Exportação de Wet Blue: AICSUL defende a taxação e reivindica aumento da alíquota
Cezar Müller - Presidente

A AICSul – Associação das Indústrias de Curtumes do Rio Grande do Sul –, a partir de pesquisa realizada junto às empresas associadas, detectou que 76% delas desejam a elevação, acima de 7%, da taxa para as exportações de couros no estágio de wet blue. A posição está alicerçada em argumentos claros. Não tem sentido um país com capacidade tecnológica e inteligência para agregar valor ao couro simplesmente repassar a matéria-prima para que outros ganhem com ela. Se não fosse assim, porque os nossos principais competidores internacionais mantêm regras que dificultam a saída de wet blue? Estão todos errados e o certo é liberarmos a nossa para eles? Como princípio, defendemos o livre mercado. Porém, não podemos deixar de considerar a realidade mundial no setor coureiro. Estimular a agregação de valor ao couro é uma prática dos nossos mais diretos concorrentes internacionais:
Argentina produz 13 milhões de couros/ano e aplica 15% de imposto de exportação sobre o wet blue, usando como base o preço do couro americano. Portanto, a alíquota chega a 25% sobre o preço FOB argentino.
A Rússia produz 13 milhões de couros/ano e aplica 20% de imposto de exportação sobre o wet blue.
Índia produz 40 milhões de couros/ano e proíbe a exportação de couro salgado e wet blue.
A China produz 40 milhões de couros/ano e processa todo seu couro em seu território, resultado de medidas restritivas às exportações dos couros em estágio primário e forte política de incentivo à exportação de produtos elaborados e manufaturados.
Países da Ásia e a União Européia, principais importadores de couros semi-acabados e acabados do Brasil, sobretaxam suas importações desses couros com maior valor agregado em, no mínimo, 6% sobre o valor exportado, dificultando a entrada do produto brasileiro e, conseqüentemente, fortalecendo suas políticas de geração de emprego e renda em seus países.
Só não vê quem não quer que a taxa de 9% inibiu as exportações de nosso couro ainda como matéria-prima e estimulou as vendas externas de couros acabados. O Brasil, antes da taxação, chegou a exportar metade da sua disponibilidade de couros como matéria-prima, mesmo tendo capacidade instalada, mão-de-obra qualificada e tecnologia para agregar valor a estes couros. Com a taxação de 9% nas exportações de wet blue, as vendas externas neste estágio estagnaram, e o aumento da produção se refletiu em crescimento forte e constante das exportações de couros com maior valor agregado, aumentando consideravelmente a importância do produto na pauta das exportações brasileiras. Também se verificaram investimentos em novas plantas de acabamento de couros, trazendo na esteira a criação de milhares de novos empregos.
Este fato pode ser confirmado na tabela ao fim deste texto. Dela podemos extrair o seguinte: de 1994 a 2000 (período sem taxação), a exportação de Wet Blue cresceu 169% em quantidade, e a de ACABADO, cerca de 5%; de 2000 a 2005 (já com a taxação), a exportação de Wet Blue cresceu apenas 55%, enquanto o crescimento da quantidade exportada de ACABADO saltou para 388%.
A AICSUL entende que foi um erro permitir que a taxação inicial de 9% caísse para 7%, interrompendo um processo que estava sendo muito benéfico para o setor. Porém, é possível reverter, fazendo com que retorne a regra que estancou o crescimento das exportações de wet blue.
O setor reivindicou, quando se decidiu pela taxação, que o valor arrecadado fosse aplicado em programas de interesse do setor. Infelizmente, não houve sensibilidade governamental para esta solicitação. Solicitamos também política industrial, para que o país deixe de ser exportador de matérias-primas e assuma o seu potencial. Mas não vemos a questão da taxação pelo ângulo da transferência de dinheiro da iniciativa privada para o setor público. O objetivo não foi pagar mais imposto, mas tornar competitivo no mercado internacional o couro de maior valor agregado. E preferiríamos ver quanto o Brasil estaria ganhando se estivesse em vigor uma regra que efetivamente estimulasse a agregação de valor ao couro. É importante lembrar que um couro no estágio de wet blue vale, em média, US$ 28 no mercado internacional, enquanto um couro acabado vale em torno de US$ 80. Então, bastaria um aumento de 8% nas exportações de couros acabados, para que se tivesse uma receita das empresas do setor equivalente ao que hoje é pago de taxação pelas exportações de wet blue. Se considerarmos que as vendas externas de couros acabados cresceram 388% nos cinco anos de vigência da taxação, fica fácil ver o quanto o setor teria ganhado a mais se ela tivesse sido mantida em 9%. Estes recursos seriam revertidos pelas empresas em crescimento do setor e bem-estar social.
A taxação não só deve continuar, como a AICSUL entende que o cronograma que prevê a taxação em 4% em 2007 deve ser revisto, se possível retornando ao patamar inicial – 9% - ou, quem sabe, indo além dele.
EXPORTAÇÕES DE COUROS BOVINOS DO BRASIL POR ESTÁGIO – 1994/2005
ANO |
SALGADO |
WET BLUE |
CRUST
(SEMI-ACABADO) |
ACABADO |
|
Qtd. |
US$ |
Qtd. |
US$ |
Qtd. |
US$ |
Qtd. |
US$ |
1994 |
67.345 |
1.709.546 |
3.837.720 |
161.144.004 |
1.628.908 |
106.515.142 |
1.616.223 |
144.550.729 |
1995 |
753.224 |
13.463.730 |
7.499.038 |
274.543.152 |
1.406.771 |
98.443.288 |
1.502.250 |
140.685.815 |
1996 |
584.164 |
17.222.005 |
10.042.650 |
335.710.610 |
1.617.472 |
106.572.530 |
1.916.565 |
167.807.964 |
1997 |
712.702 |
11.851.967 |
11.421.920 |
394.584.318 |
1.831.204 |
134.864.168 |
1.992.831 |
177.951.972 |
1998 |
712.702 |
12.378.344 |
11.563.444 |
381.371.062 |
1.730.480 |
120.346.523 |
1.586.021 |
140.401.689 |
1999 |
313.999 |
3.725.374 |
10.327.644 |
303.061.475 |
2.205.812 |
131.466.133 |
2.032.367 |
147.349.246 |
2000 |
119.886 |
1.414.124 |
10.328.196 |
424.759.397 |
2.638.646 |
179.793.315 |
1.701.764 |
138.754.194 |
2001 |
270.802 |
5.342.160 |
10.482.942 |
398.098.807 |
4.182.933 |
245.493.070 |
2.263.730 |
214.258.757 |
2002 |
318.231 |
4.813.844 |
12.535.585 |
395.553.526 |
2.318.477 |
167.629.258 |
3.983.619 |
362.242.425 |
2003 |
259.456 |
2.498.900 |
13.264.020 |
390.684.671 |
2.486.505 |
173.934.143 |
5.886.374 |
468.981.244 |
2004 |
188.175 |
2.348.626 |
15.839.417 |
455.367.541 |
2.596.668 |
183.458.034 |
7.747.608 |
600.016.219 |
2005 |
280.862 |
5.250.718 |
16.000.484 |
427.083.015 |
3.632.671 |
239.413.838 |
8.312.932 |
649.036.350 |
FONTE: SECEX / AICSUL |
|
|
|
|
|
|
Revista Courobusiness – Ed. 48 – Set/Out 2006
