A crise financeira e o mercado do couro
Flávio Castelo Branco
Gerente Executivo da Unidade de Política
Econômica da CNI – Confederação Nacional da Indústria.
Com assento privilegiado, de onde vê e analisa crises e oportunidades para o setor industrial, Castelo Branco é direto ao emitir opiniões objetivas sobre o atual momento. Em síntese, fornece uma moldura interessante dentro da qual cada empresa deve se inserir e avaliar.
1. De que maneira a crise financeira iniciada nos EUA afetará a balança comercial brasileira em 2009? Na exportação e na importação? Câmbio? Crédito? Perda de mercado?
A crise financeira se tornou uma crise global, com a ocorrência de recessão nos países industriais e queda em sua demanda. Com isto irá afetar o comércio externo brasileiro. Esperamos redução no crescimento do valor das exportações, como resultado de menores preços de exportação e encolhimento em alguns mercados específicos. As importações irão mostrar menor crescimento, com certa desaceleração do ritmo interno de atividade e como resultado do ajuste no patamar de câmbio. Os ganhos nas exportações irão gradualmente aparecer, mas no curto e médio prazo predominarão os efeitos da escassez de crédito (aos exportadores) e da recessão.
2. O mercado interno será menor em 2009, sobretudo para bens de consumo não duráveis, como calçados? Dá para compensar internamente perdas comerciais externas?
Haverá certa redução do ritmo de crescimento, mas com menor dano ao mercado interno, que segue com expansão do emprego e renda. A menor disponibilidade de crédito irá prejudicar a demanda dos bens duráveis, mas os bens menos dependentes de crédito, como os calçados, não devem ser muito afetados. A mudança cambial poderá, inclusive, favorecer esse segmento na competição com importados no mercado doméstico.
3. As estimativas de crescimento do PIB (geral e industrial) para 2009 foram revistas? Quanto?
Não temos ainda um cenário claro para 2009, o que dificulta previsões. Imaginamos, preliminarmente, que o crescimento do PIB se reduza para algo próximo a 3,5%. A produção industrial deverá seguir em ritmo um pouco superior, ao redor de 4%.
4. E em relação aos investimentos produtivos? Como afetará a produção industrial? Etc.
Os investimentos podem sofrer alguma revisão, dependendo do setor e do grau de inserção internacional. Projetos de maior dimensão poderão ter seu horizonte estendido, mas os projetos em implantação e os ajustes de produção, como adaptações e atualização de linhas e produtos, não deverão sofrer maior impacto. O crucial é manter ao máximo as linhas de financiamento, de modo a não haver alterações nos cronogramas financeiros das empresas.
Análise COUROBUSINESS
Crédito, câmbio e mercado
Crédito. Dez em cada dez empresários respondem sem hesitação que a crise financeira já começa a afetar o mercado do couro pela via do crédito. Ausência de crédito para exportação e crédito mais caro para qualquer atividade. Reação de primeiro momento dos empresários consultados por COUROBUSINESS, os problemas decorrentes do crédito se consolidaram ao longo do mês de outubro, gerando enormes dificuldades para a formalização de contratos de ACC – Adiantamento de Contrato de Crédito.
Câmbio: Uma boa parte dos consultados cita, além do crédito, a questão cambial. Se de um lado a valorização do dólar pode resultar em maiores ganhos na exportação – desde que ela não encolha em volume, advertem alguns – de outro resulta em riscos para os que estão com endividamento elevado em decorrência de investimentos na moeda estrangeira. De janeiro a setembro de 2008, couro e calçados já importaram cerca de US$ 13,5 milhões em máquinas e equipamentos. A desvalorização do Real, ainda que pela via da baixa liquidez internacional, para muitos dos consultados deveria ser mantida, com o câmbio fixando-se em torno de R$ 2,20. Esta é uma opinião exclusiva sob a ótica do exportador de couro. A pressão cambial, diz um dos consultados, inserindo um novo elemento de discussão, “desequilibra a continuidade de negócios com o exterior porque o importador irá prorrogar suas compras até que tenhamos novamente atingido o equilíbrio; ou seja; fim da especulação com o dólar”. Investimento na compra de máquinas e equipamentos importados devem se reduzir até um novo equilíbrio.
Mercado: Boa parte entende que a indústria coureira exportadora vai se deparar – muitos já estariam se deparando – com uma redução na demanda e aí a resposta vale também para o mercado interno, tudo em função do freio de arrumação que o mercado dá em momentos de incerteza e imprevisibilidade. Alguns consideram que antes mesmo da crise financeira internacional o preço do couro brasileiro já estava fora da realidade internacional. Essa avaliação coincide com aquela feita por Wolfgang Goerlich na edição anterior de COUROBUSINESS. Os exportadores de Wet Blue, por outro lado, consideram nessa avaliação de mercado que um dos aspectos que deveriam ser revistos pelo Governo Federal é a retirada da incidência do Imposto de Exportação, pelos efeitos danosos que ele embute nos preços.
Alguns exportadores avaliam que os efeitos da crise chegaram num momento em que o mercado externo já começava a reduzir de tamanho, cuja síntese estaria na resposta de um importante exportador: “A venda para o mercado externo já havia caído antes da crise financeira mundial e agora se agravou consideravelmente. Nossos clientes no exterior estão sem pedidos e sem capital financiado pelos bancos, porque a circulação de moedas entre bancos restringiu-se. O banco que tem dinheiro tem medo de emprestar e não receber e o banco que precisa tomar não têm aonde encontrá-lo e quando o tem o repasse dos juros para os tomadores estão 80% a 100% mais caros do que 45 - 60 dias atrás.”
Muitos desses comentários foram feitos simultaneamente aos momentos mais críticos, no meio de noticias sobre quebras de instituições financeiras, intervenções estatais, prejuízos declarados de empresas, etc. Mas muitos dos consultados por COUROBUSINESS fizeram questão de afirmar que não crêem numa reversão de expectativa de curto prazo. Para eles o setor coureiro fechará o ano menor do que em 2007, as exportações podem ficar um pouco abaixo de US$ 2 bilhões e 2009 ainda é uma incógnita.
Reação do Governo Federal
O Governo Federal demorou um pouco para reagir, mas adotou algumas providências em relação ao financiamento das exportações. Editou a Medida Provisória 442, que autorizou o Banco Central a fazer empréstimos em moeda estrangeira com recursos das reservas internacionais, com a condição de exigir dos bancos que direcionem os recursos que tomarem somente para financiar o comércio exterior. O primeiro leilão de dólares (cerca de US$ 2 bilhões) se deu no dia 20 de outubro e devem ser aplicados em ACC – Adiantamento de Contrato de Câmbio e ACE – Adiantamento Sobre Cambiais Entregues. Uma vez restabelecido o fluxo de financiamento para exportação, a expectativa é a retomada de negócios.
Efeitos de fora para dentro
No front externo, a preocupação maior é sobre a recessão americana e em quanto ela afetará a demanda de calçados da China. Segundo a ABICALÇADOS, entidade nacional que reúne as empresas calçadistas brasileiras, o temor está associado ao eventual novo destino que a China dará aos calçados que não mais irão para os EUA e também para a Europa, vítima do mesmo mal americano, ainda que em dose menor. Alguns falam em “invasão de sapatos chineses no mercado nacional” e especulam que o dólar alto não será impedimento. O presidente da ABICALÇADOS, Milton Cardoso, em nota para a imprensa afirmou sem meias palavras: “Sei de fabricantes da China que estão dando 40% e até 50% de desconto em seus produtos para desaguar no mercado brasileiro o que está encalhando lá”.
A importação brasileira de calçados da China é um fenômeno que cresce com consistência nos últimos anos. Em 2006 importamos 18,5 milhões de pares; em 2007, 28,6 milhões. De janeiro a setembro de 2008 já importamos 30,8 milhões de pares, dos quais 26,7 milhões da China. Se as previsões da ABICALÇADOS se confirmarem, a crise estará provocando ao mesmo tempo problemas para os mercados externo e interno de calçados, e isso não é bom para a economia brasileira.
Para a indústria de curtumes, grande fornecedora de matéria-prima para China, Hong Kong e Itália, a recessão americana e européia não é uma boa notícia, já que a demanda de couro certamente encolherá. Resulta daí as incertezas sobre 2009.
Sugestão COUROBUSINESS para capital de giro
Uma das demandas que o setor privado deveria apresentar ao Governo Federal – e já deveria tê-lo feito – para minorar a crise de liquidez, não só para exportação, mas também de capital de giro, é a possibilidade de se usar os créditos fiscais decorrentes da exportação como moeda para compensação automática de débitos fiscais, seja em nível federal bem como nos estados. Seria uma resposta urgente e justa, num momento de crise, para uma situação absurdamente injusta que é o calote dos governos federal e estaduais em se tratando de créditos fiscais. Certamente algum burocrata há de argumentar que os governos também perderão receita, mas trata-se de argumento pequeno em comparação aos efeitos positivos para a economia, e via de conseqüência para a arrecadação, que da medida resultariam. Com a palavra as entidades setoriais e nacionais de representação dos empresários.
A crise segundo terceiros
Da ponta de cadeia até seu final repicam problemas e cada um avalia segundo seu universo empresarial. Em seguida ao anúncio da Sadia à Comissão de Valores Mobiliários de uma perda financeira de R$ 760 milhões, decorrentes dos derivativos cambiais, o principal jornal econômico do país, VALOR, deu a seguinte manchete em uma de suas seções: “Sadia puxa queda de R$ 2,4 bi no valor de frigoríficos”. A nota tem a ver com desvalorizações de ações de empresas do setor e com endividamento em dólar. No meio da crise, e antes da MP 442, o presidente do Banco do Brasil, Antonio Francisco de Lima Neto, foi direto, no mesmo jornal: “As linhas de financiamento de longo prazo para as grandes empresas exportadoras de o país bancar novos investimentos secaram totalmente”. Já para o presidente do Banco PNB Paribas no Brasil, Louis Bazire, disse não ter dúvidas: “O crédito continuará escasso por algum tempo”. No meio de tantas notícias e análises, ainda sobrou tempo para o mesmo jornal noticiar que “uma exportadora do setor calçadista do sul do país conseguiu uma liminar na 4ª Vara Cível de Porto Alegre, para não ser obrigada a pagar ao HSBC Bank Brasil prejuízos causados pela variação cambial em um contrato de swap a termo que até agora chegam a R$ 418 mil”. De uma ponta a outra da cadeia começa a aparecer casos de prejuízos decorrentes de swap cambiais, o que torna o cenário ainda mais nebuloso. Não só grandes corporações, mas igualmente médias empresas viram nessa operação a oportunidade de melhorar a sua situação cambial frente a uma persistente, efetiva e preocupante valorização da moeda brasileira. O risco era grande, mas não se pode culpá-las por isso.
Comentários finais
De toda crise saem novos compromissos e comportamentos, até que o mercado financeiro readquira confiança e se sinta absolutamente à vontade para criar novos mecanismos mágicos. Esse comportamento parece fazer parte da essência da atividade financeira. Resta aos executivos financeiros das empresas que fazem parte da economia real, distinguir o que é razoável e o que não o é, o que aumenta ou não a sua insegurança e o que de fato a protege de riscos reais.
A crise encontra a economia brasileira com fundamentos mais sólidos do que em 1998, por exemplo, quando a crise na Ásia colocou a perder uma série de ganhos internos. Mas, independente disso, o Brasil certamente sairá menor da crise: a projeção de crescimento do PIB para 2009 já encolheu para em torno de 3%; a receita tributária será menor por força da redução dos negócios e balanços comprometidos; o emprego segue a mesma linha; os investimentos em infra-estrutura necessariamente serão menores e em prazos mais longos; a balança comercial será afetada, nas duas vertentes. Se o Brasil ganha na bonança internacional, é inimaginável supor que ele passe incólume pela crise.
Como fechamento, quase uma síntese do atual momento, segue uma expressão simplória, mas didática, que um dos consultados enviou para COUROBUSINESS: “os pedidos estão secando, nossos compradores não dizem nada, os negócios estão sendo postergados, parece que os compradores de couro vão adotar a estratégia da “mão pra boca”, ou seja, só compra a matéria-prima quando tem vendas garantidas do produto acabado. Isso é um sinal claro da imprevisibilidade que ronda o mercado do couro, interno e externo. Se há imprevisibilidade há esperança.
Revista Courobusiness, Ed. 60 – set/out 2008.
