveis pela atual falta de competitividade da nossa indústria, pois estes fatores atingem igualmente os nossos competidores no exterior.

As razões da redução expressiva nas exportações no primeiro semestre de 2008

Antes de analisar as razões específicas da redução das exportações no primeiro semestre de 2008 contra igual período de 2007, devemos destacar que o número de couros exportados no primeiro semestre de 2007 com 17.781.677 couros foi recorde absoluto, pois tinha superado em 758.084 couros o recorde anterior estabelecido nos primeiros seis meses de 2006.

Segundo, a redução se refere basicamente aos couros em estado Wet Blue que caíram de 8.929.952 em 2007 para apenas 4.742.422 em 2008. Portanto, temos para os couros em Wet Blue uma redução de 46,9% contra 2007. Esta redução expressiva nos couros Wet Blue baixou o volume total incluindo todos os tipos de couro bovino em 23,4%, uma vez que os couros em Crust aumentaram apenas 8,3% o os Acabados até diminuíram 2,8%.

Em US$ a queda nas exportações foi de apenas 4,1%. Como os custos dos curtumes estão em R$, convém converter a receita da exportação em R$. Baseado numa taxa cambial de R$ 2,10 para o primeiro semestre de 2007 e de R$ 1,67 para o primeiro semestre de 2008 verificamos que a queda no valor das exportações na realidade foi bem maior: 23,8% pois a receita caiu de R$ 2.327.749.435 para R$ 1.774.600.758, ou seja, 23,8 %! Praticamente proporcional à queda do volume.

Quando pesquisamos as razões da queda dramática nas exportações de Wet Blue, chegamos à seguinte conclusão: em conseqüência da falta de rentabilidade na pecuária, houve um abate maior de matrizes e a partir de 2007 o rebanho brasileiro encolheu, os abates caíram, como também a oferta de matéria-prima. Puxado pela demanda, o preço do couro cru no Brasil não acompanhou a baixa no mercado norte-americano no final de 2007 e início de 2008 e durante um longo período se sustentou num nível incompatível com o mercado mundial. O couro brasileiro, particularmente o Wet Blue, ficou caro demais e os acabadores de couros para móveis, atingidos em cheio pela crise imobiliária nos Estados Unidos, reduziram drasticamente as suas compras no Brasil.

A quantidade de couros Acabados exportados desde 2006 tem se estabilizado ao redor de um milhão de couros por mês e o valor em US$ em 2008 já corresponde a 60% da receita da exportação dos couros bovinos. Junto com o “Crust” (semi-acabado) a participação na receita da exportação sobe para 80%.

 A tendência é exportar cada vez mais couros Acabados e Crust, portanto, os artigos com maior valor agregado, devem continuar a médio e longo prazo.

Como nos contratos em Crust e Acabados a interdependência entre o produtor e o cliente é maior, os negócios com estes tipos sofreram em escala menor. Também os programas para estes dois tipos de couro geralmente são mais alongados e na fase mais difícil, muitos exportadores procurando manter os clientes e segurar os mercados, mantiveram, pelo menos em parte, os seus negócios, mesmo comprometendo seriamente os resultados das suas empresas.

As perspectivas das exportações para o segundo semestre de 2008

Para fazer uma projeção da evolução das exportações no segundo semestre do ano em curso devemos levar em consideração os seguintes fatores:

Em conseqüência da atual crise mundial, nem a demanda por couro, nem os abates devem aumentar no segundo semestre.

 O mercado internacional de couro no início do semestre já se apresenta com tendência baixista.

No início do segundo semestre, mesmo com os abates continuando num patamar inferior aos dos anos passados, finalmente os preços da matéria-prima começaram a cair de forma acentuada. O mercado doméstico se apresentava totalmente saturado e os compradores do exterior não mostraram qualquer disposição a renovar ou fechar novos negócios sem uma redução significativa nos preços. Como os custos de produção continuam extremamente altos, restou como única saída à redução dos preços do couro cru.

Levando em consideração os fatos acima mencionados, podemos fazer as seguintes previsões para as exportações durante o segundo semestre:

  1. Couro salgado:

 

Exportações em quantidade de couros:

Primeiro semestre 2007: 35.345 couros.      Primeiro semestre 2008: 28.646 couros.

Durante o segundo semestre de 2008 a quantidade exportada deve aumentar uma vez que os preços ficarão mais atrativos para os compradores. O preço alcançado no mês de junho de US$ 39,48 por couro deve cair uns 10% para uma base de US$ 35,00 e o volume deve aumentar para 60/80.000, significando na base de 70.000 couros a US$ 35,00 uma receita de exportação de US$ 2.450.000 contra os US$ 856.132 no primeiro semestre.
 
Mesmo com uma receita semestral quase triplicada, a exportação de couros salgados deve continuar insignificante, atingindo apenas 0,12% do valor total das exportações de couro bovino.

  1. Wet blue:

 

Exportações em quantidade de couros:

Primeiro semestre 2007: 8.929.952 couros.     Primeiro semestre 2008: 4.742.422 couros.

A curto prazo existe a possibilidade de uma reação nas exportações de Wet Blue, caso o preço da matéria-prima nacional caia tanto que fique outra vez atrativo no  mercado internacional. Nesse caso, os altos custos do beneficiamento no Brasil e a maior rotatividade no Wet Blue, podem de novo favorecer a exportação de wet blue.

Levando em consideração que estes fatos provavelmente surtirão efeito só a partir de outubro, podemos estimar que o total a ser exportado ainda no segundo semestre atinja 4.800.000 couros, quantidade quase idêntica ao primeiro semestre. O preço deve cair dos US$ 51,08 registrados em junho para uma média de US$ 46,00, proporcionando uma receita semestral de US$ 220.800.000 contra os 243.906.976 apurados no primeiro semestre.

 

  1. Crust:

 

Exportações em quantidade de couros:

Primeiro semestre de 2007: 2.474.567 couros. Primeiro semestre de 2008: 2.679.363 couros.

As exportações de couros em Crust devem continuar na base de 450.000 por mês, alcançando um total de 2.700.000 e o preço deve ficar num patamar de US$ 72,00, dando uma receita semestral de US$  194.400.000 contra os US$ 211.141.570 do primeiro semestre.

 

  1. Acabados:

 

Exportações em quantidade de couros:

Primeiro semestre de 2007: 6.341.913 couros. Primeiro semestre de 2008: 6.162.708 couros.

O preço médio por couro de US$ 99,12, alcançado em junho, deve cair no segundo semestre para uma base média de US$ 90,00, e a quantidade exportada deve ficar numa média mensal de um milhão, ou seja 6.000.000 para o semestre dando uma previsão de receita de US$ 540.000.000.

Resumo da previsão das exportações no segundo semestre de 2008 e do total de 2008 Summary of the exports forecast in the second half of 2008 and the total of 2008

 

      Primeiro semestre 2008.                                          Previsão segundo semestre 2008.    
     First half 2008                                                          Forecast second semester 2008.

 

Couros
Hides

Valor US$
Value

Preço
Price

Couros
Hides

Valor US$
Value

Preço
Price

Salgados/Salted

28.646

856.132

29,89

70.000

2.450.000

35,00

Wet blue

4.742.422

243.906.976

51,43

4.800.000

220.800.000

46,00

Crust

2.679.363

211.141.570

78,80

2.700.000

194.400.000

72,00

Acabados/Finished

6.162.708

606.730.507

98,45

6.000.000

540.000.000

90,00

Total

13.613.139

1.062.635.185

78,06

13.570.000

957.650.000

70,57

 

 

Previsão total para o ano 2008
Total forecast for the year 2008

 

Couros
Hides

Valor US$
Value

Preço
Price

Salgados/ Salted

98.646

3.306.132

33,52

Wet blue

9.542.422

464.706.976

48,70

Crust

5.379.363

405.541.570

75,39

Acabados/ Finished

12.162.708

1.146.730.507

94,28

Total

27.183.139

2.020.285.185

74,32

Entenda-se que todas as previsões nesta fase de total instabilidade da economia mundial e dos mercados contêm um risco acima do normal e devem ser interpretadas baseadas nos elementos disponíveis neste momento. A quantidade de couros a ser exportada no segundo semestre é fruto de uma certa dose de otimismo e caso a crise mundial piore, pode ser bem menor.

Pelas previsões apresentadas, exportar-se-á em 2008 cerca de 27,2 milhões de couros bovinos contra os 32,9 milhões exportados em 2007, significando uma queda de 5,7 milhões, ou seja, uma quantidade 17,3% menor. O valor das exportações cairia para US$ 2 bilhões contra os US$  2,17 bilhões exportados em 2007.

 

Revista Courobusiness, Edição 59 Jul/Ago 2008.

 

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