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A febre aftosa e a imagem do rebanho brasileiro no exterior

Osmar Dias é Senador pelo Estado do Paraná.

O surgimento recente de casos de febre aftosa no Rio Grande do Sul deve servir como um alerta aos governos sobre a importância de fazer investimentos na sanidade animal e em programas intensivos de vacinação contra a doença. O aparecimento da doença no Rio Grande, que tinha status de zona livre da aftosa sem vacinação, mostra nossa fragilidade e a possibilidade de ressurgimento da doença se não houver uma integração com os países do Mercosul e esforços conjuntos para erradicar a doença.

Considero que foi um erro não vacinar o rebanho do Rio Grande logo depois que foi constatada a febre aftosa na Argentina e na ocasião fiz um alerta para que fossem tomadas medidas urgentes, para evitar que a doença se alastrasse por outras regiões. Defendi o início da vacinação do rebanho de Santa Catarina e a eliminação das cabeças de gado contaminadas no Rio Grande. Considero que não é retrocesso vacinar o rebanho gaúcho e o catarinense, mas agir com inteligência em uma situação emergencial.

O aparecimento de casos de febre aftosa no Rio Grande foi uma frustração para todos os que comemoraram o fato do estado ter o status de zona livre de aftosa sem vacinação. Desde 1993, o Estado não registrava nenhum caso da doença .

Quando os casos apareceram, pela primeira vez, no ano passado, houve grande polêmica entre o governo federal, o governo estadual e as entidades de produtores sobre a conveniência de vacinar ou não o rebanho gaúcho. Para muitos, inclusive para o Ministério da Agricultura, voltar a vacinar seria retroceder sanitariamente. Este ano, novos casos apareceram no Rio Grande do Sul. Felizmente, os focos foram controlados. Mas continuo a defender a tese de que é melhor vacinar e perder o status de área livre sem vacinação do que correr o risco da doença se espalhar por outras regiões, o que traria prejuízos para todo o país.

A febre aftosa é uma doença infecciosa causada por um dos menores vírus encontrados na natureza – o aftovírus. Ele ataca animais de casco bipartido e os principais sintomas no animal contaminado são febre, aftas na boca, gengiva e língua e feridas nos cascos e úberes. Na literatura médica são raríssimos os casos de contaminação de pessoas. O cozimento da carne e do leite mata o vírus. Mas o vírus se espalha rapidamente. As pessoas que vivem em zonas contaminadas podem espalhar o vírus por meio de suas roupas, cabelos e calçados. Insetos, como moscas, que têm contato com locais onde o gado contaminado bebe água, também servem de veículo para a propagação do vírus.

O risco do homem adquirir a doença é ínfimo mas o grande problema da febre aftosa é econômico. Por ser altamente contagiosa, a doença se dissemina rapidamente no rebanho. Em caso de contaminação, perdem os produtores que têm seus animais abatidos, os frigoríficos, que não têm como atender ao mercado, e os consumidores que, diante da escassez, são obrigados a pagar mais pela carne

No Brasil, com a decisão da Organização Internacional de Epizooties, o circuito pecuário Leste – que abrange os estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Sergipe e leste de Minas Gerais, além do Mato Grosso do Sul e Tocantins, mais as zonas tampão de Goiás, Mato Grosso, São Paulo e Paraná – passa a contar com a certificação de zona livre de febre aftosa com vacinação. Toda essa região fica liberada para a comercialização de animais e carne com osso nos mercados do circuito pecuário Centro-Oeste, que já se encontra livre da doença.

Com a ampliação da área de zona livre de aftosa com vacinação, aumenta o potencial de exportação de carne bovina brasileira. Mas para isso será necessário avançar na abertura de novos mercados para a nossa carne. Atualmente, de janeiro a abril deste ano, segundo dados da Confederação Nacional da Agricultura, as exportações alcançaram US$ 260 milhões, com um aumento de 14,4% em relação ao mesmo período do ano passado.

Mas temos um potencial muito maior para ampliar nossas exportações de carne. Embora a doença da "vaca louca" e o surgimento de casos de febre aftosa na Europa tenham trazido como consequência a redução do consumo de carne bovina entre a população européia, essa redução deve ser temporária. Além disso, podemos aumentar nossas vendas para o Leste Europeu e para outros mercados.

Mas para isso, volto a insistir, é preciso investir na melhoria das condições de sanidade dos rebanhos, fiscalização e na criação de um sistema de informações entre os países do Mercosul, para estabelecermos uma política sanitária única para toda a região.

Queiramos ou não, o episódio da proibição de importação de carne brasileira para o Canadá, fruto muito mais de retaliações comerciais do que propriamente devido à qualidade da nossa carne, trouxe prejuízos para a imagem do rebanho brasileiro no exterior. O mesmo aconteceu quando do surgimento dos focos de febre aftosa no Rio Grande. Por isso não podemos cometer novos erros porque o que está em jogo não é só a qualidade do nosso rebanho mas sim a imagem e a credibilidade do nosso país e de nossas autoridades.

Defendo a realização de uma campanha internacional mostrando que a carne brasileira é de alta qualidade. Manter os atuais mercados e conquistar novos não é uma tarefa simples e exige empenho e investimento. E exige, sobretudo, agilidade e seriedade por parte de nossas autoridades, no caso do surgimento de qualquer foco de doença que possa afetar nossa credibilidade.

Este ano, podemos exportar mais de US$ 900 milhões de carne bovina. Quanto não poderíamos exportar se houvesse um pouco mais de apoio e de clareza de nossas autoridades ?

 
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