A TI, Ó QUERIDA* (Economista Eliana Cardoso)
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Caruso não cantou “A te, o cara” no Teatro Amazonas, em Manaus. Não cantou, porque nunca lá se apresentou. A história não passa de balela, que Werner Herzog ajudou a espalhar com o filme “Fitzcarraldo” (1982). O site www.visitamazonas.com.br lista as companhias líricas que atuaram no teatro e, assim, desmente uma fantasia à qual já me acostumara.
A desilusão rouba parte do meu encantamento com os versos de Arturo a Elvira em “I Puritani”, encantamento associado não apenas à música de Bellini, mas também às conversas com mamãe, que, na mesma frase, referia-se à ópera e à visita de Enrico Caruso à selva. |
Divago. O assunto não é o “bel canto”, nem a mais querida das criaturas. Mas a inauguração do teatro de Manaus, em 1896, com seus arquitetos, construtores, pintores e escultores, que vieram da Europa no apogeu do ciclo da borracha.
Entre 1840 e 1911, o preço da tonelada de borracha subiu de £ 45 para £ 512 – quase 15% ao ano – à medida que os usos industriais da borracha se multiplicavam. As toneladas de borracha exportada quintuplicaram-se entre 1870 e 1911. Manaus se cobriu de luxos. Foi a primeira cidade da América do Sul a ter um bonde. Seus residentes mandavam a roupa para lavar em Lisboa. “Lucevano le stelle” até que o colapso do preço da borracha acabou com a festa, esvaziou o teatro e apagou os astros.
Conto a história do “boom” da borracha por dois motivos. O primeiro é ilustrar os efeitos de uma mudança nos termos de intercâmbio. Um aumento dos preços de exportação em relação aos de importação significa um aumento de renda real e seus benefícios se espalham rapidamente. O aumento dos lucros dos exportadores gera um aumento dos investimentos no setor. Investimentos e emprego se propagam.
Hoje, o Brasil se beneficia do crescimento mundial – e do crescimento da China em particular, com sua demanda por “commodities”, em cuja produção o Brasil tem inegável vantagem comparativa. Entre agosto de 2002 e agosto de 2005, o preço das nossas exportações de semimanufaturados subiu 43% e o preço de nossos produtos básicos, 59%.
São visíveis os benefícios que o choque positivo de nossos termos de intercâmbio trouxe à economia. A apreciação cambial permitiu a redução da dívida externa privada. Estima-se que a dívida de médio e longo prazo do setor privado, que chegou a US$ 102 bilhões em 1999, estará em US$ 60 bilhões no final de 2005. O impacto dos preços das exportações sobre o investimento já se manifesta. Fernando Dantas (“Estado de S.Paulo”, 25/9) calcula em R$ 68 bilhões os projetos de investimentos voltados para a produção de insumos básicos até 2011.
O segundo motivo é lembrar que exportar “commodities” – e em particular os semimanufaturados que agregam valor aos bens primários – não sela o destino de um país. Não obstante o final infeliz do “boom” da borracha, um choque positivo dos termos de intercâmbio pode deixar uma herança mais sólida e não precisa transformar um país numa Venezuela ou numa Nigéria, onde, apesar do petróleo abundante, os erros de política econômica, o despotismo e a corrupção deixam a maioria da população no atraso e na pobreza.
Em 1876, Sir Henry Wickham apanhou 70 mil sementes das nossas seringueiras e as enviou para a Ásia. Malásia, Indonésia e Tailândia hoje respondem pela produção de 90% da borracha natural no mundo. Embora essa produção tenha perdido sua importância para os três países, que agora se especializam na exportação de eletrônicos, eles ainda vendem 42 produtos diferentes de borracha natural, que vão de luvas cirúrgicas a sofás.
Não faltam exemplos de países que souberam fazer bom uso de seus recursos naturais e sobreviver às reviravoltas dos termos de intercâmbio. A Austrália, com um PIB per capita de US$ 30 mil, exporta bens agrícolas e minerais. Os minerais representam 45% de suas exportações. A Nova Zelândia, com PIB per capita de US$ 25 mil, tem nas exportações de laticínios, carne e produtos florestais 40% de suas exportações totais. O Chile enriqueceu exportando cobre e produtos agrícolas. Transformou suas uvas em vinho e colocou etiqueta no seu tomate, da mesma forma que a Nova Zelândia transformou o leite de suas vacas na melhor manteiga do mundo.
O sucesso da Austrália, Nova Zelândia e Chile não dependeu de fórmulas mágicas. Dependeu de políticas econômicas sensatas. Do uso dos recursos da receita tributária para investir na educação e na pesquisa. Da determinação de não inibir o crescimento de setores mais dinâmicos através de proteção comercial para os menos ágeis. Pois a abertura da economia convida investimentos em novas tecnologias com conseqüências positivas para a produtividade. Aumenta a competição, incentiva a eficiência, reduz pressões inflacionárias.
“Fitzcarraldo”, o filme que abriu a coluna, descreve uma missão impossível. Um homem quer transportar um navio de um rio para outro, rolando a embarcação por terra. Também é missão impossível promover a competição e o crescimento da produtividade com medidas protecionistas e barreiras ao comércio. As negociações no âmbito da Rodada Doha abrem as portas para a mobilização do interesse dos consumidores, o boicote aos “lobbies” e a redução multilateral da proteção. O Brasil pode trocar uma redução de tarifas sobre produtos industriais por maior acesso de seus produtos agrícolas aos mercados desenvolvidos.
A oportunidade e os benefícios da liberalização são grandes. Se os juros altos e a carga tributária pesada prejudicam a competitividade de nossos produtos no mercado externo, é bom reduzir gastos públicos e colocar, no lugar dos subsídios para os privilegiados, cortes, para todos, de tributos e juros.
O BC errou na dose. A prova são projeções de inflação abaixo da meta. Já passa da hora de cortar a Selic e multiplicar os benefícios da atual conjuntura mundial.
* Originalmente publicado no Jornal Valor Econômico de 29/09/05.
Eliana Cardoso, Ph. D. em Economia pelo MIT , é Professora Visitante da FGV-São Paulo e colunista do jornal Valor Econômico . Trabalhou no Banco Mundial e no FMI. Está lançando agora em novembro o livro “Fábulas Econômicas”.
eliana.a.cardoso@terra.com.br
