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As conversas entre o Mercosul e a União Européia e suas implicações para a indústria do couro:
Uma visão de B
ruxelas

Gustavo Gonzales Quijano
Secretário Geral da COTANCE

Foi iniciada em 14 de junho em Bruxelas a segunda rodada de conversas entre o Mercosul e a União Européia em prol de um acordo de associação que inclui o livre comércio. O primeiro encontro aconteceu em abril em Buenos Aires. Hervé Jouanjean, diretor de Relações Exteriores da Comissão Européia descreveu o primeiro encontro como o "início de uma jornada". Uma jornada entre negociantes da União Européia e o Mercosul, que deverá levar a um acordo de livre comércio entre as duas partes.

 

Esses debates sobre o comércio são muito relevantes para a indústria de couro. Dois grandes jogadores do comércio global de couro estão envolvidos. Por um lado, o Mercosul, que detém 1,3% da disponibilidade mundial de matéria-prima bovina, um setor de Curtumes relevante que produz e exporta couro para o Mercado global e uma das melhores indústrias de calçados do mundo. Por outro a União Européia, com 9% da disponibilidade mundial de matéria-prima bovina, um setor de curtumes de ponta no mercado global e o maior e mais competitivo mercado de couros e produtos derivados do mundo.

Uma posição de liderança como essa deveria teoricamente servir como um bom Presságio para as negociações. o potencial para o aumento do comércio igualmente proveitoso para as duas portes é grande. Sob circunstâncias normais nada deve dar errado e a liberação total e recíproca dessa fatia do comércio certamente irá impulsionar os negócios em todos níveis do setor.

Porém, as coisas não são tão simples assim. Há certas barreiras que distorcem o ambiente competitivo do setor e impedem o progresso, o que representa uma grande desvantagem para ambos as portes. Deve-se frisar também que muitos dos interesses de ambas portes são ignorados e há uma fixação excessiva em já antigas disputas de comércio, que recentemente chegaram à mesa do Mecanismo de Acerto de Disputas da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Em relação às conversas, o vice-ministro de relações exteriores do Argentina, Horacio Chighizola, estima que ainda há milhares de quilômetros a serem percorridos. Será que ele está incluindo aí uma resolução satisfatória da questão do couro?

Alguns observadores podem considerar que isso é particularmente otimista e, com relação a resolução da questão do couro, os negociadores ainda não demonstraram o seu apoio. Ao ouvir Nestor de Paula, Presidente da Azaléia e atual Presidente da Abicalçados, nos perguntamos se os interiocutores estão realmente fazendo o seu "dever de casa." Defender a implementação de mais obstáculos ao comércio, tais como a restrição a exportações do Wet-blue brasileiro, é no mínimo uma atitude anacrônica.

O mundo atual procura a liberação global e a eliminação de obstáculos. O amanhã nos reserva uma nova era de prosperidade mútua, deixando para trás velhas disputas e tentando achar formas de cooperação industrial, pesquisa e desenvolvimento tecnológicos mútuos, desenvolvimento sustentável, expansão do mercado e maior oferta de empregos.

Na edição de Maio 2000 da revista de comércio WORLD LEATHER foi publicado um artigo muito interessante na coluna 'Visões da Argentina' intitulado O Real Efeito. Após analisar como a desvalorização do Real afetou a balança de comércio entre a Argentina e o Brasil, o artigo relata como pequenas coisas surtem efeito nos grandes produtores de couro da Argentina, que têm curtumes em vários países do Mercosul e até em outros continentes. De fato, para a Sadesa, que tem quatro curtumes na Argentina com uma produção que representa 25% do participação no mercado local de couros, deve ser muito irritante considerar a possibilidade do quebra de já antigas restrições argentinas à exportação de couro cru e Wet-blue.

Os curtumes argentinos também devem estar satisfeitos por terem encontrado no seu vizinho o apoio de Nestor de Paula e, recentemente, José Roberto Scarabel, Presidente da CICB. José Roberto Scarabel juntou-se ao seu colega da indústria de calçados para pedir restrições à exportação de Wet-blue. Aliás, a fábrica da Sadesa no Brasil representa uma participação de 4% no mercado local de couros.

Contudo, para alcançar a proteção ideal, deve-se assegurar que todos países do Mercosul adotem barreiras eficientes que impediriam a saído de qualquer matéria-prima; incluem-se aí o Uruguai (onde a Sadesa é a maior exportadora de couro curtido há quinze anos e a terceira maior exportadora do país) e o Paraguai (onde seu curtume produz 1.9 milhões de pés quadrados de Crust por mês.) Há um bom tempo (alguns consideram até tempo demais) que a Argentina mantém ferozmente restrições de fato à exportação de matéria- prima dos curtumes.

Agora, ela pretende exportar esse modelo a seus parceiros do Mercosul que fazem lobby para erguer uma barreira geral em torno da fronteira externa do Mercosul, assegurando que todos couros e peles sejam curtidos em "casa'. É uma idéia bastante sugestiva, já que ela distorce a competição em prol daqueles que controlam o mercado de couros dentro dessa fortaleza.

As práticas iníquas de comércio no setor de couros da Argentina não passam despercebidas internacionalmente. Curtumes dos Estados Unidos já moveram um processo de anti-subsídio contra a Argentina devido a suas restrições à exportação de couros e peles; curtumes europeus ativaram o Mecanismo de Acerto de Disputas da OMC; e frigoríficos argentinos reclamam pois são vítimas da situação, perdendo oportunidades de negócios no mercado global de couros, onde o preço de couros chega até 40% a mais do que em casa.

Mas também há bastante confusão sobre o próprio conceito de "casa". Multas vezes, "casa" não é necessariamente o seu país. Casa é todo o Mercosul quando os curtumes referem-se a couros e sua proteção. Porém, cosa também é a estreito faixa de orgulho nacional - um conceito que os curtumes usam quando se referem ao couro.

Dentro desse cenário, qualquer observador pode dizer que alguns 'jogadores' estão certamente fazendo o seu "dever de casa" e alguns já podem estar até dando aulas para seus colegas.   

As coisas estão se desenvolvendo de forma rápida, pelo menos aparentemente. Em 7 de junho de 2000, o web-site cueroamerica.com fez um relato do acordo entre a Associação de Produtores de Calçados do Brasil e a Associação de Curtumes da Argentina para a formação de comissões conjuntas para desenvolver ações comuns dentro do arcabouço do Mercosul.

[ CRÉDITOS ]