O setor coureiro-calçadista quer continuar competindo
*Tarcísio Zimmermann
A decisão da Câmara de Comércio Exterior de reduzir progressivamente a alíquota de exportação do couro wet blue, a partir de janeiro de 2004, tem sido motivo de grande preocupação para a indústria coureiro-calçadista em todo País. Os protestos do setor fazem sentido. No primeiro trimestre deste ano houve um incremento de 27% nas exportações do couro wet blue. Isto significa que 4,3 milhões de couros deixaram o Brasil sem nenhum valor agregado. Se essa tendência de crescimento se mantiver até o final do ano, mais de 17 milhões de couros nesse estágio de produção devem sair do país. O Brasil só tem a perder ao estimular a exportação de matéria-prima.Ora, uma das grandes aspirações de uma nação que reconhece e preza a sua capacidade de atuar num mercado competitivo é agregar valor à sua produção. Não foi à toa todo esforço desenvolvimentista dos anos 30, na Era Getúlio Vargas, e depois empreendido por Juscelino Kubitschek, no sentido de dotar nosso país de um parque produtivo capaz de reduzir nossa dependência, agregar valor e de gerar riquezas e empregos para os brasileiros.E não se pode dizer que é autista uma política industrial que atua na linha da preservação da nossa matéria-prima. Isto porque compreendemos perfeitamente as estratégias de grandes produtores de couro como a Rússia, a Argentina e a Índia que protegem suas matérias primas para valorizá-las e para induzir processos de industrialização.Da mesma forma, são compreensíveis as pressões da China e da Itália, grandes interessadas no abastecimento barato da matéria prima para a sua indústria de transformação. Por isso preconizamos a reversão da decisão da Camex, que terá o sentido de reafirmar nossa posição competitiva no mercado mundial de couro acabado e de manufaturados de couro, grandes geradores de empregos e riqueza.O governo federal vem fazendo um notável e reconhecido esforço para ampliar nossas exportações e para dotar o Brasil de uma política industrial capaz de assegurar um desenvolvimento sustentado. O setor coureiro-calçadista beneficia-se desta política através das linhas de crédito voltadas ao estímulo à modernização do parque produtivo e dos programas de apoio às exportações.Na mesma linha inscreve-se o esforço para a melhoria da qualidade do couro, que terá atenção especial através de programa a ser executado em parceria entre o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, o Sebrae e o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), com significativos investimentos públicos. Acredito que nos sobram bons motivos para lutar pela reversão da decisão que reduz progressivamente as alíquotas de exportação do couro wet blue. Mas, creio também, que temos muitos motivos para confiar na sensibilidade do governo federal frente ao tema, especialmente quando temos, finalmente, de volta ao nosso país um verdadeiro esforço para uma política industrial que saberá valorizar o setor coureiro-calçadista pelos milhares e milhares de empregos que gera e pelos bilhões de dólares que agrega às nossas exportações.
(*) Tarcísio Zimmermann é deputado federal (PT-RS) e presidente da Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados
