JURO ALTO É GOL CONTRA

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Carlos Eduardo Moreira Ferreira é presidente em exercício da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e deputado federal (PFL-SP) |
Naquele lamentável jogo em que o Brasil foi derrotado por Honduras, uma sucessão de erros, provocados por puro nervosismo, transformou a seleção do Filipão num timinho de várzea. O maior erro do Brasil foi permitir que os hondurenhos passeassem no nosso campo, instalando uma enorme crise em nossa defesa. Mesmo quando atacávamos, a fragilidade da defesa era flagrante. Resultado: saímos da Copa América pela porta dos fundos. Humilhados. Com aqueles dois gols entalados na garganta.
No jogo da economia internacional, o Brasil tem reagido à crise da Argentina do mesmo jeito que a seleção enfrentou Honduras. Trouxe a crise para dentro da nossa grande área, aumentando a taxa de juros numa mostra de nervosismo refletida pela alta temperatura do dólar.
E começou a perder a partida. E perder, neste caso, significa jogar por terra conquistas importantes da sociedade. É a hora da virada, de partir da defesa para o ataque.
O Brasil já havia tomado o gol contra do racionamento de energia, com todas as suas conseqüências nefastas para a produção e o emprego. A tática de aumentar juros prejudicou ainda mais. Sinalizamos ao mundo nosso enorme medo de que a crise argentina pudesse contaminar nossa economia. Repetimos o mesmo erro do jogo contra Honduras.
É claro que não se pode tampar o sol com a peneira quando um parceiro da importância da Argentina enfrenta uma crise que beira a ruptura institucional. Mas o Brasil precisa mostrar sua capacidade de absorver esses impactos e que é dono de uma economia complexa e sofisticada. E que, principalmente, fizemos o dever de casa, como atesta o próprio FMI. Não há nada melhor para os investidores internacionais -principalmente os mais conservadores- do que um atestado de boa conduta dado pelo FMI. Soa como música para as bolsas de valores internacionais e agências que medem o risco dos países emergentes.
O Brasil tem que se livrar dessa síndrome do futebol de Honduras, porque temos um time econômico afinadinho e que tem ganho partidas dificílimas. Superou, por exemplo, a crise asiática em 1.999, libertando o país das algemas do câmbio fixo. O mesmo câmbio fixo que quase mandou a Argentina para escanteio. Portanto, a hora é de trabalharmos com uma agenda positiva, mostrando ao mundo globalizado nossa capacidade de reação e de superação de dificuldades.
Um aumento de taxa de juros combinado com racionamento de energia causa enormes transtornos. Embola o meio de campo do setor produtivo, que vê seus custos subirem da noite para o dia, e desequilibra o setor público que pagará mais caro para rolar sua dívida. Resultado: investimentos no social e no desenvolvimento acabam no banco de reservas.
Agenda positiva significa mostrar que estamos jogando para ganhar. O Brasil ostenta contas fiscais em dia. Prova disso, é que há três anos consecutivos nossas metas de superávit primário são atingidas. Também é positivo para o Brasil mudanças institucionais importantes, como a Lei de Responsabilidade Fiscal, que impede que governantes irresponsáveis usem e abusem do dinheiro público. Além disso, ainda que seja necessária uma melhora qualitativa no ajuste fiscal de longo prazo, ainda que não tenhamos feito a reforma tributária -com ela estaríamos muito melhor- é inquestionável que nossa situação fiscal é infinitamente superior à da Argentina. Para quem procura confiança e segurança, este cenário pode não ser o paraíso, mas também está longe de ser o inferno.
Nesta altura do campeonato, o maior trunfo do Brasil é mostrar um estilo de jogo diferenciado. Ao invés de trazer a crise argentina para dentro da grande área da nossa economia, o País precisa reafirmar seu compromisso com as metas fiscais no sentido amplo. Nesta linha, é perfeitamente razoável preparar um plano de contingência fiscal, com corte de gastos ao invés de aumento de impostos. Com este plano, se a bola escapar por entre as pernas dos argentinos nós estaríamos a salvo das conseqüências.
Mas é bom lembrar que uma agenda positiva não pode excluir a recuperação da ofensiva em ações de impacto para o longo prazo, como reconheceu o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, numa entrevista no fim de junho. É imprescindível retomar a discussão e proposição de medidas que aumentem a competitividade dos produtos brasileiros, avançando em questões estruturais como a desoneração tributária para as exportações e investimentos. Mostrar que estamos preocupados com a capacidade futura de equilíbrio nas contas externas.
Neste jogo, o time econômico do Brasil precisa dar tratos a bola e mostrar ao mundo que rompeu com o passado de desequilíbrios, que quer consolidar expectativas positivas sobre a economia com ações concretas. Conquistamos nossa maioridade econômica entre os países emergentes. Não somos um timinho de várzea, nem seleção dente de leite. Jogamos o jogo dos profissionais.
