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Fui conhecer as ameaças, vi oportunidades!

Rafael Araújo de Souza Coelho (*)


“Uma imagem vale mais do que mil palavras” – foi exatamente esta a minha sensação ao visitar a China. Apesar de ler e acompanhar pela imprensa toda a sua evolução nos últimos anos, ter a oportunidade de conhecer in loco a realidade chinesa foi muito contundente.

A China é um continente – esta é uma expressão utilizada muitas vezes para nos referirmos ao Brasil – mas tem uma conotação muito mais abrangente lá. Seja pela dimensão populacional e territorial, ou pela diversidade cultural, lingüística, além da inusitada convivência com os pólos de Hong Kong e Macau, que economicamente têm dimensões maiores que muitos países.

A mão de obra é um ponto importante – é o principal fator na determinação do desenvolvimento. Todas as fábricas que visitei têm seus alojamentos e refeitórios. Os operários, geralmente oriundos de áreas rurais, dormem e recebem 3 refeições diárias na própria empresa. Trabalham 6 dias na semana, até 11 horas por dia. O governo nas regiões mais desenvolvidas começa a cobrar a redução das jornadas para 8 horas diárias – principalmente nas atividades de escritórios e naquelas onde não há pagamento por produção. Pude perceber que esta política aparentemente não é universal. Na maioria das fábricas os operários são pagos com um fixo baixo e mais um valor por peça produzida, e este limite de 8 horas é observado apenas no escritório.

O custo de um operário que 5 anos atrás era ao redor de usd 70/mês – agora já evoluiu para usd 120, incluindo todos os encargos, alimentação e alojamento. Este valor varia de região para região. Não há aparentemente nenhuma burocracia na contratação ou demissão de pessoas. Há hoje nas regiões mais industrializadas uma maior disputa por mão de obra treinada, e isto tem repercutido em aumentos salariais. Os chineses trabalham geralmente por períodos de um ano, praticamente em regime de internato, e retornam para casa apenas no período do Ano Novo Chinês – nesta parada entre 20 e 30% deles não retornam ao emprego original. Este índice tem aumentado a cada ano devido a oferta de novos empregos em setores diferentes - já há disputa por mão de obra qualificada.

No que pese a água ser mais barata que em Pernambuco, a China enfrenta grandes restrições e escassez de recursos hídricos. Por conta disto os curtumes foram retirados da lista das 2.000 indústrias prioritárias do país. Estima-se que em 2010, mantendo-se as atuais taxas de crescimento faltará água potável. Por este motivo o governo está modificando a legislação fiscal, que incentiva a indústria curtidora, tem fechado e definido limites de produção para empresas ( algumas tem permissão para trabalhar apenas com 30% da capacidade ) ou exigido a realocação de curtumes para áreas mais distantes dos grandes centros. Desta forma, tenta conter o consumo de água e reduzir o volume de efluentes.

Esses fatores descritos acima podem se transformar numa grande vantagem competitiva para o setor curtidor no Brasil. A nossa disponibilidade de matérias primas ( maior rebanho comercial do mundo ) e de água nos dão condições naturais de ocuparmos uma posição confortável como fornecedor de produtos com maior valor agregado. Atualmente grande parte do couro brasileiro é exportado no estágio wet blue – que exige do comprador uma certa disponibilidade de água para processá-lo até acabado. Outra possibilidade é industrializarmos matérias primas oriundas de outros países, principalmente os Estados Unidos, que atualmente são embarcadas no estágio bruto para processamento na China ou na Coréia do Sul. Para isto, dois fatores são fundamentais: a mudança da estrutura tributária e a preocupação ecológica. 

A simplificação tributária é uma condição essencial para a maior inserção do Brasil no contexto internacional. A complexidade jurídico-tributária no caso brasileiro, é um fator mais importante do que a produtividade na determinação da competitividade de uma empresa. Isto é uma clara inversão de valores – ao invés de nos preocuparmos em produzir melhor, nos preocupamos em entender aspectos legais e contábeis das nossas empresas. Gastamos mais tempo preocupados com contabilidade, do que com produção. É urgente rever a sistemática de ressarcimento dos créditos tributários e o regime de draw back, o percentual de valor adicional exigido para possibilitar ampliarmos nossos horizontes de exportação mesmo com processamentos simples ou até mesmo atividades comerciais.

Em relação ao fator ambiental, quase todos os curtumes brasileiros, possuem uma excelente estrutura para tratamento de efluentes. A excelência na interação com o meio ambiente, nos credencia a ocupar um espaço de vanguarda no setor coureiro mundialmente. Esta será condição fundamental para funcionamento desta indústria em qualquer parte do mundo a curto prazo. A escassez de recursos naturais e os problemas ambientais nos outros países serão aliados da indústria brasileira. Esta viagem foi importante para vislumbrar a possibilidade de trabalharmos este mercado com produtos mais elaborados, semi acabados e acabados –  passo que é imediato.

O Brasil precisa decidir um novo modelo de desenvolvimento. Apesar da economia brasileira dar passos rumo ao desenvolvimento, fica a sensação que o nosso ritmo é muito inferior ao deles. A adoção de benefícios fiscais nas regiões mais pobres do Brasil deveria se basear principalmente nas relações trabalhistas, para se atingir diretamente o objetivo principal da concessão de incentivos que é a geração de emprego e renda. Uma possibilidade é adotar em regiões como o semi-árido nordestino o regime de cooperativas de trabalho ou a redução dos encargos e a flexibilização das contratações e demissões, para atrair empresas de mão de obra intensiva e gerar empregos onde não existe. O Brasil precisa realizar um amplo conjunto de reformas: educacional, fiscal, tributário, trabalhista, previdenciário, visando nos aproximar da nova realidade mundial. A China hoje é um país com viés mais capitalista que o brasileiro. È preciso inserir mais pessoas na economia de mercado para que elas passem a aspirar melhores condições de vida, progresso e prosperidade – o assistencialismo não inspira nas pessoas a vontade de crescer, e destrói a iniciativa e a vontade de lutar.

Sei que a transposição do modelo chinês é impossível e não é nossa meta, mas precisamos encontrar a nossa fórmula para andarmos a passos mais rápidos. Todos precisamos dar uma contribuição maior – mais dedicação, inventividade e principalmente muito trabalho.

(*) Diretor-superintendente do Curtume Moderno / Petrolina (PE)

 Revista Courobusiness, Ed. 58 – Mai/Jun 2008

 

 
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