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INVASORES OU INVADIDOS: EIS A QUESTÃO?

Carlos Alberto Brigagão
Presidente da Calçados Sândalo S/A
 

Não é preciso ter vivido à época para saber que a saúva é uma importante praga da lavoura brasileira, a ponto do naturalista Saint-Hilaire (1779-1853) elevá-la ao status de celebridade, ao cunhar o seguinte exagero semântico: ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil. Como empresário brasileiro produtor de calçado, reflito se o calçado chinês, em futuro próximo, não estaria para a nossa indústria, como a saúva esteve para a agricultura. Às vésperas da visita do presidente chinês, Hu Jintao, nos últimos meses de 2004, externei por diversas vezes minha preocupação relativa ao crescente aumento de calçados produzidos na China e vendidos no Brasil -  notadamente em São Paulo, capital,  mas já também encontrados nas vitrines de Fortaleza, por exemplo. Junto com 250 empresários e membros do seu corpo diplomático, o presidente chinês pressionou o governo brasileiro por maior abertura bilateral entre os dois países e o reconhecimento pelo governo brasileiro do status de economia de mercado. Ao sair do Brasil, Hu Jintao poderia repetir César: vim, vi e venci.

O volume de calçados chineses existentes nas vitrines brasileiras, comparado com os números da CAMEX, permite especular se não estaria havendo contrabando, entradas ilegais em nosso país. É só percorrer algumas grandes lojas em São Paulo para verificar que mercados tradicionais do calçado brasileiro estão sendo substituídos por calçados chineses, inclusive em públicos de bom poder aquisitivo. O calçado chinês já não pode mais ser considerado popular, como se isso não fosse uma ameaça, pois avança em todas as direções. Quem conhece calçado, produz e dele vive há décadas, sabe reconhecer um bom calçado. Pena que o produto chinês vendido aos brasileiros engana o consumidor, pois a matéria-prima é sintética e não natural, se usa plástico e não couro. Há varejistas brasileiros em sintonia com produtores chineses, para fabricação personalizada. Com o status de economia de mercado, o calçado chinês vai aos poucos ocupar o espaço do calçado nacional, gerando empresas e empregos não em Franca ou Novo Hamburgo, mas na China. Perda de mercado e emprego, dois efeitos perversos já visíveis.

O que acontecerá com a economia brasileira, uma vez “autorizada” a invasão chinesa, se ela não for bem monitorada? Na “economia de mercado” chinesa, o câmbio é monitorado a favor do exportador, sem nenhum constrangimento.

Alguns jornais, com base em opiniões de especialistas, veicularam as seguintes afirmações quando da visita do presidente chinês: 

  • "O Brasil concedeu à China o status de economia de mercado, decisão política que  poderá prejudicar setores da indústria brasileira." 
     

  • "O Brasil relutou muito em fazer essa concessão. O próprio Furlan (Desenvolvimento) dizia que o reconhecimento acarretaria problemas ao setor produtivo nacional."
     

  • "Após reunião com Lula, o presidente chinês, Hu Jintao, comemorou a decisão. O presidente Lula anunciou um reconhecimento do status de economia de mercado para a China. ‘Eu gostaria de agradecer. Essa postura do Brasil vai com certeza criar as condições para uma relação estratégica muito mais rica e favorecer a cooperação econômica e comercial'.
     

  • "Os brasileiros foram colocados contra a parede – a China deixou claro que não faria concessões comerciais se Hu não deixasse Brasília com o reconhecimento do seu país como economia de mercado. Furlan (Desenvolvimento) disse: chegamos ao limite de ruptura."
     

  • "A delegação chinesa, após o reconhecimento, aceitou abrir o mercado de carne de frango e de boi para o Brasil."  
     

  • "Gostaria de tranqüilizar o setor produtivo brasileiro. Essa concessão não faz com que o governo brasileiro abra mão das defesas comerciais que existem hoje", disse Furlan.
     

  • "Na negociação com os chineses, o Brasil conseguiu flexibilizar condições sanitárias e veterinárias para exportação para a China de carne bovina desossada (incluindo miúdos) e de frango".
     

  • "Os trabalhos de negociação foram longos e complexos. Tratava-se de uma grande disputa de mercado", afirmou Roberto Rodrigues (Agricultura). "Mas isso [os acordos] vai abrir uma larguíssima avenida para o comércio entre os dois países."
     

  • "O gesto do governo brasileiro de conceder status de economia de mercado à China poderá dificultar a contestação de práticas desleais de comércio desse país pelo Brasil. Ao reconhecer que a economia chinesa é regida pelas regras de mercado, e não por um planejamento estatal, o Brasil não mais poderá aplicar, sem passar pela OMC, medidas antidumping, por exemplo, contra empresas chinesas. 'A partir desse reconhecimento, não poderemos tomar unilateralmente medidas de defesa comercial contra  a China. Vamos ter de negociar conforme as regras estabelecidas na OMC', disse Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil nos EUA."
     

  • "As aplicações não são imediatas. Para a China, o maior valor da atitude brasileira é que ela representa um voto a favor de peso na OMC." E a China vai precisar de todo o apoio possível. Os EUA continuam empenhados em manter a condição de economia planificada da China. Nos últimos dias, o governo americano abriu ações de antidumping contra os chineses." (Evaldo Alves, professor da FGV-SP).

           Sei que o mercado chinês é enorme e muitos colegas fabricantes o vêem  como fantástico para exportação de nossos calçados. Desconfio que nós, calçadistas, podemos ser usados como "produto de troca", a exemplo do que ocorreu com os EUA na questão da "briga" da química fina (há uns 15 anos) e mais recentemente com a Argentina, envolvendo o setor de autopeças.

A indústria de calçado tem características especiais: é intensiva em mão-de-obra, não é poluente, consome pouca energia, não consome água, não paga royalties, é 100% nacional e de grande mobilidade, instalando-se e adaptando-se em qualquer parte do país.

A indústria chinesa convive com câmbio favorável, legislação fiscal e trabalhista flexível e favorável ao empregador, convive com técnicos brasileiros que estão a transferir para lá tecnologia de produção e acabamento de calçados e, por fim, mas não por último nem menos importante, compram couro brasileiro em estágio primeiro (Wet Blue), que uma vez processado em curtumes italianos, é reexportado para a China.

O Brasil – assim entendido seus governantes, políticos e empresários – não pode negligenciar em relação aos efeitos perversos na indústria calçadista e na economia em geral.

Concordo com o Ministro da Agricultura quando diz que o acordo com o presidente chinês vai “abrir uma avenida larguíssima para o comércio entre os dois países”. Desconfio, apenas, que no setor de calçados a via vai funcionar em mão única, no sentido China-Brasil. Daí a minha grande dúvida: vamos invadi-los ou permitir, silentes e omissos, quem sabe coniventes, que eles não invadam?

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