Economia cresce e crise política se aprofunda:
Até onde vai o paradoxo brasileiro?
Flávio Castelo Branco
Coordenador da Unidade de Política
Econômica da Confederação Nacional da Indústria
Economia e política vivenciam momentos diferentes. Enquanto o ambiente político encontra-se em alta ebulição – com a surpreendente permanência, e até mesmo intensificação da crise, sem um horizonte e um desfecho previsível –, a esfera econômica mostra tranqüilidade e uma evolução positiva. Este contraste, de certo modo intrigante e paradoxal, suscita uma questão: pode a economia continuar a apresentar bons resultados mesmo em um ambiente de crise política aguda? Ou, em um linguajar que se tornou comum, está a economia “blindada aos efeitos negativos exógenos”, como é o caso da crise política, e pronta para iniciar um longo ciclo de crescimento? Estas indagações surgem, e se justificam, pelas atuais trajetórias, completamente opostas, da economia e da política.
Do lado da economia, o momento é, de fato, muito favorável e enseja otimismo. A despeito de dificuldades relacionadas à política monetária, com a prevalência de taxas de juros elevadas por um período de quase um ano, a situação econômica mantém-se estabilizada. A trajetória da inflação aponta convergência para a meta de inflação, a indústria e o PIB voltaram a registrar crescimento no segundo trimestre, o desemprego se reduz nas grandes regiões metropolitanas, o rendimento real melhora (até mesmo como resultado da queda da inflação) e, por fim, o superávit primário do setor público e o saldo comercial batem recordes. Este é um quadro doméstico bastante favorável que difere do que prevaleceu na virada de 2004 para 2005, quando a inflação renitente determinou o aperto monetário e conduziu a expectativas pouco otimistas quanto à evolução da economia.
À primeira vista, esta situação sugere a ausência de problemas ou dificuldades para a continuidade do crescimento da economia. Todavia, a questão não é bem assim. A economia brasileira cresce menos que a economia mundial e, mais importante, bem menos que os outros países emergentes. Isto significa que não estamos aproveitando na íntegra o ambiente global favorável à expansão. Ou seja, poderíamos crescer mais intensamente.
É importante, portanto, identificar as razões deste crescimento menor que o permitido pela economia internacional e por nosso potencial de recursos. Ademais, é bom lembrar que nas últimas décadas a economia brasileira alternou ciclos de crescimento com períodos de estagnação ou mesmo queda da renda per capita.
Não são questões fortuitas ou acidentais que limitam nosso crescimento. É importante destacar que nestes 25 anos de oscilações, a taxa máxima de crescimento nos “picos”, isto é, nos momentos de ritmo mais intenso, têm sido cada vez menores e bem aquém das observadas entre os países assemelhados ao Brasil. Esta tendência é preocupante, pois denota uma incapacidade do País em atingir uma trajetória de crescimento sustentado e que existem fatores que limitam a capacidade de crescimento do País.
Esta situação espelha restrições estruturais, não adequadamente compreendidas e enfrentadas, que impedem o pleno aproveitamento do potencial de crescimento. É comum, após a superação de cada crise, ocorrer um profundo acesso de miopia e caírmos na armadilha da postura ufanista de acreditar que agora voltaremos a crescer, sem promover a eliminação das restrições ao crescimento. É uma avaliação equivocada que tem conduzido à tendência de semi-estagnação da economia, pois crescer próximo à população significa renda per capita virtualmente constante. Não podemos correr este risco agora.
As restrições encontram-se na agenda das reformas inconclusas. Reformas incompletas ou limitadas, como a da previdência e a tributária, ou não enfrentadas, como a do Estado ou a Administrativa a mantêm uma estrutura estatal superdimensionada e inadequada às necessidades de uma economia cada vez mais integrada ao mundo exterior. O resultado é perda de competitividade dos produtos brasileiros nos mercados mundiais devido à excessiva e desproporcional carga tributária, ao elevado custo do capital e do financiamento, a deficiências da infra-estrutura, e da baixa qualidade dos serviços de educação e saúde necessários ao desenvolvimento e de uma força de trabalho eficiente e de alta produtividade.
Não se pode negar avanços nesta esfera, mas foram tímidos e aquém do necessário para garantir ganhos expressivos e permanentes de competitividade. Nestes temos, chega a surpreender o vigor exportador dos últimos anos. Este se explica, além da mudança na política cambial em 1999, mais por expressivos aumentos de produtividade das empresas e por estratégias empresariais de inserção nos mercados internacionais que pela superação dos obstáculos do Custo Brasil.
A entrada em um ciclo prolongado de crescimento exige a superação destas restrições através de diversas reformas de maior ou menor complexidade. A agenda destas reformas encontra-se atualmente paralisada pela indefinição do imbróglio político e a permanência deste quadro de paralisia pode comprometer o andamento desta agenda e impedir as definições indispensáveis à criação do ambiente econômico necessário ao crescimento sustentável. Decisões de investimento podem vir a ser postergadas pela perda de confiança com a deterioração do ambiente político.
Em suma, o atual paradoxo do bom ambiente econômico e da má situação da política não se sustenta no longo prazo. Não apenas é indispensável superar rapidamente as dificuldades políticas, provocar sinergia para acelerar o andamento das reformas. Este tempo é curto na véspera de um ano eleitoral. A demora em proporcionar o andamento desta agenda pode conduzir a nova frustração com o crescimento no futuro.
