UMA QUESTÃO DE ESCOLHA
Cezar Muller
Presidente da Associação das Indústrias de Curtume do Rio Grande do Sul - AICSul
Existem ocorrências na vida que independem da nossa vontade. Nestes casos, não temos escolha. Resta adaptar-se para retirar o que elas nos apresentam de melhores possibilidades. Porém, há outras situações, em que podemos escolher o caminho a seguir.
O futuro da indústria brasileira de couro está nesta segunda alternativa. Está diante da possibilidade de ser uma grande fornecedora de matéria-prima para que outros países agreguem valor ao nosso couro ou tem as condições de se transformar na líder mundial na produção de couro com maior valor agregado.
A disponibilidade interna de matéria-prima de origem bovina tem aumentado mais no Brasil do que nos demais produtores mundiais. Em alguns países, principalmente na Europa, tem havido até declínio da oferta. Isto faz com que Brasil se encaminhe para ser a maior fonte do planeta no fornecimento de couros. Neste ano, os abates bovinos deverão ficar em 36 milhões de cabeças. Em 2010, ultrapassaremos os 40 milhões.
Enquanto isso, a indústria coureira de maior conceito internacional, concentrada na Europa, em países como a Espanha, Portugal e principalmente a Itália, vive um momento de enormes dificuldades, provocadas por vários fatores, como alto custo da mão-de-obra, distância da matéria-prima, evolução de competidores de outras regiões e especialmente pelo alto valor do euro.
Todos estes países europeus têm tradição no fornecimento de couros com qualidade, de maior valor agregado, abrindo espaço para que outros produtores, de outras regiões, ocupem este espaço.
Ao mesmo tempo em que a Europa perde fôlego, os asiáticos crescem rapidamente. Hoje, ainda se destacam no preço quando acessam o mercado internacional. Porém, em vários países do Oriente observa-se determinação e avanço no desenvolvimento de uma indústria do couro capaz de fornecer produtos de maior qualidade.
E nós estamos diante destes dois campos: dos europeus que perdem espaço, e dos asiáticos que aumentam a sua presença no mercado. Pela alta disponibilidade de matéria-prima, mão-de-obra qualificada e elevação tecnológica de nossas empresas, estamos em condições de escolher o nosso futuro.
A alternativa de ter o Brasil como grande fornecedor de matéria-prima couro é a mais fácil de ser alcançada. Basta transformar o couro cru em Wet Bblue e vender ao mercado internacional. Já dispomos de capacidade instalada para executar o processo e compradores não faltarão.
O caminho de agregar valor ao couro oferece desafios maiores. Exige que o Brasil tenha política industrial, que o governo defina regras de reciprocidade com os competidores internacionais, que o setor esteja sempre se atualizando tecnologicamente e, principalmente, que tenhamos a capacidade de gerar moda em couro.
Pois nós da AICSul não escolhemos o caminho mais fácil, do fornecimento de matéria-prima.
Optamos pelo desafio de participar de um processo de colocar o país como líder mundial na produção de couros de maior valor agregado. E com satisfação vemos que a entidade nacional do nosso setor, o CICB, está atuando firmemente no mesmo rumo.
Devem muito se perguntar: qual o motivo para escolher o caminho mais difícil? A resposta é que apostamos no Brasil, como um país capaz de ser muito mais do que é. Fornecedor de matéria-prima tem que se sujeitar às imposições do comprador. Fica na mão do importador. Ao não agregar valor ao couro, também recebemos muito menos por um material nobre, objeto de desejo ao longo da história. Sem aproveitar o potencial do couro, o país deixa de gerar empregos, tão necessários para a nossa sociedade. Vendendo Wet Blue o Brasil desperdiça oportunidade de gerar riquezas, cujos benefícios seriam de toda a nossa população.
Acreditando no Brasil, nossas empresas estão investindo pesado em tecnologias mais avançadas, acompanhando o que há de mais moderno no mundo. Ao mesmo tempo, buscam o desenvolvimento de moda em couro. E o melhor exemplo deste esforço é a Courovisão, que será realizada de 20 a 22 de outubro, em Novo Hamburgo.
Mais de 30 empresas do setor estarão ousadamente apresentando as tendências da moda em couro para o inverno de 2006 no Hemisfério Norte. Com a contribuição decisiva de indústrias químicas, estaremos antecipando aos exportadores de calçados brasileiros as novidades que deverão estar calçando europeus e norte-americanos daqui a dois anos.
Agora, resta apenas que o governo brasileiro, em todos os âmbitos, se integre de forma mais efetiva nesta aposta, porque a vitória será de todos.
