Vinícius Lummertz
Diretor do SEBRAE
A CARA BRASILEIRA
Um dos traços mais nítidos da cultura brasileira é a sua diversidade. As dimensões continentais, a mistura de raças, o contraste das populações indígenas com os elevados padrões de modernidade e desenvolvimento, não encontram paralelo no mundo.
Somos um povo formado pela capacidade de aliar, com maestria, aspectos tão distintos que se complementam. Essa diversidade pode se constituir num elemento fundamental para o sucesso das micro e pequenas empresas. Se a Itália é conhecida mundialmente como a terra do design e a Suíça pela precisão dos seus relógios, o Brasil pode se diferenciar como o País da exuberância natural, da concórdia entre os povos, da hospitalidade e da alegria.
Setores como o artesanato, a moda, o agroalimentar e o entretenimento, entre outros, poderão se beneficiar dessa diversidade. Conceitos como alegria, hospitalidade e amabilidade, poderiam ser utilizados na valorização comercial de serviços ligados ao turismo, por exemplo.
A exemplo do pão de queijo, as essências aromáticas da Amazônia, as jóias e a música popular brasileira têm grandes chances de conquistar o mercado externo.
Hoje, no entanto, milhares de pequenos empresários e/ou empregados não conseguem, na grande parte dos casos, tirar dessas características os instrumentos para a melhoria da própria condição. Torna-se necessário utilizar o riquíssimo e vasto patrimônio cultural brasileiro em ações capazes de dotar os produtos e serviços de nossos pequenos negócios de uma identidade, de uma alma, enfim de uma cara brasileira.
Em busca deste objetivo, o Sebrae desenvolveu o "Projeto Cara Brasileira", com a consultoria da empresa S3 Studium, do sociólogo Domenico de Masi. A primeira ação foi identificar qual seria essa nossa cara. A atenção foi focalizada naquelas características que, se adotadas por uma empresa, poderão conferir um fator de vantagem no plano do marketing e de penetração nos mercados locais e internacionais.
Mas, o Brasil tem cara? Sim, o Brasil tem cara. Ela é feita de pedaços distintos que se fundem e combinam numa feição e num rosto singular e único: um semblante reconhecidamente brasileiro.
Para refletir sobre uma questão tão complexa, o Sebrae realizou uma pesquisa que identificou alguns dos aspectos mais significativos da cultura brasileira. A pesquisa teve a participação de vinte e cinco profissionais de grande renome nacional e internacional em áreas diversas.
O trabalho conclui abordando a promoção da "cara brasileira" como uma estratégia para o país. De modo abrangente, se os brasileiros não desenvolverem uma imagem pelo menos tão boa quanto a que os estrangeiros lhe conferem, continuará a perder numerosas oportunidades.
Portanto, os brasileiros podem e devem aproveitar-se da variedade e da sofisticação do patrimônio ambiental. Todavia, devem evitar o risco da "folclorização" e de "submissão" a seu "destino tropical".
É importante ressaltar que o Brasil já explora alguns dos aspectos levantados. Existem produtos e serviços tipicamente brasileiros que obtêm sucesso no mercado justamente porque possuem essa "densidade cultural" além, é claro, de qualidade, logística, boa comercialização, fatores também essenciais. São os casos da moda, do turismo, do artesanato, da cachaça, da pintura, do carnaval, dos produtos naturais e, especialmente, da música.
Mesmo assim, as micro e pequenas empresas respondem por baixos percentuais do volume de exportações do País, apesar de absorverem 67% da mão-de-obra e contribuir com 20% do Produto Interno Bruto (PIB).
As idéias surgidas a partir do Cara Brasileira não devem ser preocupação exclusiva do Sebrae, mas dos diversos atores que podem e devem interagir na construção de uma estratégia, considerando a criação de um "Made in Brazil" diferente do que temos hoje. A proposta é fazer com que esse "made in" não classifique os produtos somente como "produzido no território brasileiro", mas o que foi "produzido com brasilidade".
Contudo, não adianta todo esse esforço na criação de uma imagem positiva seja, de produtos, serviços, setores ou territórios, se os segmentos produtivos não adotarem aspectos tangíveis tais como qualidade, logística, garantia, rastreabilidade, entre outros. Também não será efetiva esta ação se não existir por parte de toda a sociedade brasileira o comprometimento de acertar estratégias amplas e articuladas para a melhoria dos indicadores econômicos e sociais e, conseqüentemente, da imagem do país.
